O Último Homem Bom
Capítulo 1
Vesterbro – Copenhague
A neve estalava sob os sapatos de Niels enquanto ele trotava pelo estacionam ento. Em bora não ouvisse Hannah, ele sabia que ela estava ali.
– Niels!
Ele desistiu de puxar a m ala pela neve do chão e a levantou para carregá-la. Havia algo de protetor na m ala pesada. Quase com o um colete à prova de balas.
– Você sabia disso o tem po todo, Niels.
Agora ela estava logo atrás dele.
– Não sei do que você está falando.
– É você, Niels.
– Você não vê que isso é ridículo dem ais?
– Ridículo?
Ele passou a andar m ais devagar.
– É porque agora a coisa tem a ver com pessoas reais? É isso que torna o caso tão ridículo? – Ela o alcançou e agarrou o seu braço. – Não foi isso que você m e disse?
Niels não respondeu. Eles tinham chegado no carro.
– Quando foi a últim a vez que você viaj ou para algum lugar?
Niels evitou olhar para ela. Recusou-se a responder à pergunta.
Hannah elevou a voz:
– Me responda, Niels! Se é tão ridículo, você pode perfeitam ente m e responder.
Niels estava rem exendo nos bolsos.
– É isto que você está procurando? – Ela segurava a chave do carro diante dele.
– Droga. É o seu carro.
– Exatam ente. Vam os?
Hannah destravou as portas. Niels j ogou a m ala no banco traseiro, ao lado da caixinha de papelão com todos os docum entos referentes aos assassinatos. Depois ocupou o banco do m otorista e bateu a porta. Hannah se sentou ao lado dele.
– Tudo bem , Niels Bentzon – disse ela. – Aonde nós vam os?
Ela olhou para ele, esperando um a resposta. Finalm ente ele disse com voz tensa:
– Eu não sou m édico. Mas j á ouvi falar em reações psicossom áticas. Percepções sensoriais perturbadoras. Estados de consciência anorm ais. Por exem plo, o fenôm eno da stigmata.
O cérebro de Niels estava trabalhando febrilm ente. A lem brança de um program a de televisão veio em seu socorro.
– São Francisco de Assis.
– O que é que tem ele?
– Nos últim os anos de vida ele andava por toda parte com pés e m ãos sem pre sangrando. A coisa vinha de dentro dele. E quanto àquele outro hom em ... qual era o nom e dele? – Niels enterrou o rosto nas m ãos enquanto recapitulava o program a de televisão. – Um padre baixo e gordo. Era italiano? Até puseram um a estátua dele no fundo do m ar, perto das ilhas Trem iti. Padre Pio! Você j á ouviu falar dele? Viveu no século XX. Durante m ais de cinquenta anos ele sofreu com a stigmata. O corpo hum ano pode produzir os fenôm enos m ais inexplicáveis. É com isso que nós estam os lidando aqui. Não pode ter outro sentido.
– Por que você está falando de sentido?
Niels não respondeu.
Ela persistiu.
– Quem diz que tem de haver um sentido? Tem um sentido no fato de os planetas se m overem num a elipse em torno do Sol? Ou no...
– Eu não sou religioso, Hannah. Para m im é preciso ter um a explicação natural.
– Sim . E nós encontram os a explicação natural. Só que não a entendem os. É assim que com eçam todas as descobertas.
Ele balançou a cabeça.
– Pense nisso com o o fenôm eno que se com porta com o um a lei da natureza.
– Um a lei da natureza?
– A definição é algo assim : um a conexão bem fundam entada entre entidades físicas. Essencialm ente, um a lei da natureza não pode ser alterada. Você pode gritar e chorar, Niels, m as não pode fazer nada quanto a isso. Olhe para m im .
Ele obedeceu sem nada dizer.
– Por que é tão im pensável que o fenôm eno siga um padrão específico?
– Com o é que isso é possível?
– É com o na m atem ática. Inicialm ente parece que o caos dom ina. Não conseguim os entendê-la. Mas de repente – quando podem os nos distanciar um pouco, quando quebram os o código – o sistem a se torna aparente. O sistem a surge do caos. As coincidências se dissolvem bem diante dos nossos olhos. Coisas, núm eros, convergem e podem ser inseridos em fórm ulas. Todo m atem ático sabe disso.
– Hannah.
Ela não quis deixá-lo falar.
– A coisa pode parecer com pletam ente aleatória, Niels. O m odo com o o caso chegou a você. Tom m aso. Seu encontro com igo. Mas tudo se aj usta. Tudo faz parte do sistem a. A lei da natureza.
– Isso está m uito além da m inha com preensão – disse Niels, que na verdade falava consigo m esm o. Balançando a cabeça.
– Nem você nem ele conseguem viaj ar – prosseguiu ela. – Vocês são com o torres de celular à espera de um sinal. E então, de repente, vocês fazem um a coisa. Vocês começam a agir. Um feito que é parte de algo m aior.
– Algo m aior?
– Com o o soldado que libertou os prisioneiros e com isso os fez ter fé em ...
– Isso é som ente um exem plo – disse Niels interrom pendo-a. – E quanto ao russo?
– Ele salvou a m ãe e as crianças no teatro. Quem sabe o que vai resultar disso? Ou do garoto que recebeu um rem édio não autorizado e com isso sobreviveu? Todos vocês são com o ilhazinhas, Niels. Estão destinados a locais geográficos específicos. É neles que vocês agem com o protetores.