O Último Homem Bom
Capítulo 4
Nyborg
O lugar tinha m esm o potencial. Inicialm ente Niels não havia percebido isso, m as depois sim .
A cela quase parecia um quarto de residência de estudantes, em bora o espaço fosse ligeiram ente m aior. Não havia m uita sem elhança com Alcatraz. Nada de portões de ferro batendo, som de argolas com chaves se entrechocando ou de botas m ilitares no passo duro de guardas sádicos. Nada de prisioneiros psicopatas com rosto tatuado, presos por terem com etido vários assassinatos em seguida a roubos m alogrados, à espreita para investir contra ele durante o seu sono. Nada de m urm úrios ansiosos vindos do corredor onde os prisioneiros condenados à m orte se arrastam no longo cam inho para a cadeira elétrica. Apenas um quarto absolutam ente com um com fedor de vôm ito. A cela era com o um hotel. As pessoas chegavam , tinham sua entrada registrada, ficavam ali por pouco tem po e depois iam em bora. O convidado de hoj e era Niels Bentzon.
Ele deu um a olhada nos arredores: um beliche, um a cadeira, um a m esa, um arm ário e quatro paredes vazias. Alguém sem grande dom ínio da ortografia escrevera com um pincel atôm ico na parede: Os políticos robam. Mas o lugar tinha potencial. Ele estava trancafiado. Tudo o que eles tinham de fazer era lhe dar um pacote com com ida enlatada e j ogar fora a chave durante um a sem ana.
Onde estaria Hannah? Em outra cela? Sendo interrogada? Talvez a tivessem deixado ir em bora. Niels ficou pensando no m odo com o acontecera a prisão. Im aginando com o tinham conseguido encontrá-lo tão depressa. Talvez fosse por causa da m oça do quiosque. Até onde ele sabia, norm alm ente não havia câm eras de segurança nas pontes. Ele desistiu de tentar descobrir. Havia anos ele j á não participava de buscas de pessoas e ultim am ente havia surgido m uita tecnologia nova. Talvez um satélite os tivesse rastreado.
A cela estava fria. A delegacia de polícia daquele lugar devia estar tentando poupar energia elétrica. Ou então aquilo era parte de um a estratégia m ais am pla. Já que não era possível desgraçar a vida dos prisioneiros fazendo-os passar fom e ou surrando-os, nos m eses do inverno a tem peratura do ar-condicionado era m antida baixa. Niels conhecia essa tática.
Ele ouviu o som de um a porta sendo destrancada. Um a m ulher entrou. Lisa Larsson. Esse nom e ficaria m uito bem num a atriz pornô, pensou Niels quando ela se apresentou. Ou num a escritora sueca de rom ances de detetive. Ela deu um rápido sorriso m as não havia nada de agradável no seu tom de voz quando o convidou para segui-la.
– Você é da polícia? – Lisa Larsson – j ovem , atraente, com um a expressão fria – parecia genuinam ente surpresa. Os olhos de Niels passearam pelas figuras de duendes de Natal no peitoril da j anela.
– Sou. Sou negociador da polícia para conversar com pessoas que m antêm reféns ou am eaçam com eter suicídio.
– Por que você não disse isso antes? – O outro policial, Hans Rishøj , era um hom em m ais velho e fazia Niels se lem brar de um professor que ele havia tido em outra vida. O hom em olhava para baixo exam inando papéis e parecia confuso enquanto cofiava a barba curta e bem aparada, cuj o fim era lhe em prestar a autoridade que evidentem ente ele não tinha.
Niels perguntou levantando os om bros:
– Com o foi que vocês m e encontraram tão rapidam ente?
Sua pergunta foi ignorada.
– Você trabalha em Copenhague?
– Trabalho.
Eles trocaram um olhar. Passaram -se m uitos segundos de um silêncio penoso. Niels não se surpreenderia se eles resolvessem libertá-lo im ediatam ente. Deve ter ocorrido um engano – esse pensam ento era palpável. Eles obviam ente sofriam com a ideia generalizada de que policiais nunca tinham problem as com a lei. Sentiam -se constrangidos por estarem sentados diante de um colega naquela situação. Niels viu isso nos olhares trocados entre eles e entendeu perfeitam ente aquele sentim ento. Era com o se eles estivessem traindo a instituição. Dado que todos odiavam a polícia, o que aconteceria se eles com eçassem a prender uns aos outros?
– Em Copenhague? – Hans em purrou os óculos para cim a. – Subordinado ao Som m ersted?
– Sim . Você conhece o Som m ersted?
– Um pouco. Não som os exatam ente am igos íntim os, m as estivem os j untos em várias ocasiões.
– Som m ersted não tem am igos íntim os. – Niels tentou sorrir.
– O que foi que aconteceu no posto de saúde com unitário? – Lisa estava m enos im pressionada com o status de Niels.
Niels olhou para ela. Recém -treinada, ansiosa por seguir rigorosam ente as norm as que tinha ainda frescas na cabeça. Ele resolveu que olharia só para ela durante aquela conversa. Gostaria de seguir as regras e não tinha vontade de continuar conversando fiado com Hans.
– O que foi que ele lhe disse? O cara que eu esm urrei?
– Allan... – Ela deu um a olhada no relatório. Era eficiente e inteligente. Evidentem ente am bicionava subir na carreira. Não era sua intenção desistir disso e arriscar ficar na ilha de Fy n nos próxim os vinte anos, pedindo às pessoas diante do restaurante que fizessem o teste do bafôm etro quando elas saíssem para a rua trocando as pernas depois do alm oço de Natal. – Ele disse que perto das catorze e trinta você arrom bou a clínica e entrou, nocauteou-o e depois saiu. Com isso. – Ela apontou para a m orfina que estava na m esa j unto com algum as seringas de plástico e outras pílulas que Niels havia j untado. Um a clara prova de que ele era dependente quím ico. Niels não estava pretendendo negar isso. A verdade era com plicada dem ais – quase sem pre é.
Silêncio. Hans se levantou.
– Vou ligar para o Som m ersted. – Ele foi para a sala contígua m as voltou logo em seguida.
– Seu chefe quer falar com você.
Assim que pegou o telefone, Niels percebeu: Som m ersted estava tentando agir com calm a e sim patia, m as sem conseguir transm itir nem um a nem outra. Sua respiração era rápida e irregular, e isso o entregava.
– O que é que está acontecendo?
– Eu sei, eu sei. – Niels se aborreceu porque sua voz saiu m uito fraca.
– O que é que você sabe?
– Sei que fui preso por forçar a entrada num posto de saúde.
– O que é que está acontecendo, Niels? – perguntou novam ente seu chefe, desistindo de parecer sim pático. O que restou foi um Som m ersted absolutam ente furioso. – E que diabo você está fazendo em Fy n?
Niels não respondeu. Achou o silêncio preferível a tentar apresentar explicações im possíveis. O que ele devia dizer?
– Estou esperando, Bentzon. – Som m ersted havia abrandado sua raiva.
– Tem a ver com o caso das pessoas boas que estão sendo assassinadas.
– Outra vez? – Um suspiro resignado, m elodram ático. Seguido pelo silêncio. Som m ersted estava pensando no que faria. Niels sentia isso. E com o era de se esperar: – Então é verdade o que eles estão dizendo.
– Eles?
– Era por isso que você precisava dos rem édios. Para você m esm o. Você não está bem , Niels.
– Não. Não estou.
– Não m e parece m esm o que você estej a bem .
Niels podia praticam ente ouvir Som m ersted pensando no telefone.
– Tudo bem . Eu quero que você volte para Copenhague. Vou dizer para o Rishøj atravessar a ponte com você. E o Leon vai te buscar lá.
– Rishøj ? – Niels olhou para Hans, que sorriu.
– Exatam ente. Saia agora. Eu encontro você na sede às... Ligue para m im quando você estiver chegando. Não poderem os evitar um a investigação interna.
Niels não estava ouvindo. Ele tinha ouvido apenas um a frase: Eu quero que você volte para Copenhague.
– Eu não vou voltar para Copenhague.
– O quê? – Som m ersted pareceu hostil.
– Eu não vou voltar para Copenhague.
Niels desligou. Ficou olhando para o am biente, que era um a réplica de Little House on the Prairie na polícia. Dois com putadores. Paredes decoradas com fotos de filhos e netos. Um artigo recortado do j ornal local. Polícia trava batalha contra a obesidade. Niels se perguntou o que seria aquilo m as não se deu ao trabalho de ler o artigo. O que eles estariam fazendo? Será que teriam com eçado a dar prêm ios para quem não negligenciasse suas atividades físicas?
– Tem os de ir agora– disse Rishøj com o quem pede desculpa.
Niels não se m exeu.
– Niels? A sua m ulher está esperando no carro.
– Ela não é m inha m ulher.
Rishøj vestiu o paletó.
– Rishøj , eu sei que provavelm ente isso vai lhe parecer m aluco, m as e se eu lhe pedir para m e prender aqui até sábado de m anhã?