O Último Homem Bom
Corredores do Hospital Nacional – Copenhague
– Qual é o núm ero do registro civil dela?
Thor leu o núm ero. Os dedos de Casper dançavam sobre o teclado.
– Tanj a Munck tem três filhos. Seu divórcio foi concluído em 1993 no tribunal do bairro de Ly ngby...
Niels interrom peu-o im paciente.
– Tudo bem . Passe para o próxim o.
Hannah havia encontrado um .
– Thom as Jacobsen. Quarenta e oito anos de idade. Com o é que eu posso saber que tipo de trabalho ele faz? – Ela se voltou para Thor.
– Qual é o núm ero do registro civil dele? – indagou Niels.
– Aqui. – Casper encontrou o nom e Thom as Jacobsen no registro civil. – Sem filhos. Registrado com o vivendo com outro hom em .
Hannah sorriu.
– Isso significa que ele está desqualificado?
– Claro que não. Descubra onde ele está e m e ligue – disse Niels.
– Ele está trabalhando agora?
Thor fez um a ligação. Niels consultou o relógio enquanto transpunha a porta. A últim a coisa que ele ouviu foi a voz de Thor, cheia de ansiedade e entusiasm o.
– Segurança? É do departam ento de pessoal. Thom as Jacobsen. Ele j á chegou para o turno?
Corredores do Hospital Nacional – Copenhague
14h37
Dentro de um a hora alguém ia m orrer.
As pessoas m orriam o tem po todo, especialm ente num lugar com o aquele. Em m édia, a cada dia vinte pessoas resolviam deixar seu corpo naquele hospital. Por outro lado, o m esm o núm ero de bebês nascia. O telefone de Niels tocou. Era Hannah.
– Thom as Jacobsen não tem nada a ver.
– E quem é o próxim o?
– Vá para a ala cirúrgica.
Um a enferm eira estava passando por Niels.
– Onde fica a ala cirúrgica? – indagou ele.
– Vá de elevador até o sexto andar e depois siga à esquerda.
– Obrigado.
Ele ouviu a voz de Hannah no telefone.
– Posso lhe passar algum as estatísticas enquanto você está no elevador?
– Claro, pode com eçar.
– O hospital tem m ais de sete m il e quinhentos em pregados. A qualquer hora do dia m etade deles está aqui. Mas os que nos interessam são os que têm entre quarenta e quatro e cinquenta anos, e m il e cem pessoas se enquadram nessa categoria.
– Quantas dessas estão trabalhando agora?
– Mais ou m enos a m etade.
– Então estam os falando de quinhentas e cinquenta pessoas? – perguntou Niels parecendo otim ista.
– Além disso nós podem os identificar rapidam ente as que não têm filhos. Cerca de um terço, ou sej a: cento e oitenta pessoas.
– E dessas eu im agino que Casper possa constatar que um terço tem registros policiais.
– Então restam cento e vinte. Estatisticam ente falando, pelo m enos.
– Quem é que eu estou procurando agora? – perguntou Niels.
– Um m édico-residente. Dr. Peter Winther.
O corredor estava silencioso. Havia um televisor ligado m as sem som , totalm ente ignorado. Um a enferm eira que exam inava papéis ergueu o olhar. Niels lhe m ostrou sua identificação policial.
– Estou procurando Peter Winther.
– Ele está visitando os pacientes.
– Onde?
Ela apontou para o final do corredor. Niels viu um m édico sair de um quarto com um pequeno cortej o de enferm eiras.
– Peter Winther! – Niels cam inhou na direção dele, tirando do bolso sua identificação policial antes de alcançar o grupo. O rosto do m édico ficou lívido.
– Vão na frente e m e esperem no quarto do próxim o paciente – disse ele num m urm úrio ríspido para as enferm eiras.
– Polícia de Copenhague. – Niels não disse m ais nada. Ele percebeu que o m édico estava prestes a confessar algum a coisa. Ele ficou verm elho ao olhar para Niels.
– Você sabe por que eu estou aqui – disse Niels.
O m édico relanceou o olhar por sobre o om bro e se aproxim ou m ais de Niels.
– Você vai m e prender?
– Não. Nós só querem os ouvir o seu lado da história. Antes de tom arm os um a decisão.
– Meu lado? – O m édico bufou. – O m eu lado da história é que ela é totalm ente doida.
Niels viu a saliva se acum ular nos cantos da boca do m édico.
– E qualquer psiquiatra concordaria com isso. Ela não tem a m enor chance no tribunal. Você entende? Além disso foi em defesa própria. E as cicatrizes que eu tenho provam isso.
Peter Winther desabotoou a cam isa para m ostrar o seu pescoço. Longos arranhões com eçavam ali e desciam até o peito.
– Droga, quem tinha de dar queixa na polícia era eu. O que é que você faria se tivesse um a m ulher... – Ele se aproxim ou de Niels. Estava realm ente em ocionado. – Tudo bem , eu dei um tapa nela. Mas só um ! Um único tapa, e devia ter feito isso três anos atrás.
Niels olhou para o celular. Tinha um a m ensagem de texto: Ida Hansen. Da obstetrícia. Um a parteira.
– Que m erda. Eu não posso acreditar que ela foi dar queixa na polícia. É inacreditável. Eu tenho de arranj ar um advogado?
Niels balançou a cabeça.
– Não. Peço desculpas por ter tom ado o seu tem po.
Niels deixou para trás o dr. Peter Winther com o seu casam ento e o seu desespero.
– Fale com igo, Hannah. – Niels estava correndo.
– Ela é parteira, m as está no intervalo de alm oço. A lanchonete fica no térreo.
– Você não poderia organizar a relação pelo critério geográfico?
– Não estou entendendo.
– Pelo critério geográfico eu poderia com eçar em um a extrem idade do prédio e passar para a outra. Nós não vam os conseguir nada se ficarm os sem pre correndo de um a parte do hospital para outra.
Hannah não respondeu. Niels olhou pela j anela enquanto esperava o elevador. O sol ainda não averm elhara, em bora estivesse descendo rápido no céu. Ele ouvia a respiração de Hannah. Um a placa indicava a ala da m aternidade. Um a m ãe cansada em purrava um carrinho com o filho recém -nascido enquanto devorava distraidam ente um a barra de chocolate. O bebê olhava para o sol, exatam ente com o fazia Niels. O que será que se passa na cabeça dele?, pensou Niels. Se eu não soubesse das coisas poderia pensar que as faias do parque estão carregando nas costas o sol. Com o carregadores de caixão num cortej o fúnebre. Um sol agonizante que está sendo levado para o oeste.
Com um ding que até m esm o um surdo ouviria, o elevador anunciou a sua chegada.
– Agora eu estou no elevador. Vou descer – anunciou Niels para Hannah pelo celular.
– Ok. Ida Hansen. Quarenta e oito. Parteira. Depressa.
Hannah desligou.