O Último Homem Bom
Capítulo 42
Irm ã Magdalena olhou para o corredor do hospital antes de calçar as luvas. Paz e silêncio. Nenhum dos doentes term inais estava gem endo. Mas ela sem pre se sentia culpada quando precisava sair; m uitas vezes as outras enferm eiras praticam ente precisavam em purrá-la para fora do prédio. Hoj e não era diferente. Pelo contrário, hoj e era pior. Ela resolveu pôr a cabeça no quarto da signora Di Barbara um a últim a vez antes de sair.
A m ãe de Tom m aso ergueu o olhar assim que Magdalena entrou no quarto.
– Você vai sair, irm ã?
Magdalena lhe dirigiu um sorriso tranquilizador, depôs no chão a sua bolsa e descalçou as luvas.
– É a m inha folga. Mas eu não tenho pressa.
– Estou com tanto m edo.
– Não tenha m edo. A m orte é apenas o fim da vida terrena.
– Não é m edo da m orte. Eu não tenho m edo de m orrer – disse ela contrariada.
Não era fácil sentir afeto por um a m ulher com o a signora Di Barbara. Ao longo do tem po Magdalena tinha aprendido, m as um a pausa de um dia de vez em quando facilitava as coisas.
– Do que a senhora tem m edo?
– De que ele não receba o recado. Ou que se esqueça da m inha recom endação.
– O recado? Sobre os oitenta centavos?
– É.
– E a senhora ainda não sabe para o que ele vai usar os oitenta centavos?
A signora Di Barbara não ouviu a pergunta.
– A m inha bolsa está aqui?
– Está, olhe aqui.
– Pegue a carteira. Ponha oitenta centavos na m inha m ão. Assim eu sei que vou m e lem brar de falar com ele.
Magdalena pegou o dinheiro. As m oedas não totalizavam oitenta centavos, então ela acrescentou um a da sua carteira.
– Pronto.
Ela pôs as m oedas na m ão da m ulher. Os nós dos dedos da velha se fecharam firm em ente em torno das três m oedas.
– Quando o m eu filho vier m e ver, hoj e à noite, eu vou m e lem brar. Ele vem hoj e?
– Não sei. Pode ser que ele tenha de trabalhar.
– O turno da noite? Bom , então ele vem am anhã de m anhã. Pelo m enos agora eu tenho as m oedas, assim não vou m e esquecer.
– Eu tam bém vou m e lem brar – disse Magdalena afagando o cabelo grisalho e fino da m ulher. – Prom eto.
Durante um m om ento a signora Di Barbara pareceu contente. Magdalena estava convencida de que a velha ainda teria algum as sem anas de vida. A m aioria dos pacientes que estavam ali esperava para m orrer depois das festas de fim de ano – ela não sabia por quê. Talvez eles quisessem ter um últim o Natal.
A irm ã Magdalena apagou a luz. A signora Di Barbara pôs a m ão no peito, apertando as m oedas.