O Último Homem Bom
Capítulo 21
Cannaregio, o G hetto – Veneza
– Bentzon...
Tom m aso di Barbara pôs o celular no canto da varanda e olhou para a cidade escura. Tentou pronunciar o nom e com pleto:
– Niels Bentzon. Quem é você?
Enquanto o resto de Veneza m orria quando chegava a noite e os em pregados do restaurante se apressavam para pegar o últim o trem para o continente, o Ghetto perm anecia anim ado. A m aioria da população da cidade vivia nas ruas em torno do bairro j udeu. Tom m aso ficou na varanda. Sirenes gem iam . Dentro de m eia hora a água subiria. Ele estava cansado. Não tinha energia para ir ao térreo e pôr as tábuas de m adeira nas portas. Lá em baixo, nas calçadas, seus vizinhos estavam atarefados. As pequenas tábuas de m adeira estavam sendo colocadas com cuidado entre as tiras de borracha dos dois lados de cada porta.
– Tom m aso!
Ele estava sendo cham ado pelo vizinho de baixo, proprietário do salão de beleza. Acenou para ele em resposta.
– Você não ouviu a sirene?
– Ouvi, j á estou indo.
O vizinho olhou-o preocupado. Tom m aso desconfiou que o hom em j á estava sabendo da sua suspensão. Era bem provável. Ele não se im portava. Em Veneza todo m undo sabia tudo sobre todo m undo; nesse aspecto a cidade era com o um a aldeia. Eles tam bém sabiam que a sua m ãe estava m orrendo. Sobretudo os vizinhos, pois ela era dona do prédio inteiro. O prédio não tardaria a passar para as m ãos de Tom m aso, e eles tem iam que ele o vendesse para algum am ericano rico.
– Eu faço isso para você – gritou o vizinho. – Onde foi que você guardou as pranchas?
– Em baixo da escada.
Tom m aso apagou o cigarro num vaso de planta e voltou a entrar no apartam ento. Um a única lâm pada estava acesa. Ele foi direto para a cam a. Mas ao cruzar a sala de estar parou e olhou a parede. Ele j á havia com eçado a pregar o m aterial do caso na parede do sul. Fotos das vítim as. Hom ens e m ulheres. Seus olhos, seus rostos. O m apa-m úndi com setas, m ostrando que as cenas dos crim es se ligavam de m odo engenhoso. As datas. Todos os detalhes sobre tudo o que tinha relação com o caso. Tom m aso ficou ali olhando. Fascinado e hipnotizado. Am edrontado, acim a de tudo.
Ele tinha im prim ido as últim as fotos recebidas da Índia, m ostrando as costas do econom ista m orto. Raj Bairoliy a. As fotos dos parentes finados que sua m ãe tinha dependurado na parede haviam sido forçadas a ceder lugar para outros m ortos. Mortos m ais im portantes. Mortes que tinham certo significado – Tom m aso estava convencido disso. Porque não havia coincidência quanto àquelas m ortes. As vítim as se ligavam de algum m odo, ele só não sabia com o. E ele não conseguia convocar m ais ninguém para assum ir a investigação. As pessoas não estavam interessadas. Alguns m eses antes ele havia ligado para a Interpol e fora transferido um a centena de vezes até ser finalm ente encam inhado para um a m ulher confusa. Ela o ouviu com indiferença e lhe pediu que m andasse um relatório. Três sem anas depois ele recebeu a resposta. O caso tinha recebido um núm ero e seria tratado logo que chegassem a esse núm ero, m as isso certam ente levaria um ano e m eio.
Um ano e m eio. Não dava para esperar tanto tem po. Tom m aso alfinetou ao lado da foto do hindu m orto a foto de um advogado am ericano tam bém m orto. Russell Young. Núm ero trinta e três. Raj Bairoliy a era o núm ero trinta e quatro.