O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 65 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 55

Niels havia tirado o paletó. O lugar estava ficando cheio de estudantes fam intos que iam alm oçar.

– A palavra “Rodínia” vem do russo e significa “m ãe pátria”. E o supercontinente de Rodínia é exatam ente isso: a m ãe de todas as terras.

– Sim . – Niels assentiu com a cabeça.

– Foi quando Rodínia se dividiu que a vida na Terra com eçou verdadeiram ente a se desenvolver. Os períodos posteriores são cham ados Ediacarano e Cam briano. Há outros, m as eu não sou geóloga.

– E por que é que nós estam os falando de continentes e...

– Rodínia.

– É. Qual é a relação disso com os assassinatos?

Hannah em purrou a com ida no prato.

– Eu sabia que o sistem a tinha relação com seres hum anos. Com a vida. De acordo com o m ito, os trinta e seis devem tom ar conta do resto da hum anidade. E as pessoas vivem na terra, não na água. Por isso eu retirei os oceanos. E aqui, nessa prim itiva representação de Rodínia, eu descobri um a coisa notável. – Ela ergueu o m elão.

O j ovem casal da m esa ao lado tinha parado de com er e prestava toda a atenção, com o se estivesse num auditório assistindo a um a conferência.

– Olhando de cim a para os pontos eu vi que eles form avam um padrão. Então com parei o padrão com as datas dos assassinatos. Quer dizer, a ordem dos pontos. Atribuí um núm ero a cada um deles. O décim o sétim o assassinato foi em Pequim . O décim o quarto na Cidade do Cabo.

– Khay elitsha. África do Sul.

– Exato. E o nono foi em Meca. E o décim o quinto em Thunder Bay.

– Sarah Johnsson.

– Isso. Vou desenhar um a figura para você.

Hannah retirou da m esa todos os copos e pratos. A m oça da m esa ao lado abriu espaço para que ela pudesse passar tudo para lá. Então Hannah desenhou um grande círculo na toalha de papel.

– Isto é a Terra. Os continentes pareciam algo com o isto. – Ela esboçou dentro do círculo os continentes de m odo que eles ficassem reunidos em torno do polo Sul. – Isso lhe dará um a ideia geral. E os lugares onde os assassinatos ocorreram , os pontos, estão aproxim adam ente aqui.

Com um a velocidade im pressionante ela pôs os trinta e seis pontos.

– Vam os dar a cada um deles um núm ero de acordo com a data da sua ocorrência. Você vê algum a coisa agora?

Niels olhou para o desenho.

– Você percebe que os núm eros quase form am pequenos círculos concêntricos?

– Pode ser.

– E que eles vão para a frente e para trás, de um a m etade do círculo para a outra?

Niels não respondeu. Ele notou um m aço de cigarros na bolsa de Hannah e sentiu um a necessidade urgente de pedir a ela que o acom panhasse até fora do restaurante para eles fum arem .

– Im aginei que os círculos se localizam nos paralelos décim o segundo, vigésim o quarto, trigésim o sexto e quadragésim o oitavo. Mas no m om ento essa não é a coisa m ais im portante.

– Não? E qual é a coisa m ais im portante?

– O sistem a para o qual você está olhando é um átom o. E não um é átom o qualquer. É o átom o núm ero trinta e seis.

– Trinta e seis. Com o o...

– Com o o m ito. Podia ser um a coincidência, m as não é. O Instituto Niels Bohr teve um papel im portante no m apeam ento dos elem entos conhecidos. Talvez eu tenha átom os no cérebro, m as é um fato inquestionável que esse sistem a, até o m ais ínfim o detalhe, é estruturado exatam ente com o o átom o núm ero trinta e seis. Crípton.

– Criptonita? – Niels sorriu. – Você está m e dizendo que isso tem a ver com o Super Hom em ?

– Não. Infelizm ente não. O Super Hom em não faz parte do sistem a. Crípton é um gás nobre. A palavra vem da palavra grega “kryptos”, que significa “o oculto”.

– “O oculto”? Por quê?

– Supostam ente porque o elem ento crípton é um gás incolor. Mas ele tem a propriedade especial de se ilum inar com espetaculares linhas espectrais verdes e alaranj adas quando é atravessado por um a corrente. Em outras palavras, ele pode ser ativado para em itir luz. Tam bém é usado para definir a extensão de um m etro por causa de um a coisa que se cham a isótopo crípton-86.

Niels não pôde deixar de rir.

– Existe no m undo algum a coisa que você não saiba, Hannah?

– O crípton é um gás nobre, com o eu disse, por isso é inerte. É um dos pouquíssim os átom os perfeitos. Ele fica num estado de equilíbrio. Não vai procurar outros átom os para se associar a eles. E a atm osfera da Terra não é cheia de crípton. O ar contém apenas 0,0001 por cento de crípton. – Hannah ficou em silêncio. – O m ito das trinta e seis pessoas j ustas. Ou eu estou exagerando na interpretação? Acho que posso perceber um a conexão.

Estado de equilíbrio. O oculto. Perfeito. Sozinho. Ela estava falando tão rápido que Niels não entendia tudo o que ela dizia.

– Niels, o núm ero trinta e seis é em si um m ilagre. Três m ais seis são nove. E se você m ultiplica trinta e seis por outro núm ero os dígitos do total sem pre perfazem nove. Trinta e seis vezes doze são quatrocentos e trinta e dois. Quatro m ais três m ais dois são nove. Trinta e seis vezes sete são duzentos e cinquenta e dois. Experim ente. Quando os núm eros ficam m aiores você sim plesm ente os divide por dois.

– Hannah, eu sinto m uito, m esm o, m as o que, exatam ente, você está tentando m e dizer? Vam os esquecer o que fica no m eio.

Ela o olhou com o se estivesse pesando o que ia dizer. Talvez estivesse buscando a com binação de palavras sim ples que tornasse tudo claro para Niels. Então ela disse:

– Tudo bem , sem as partes do m eio. Os locais da Terra onde os assassinatos ocorreram foram determ inados bilhões de anos antes da existência de qualquer ser hum ano. Com o você sabe, eu descobri onde na África do Sul o advogado de defesa m orreu. E fiz isso olhando para o sistem a. Um sistem a determ inado com precisão, baseado nos continentes quando eles estavam ligados, no início dos tem pos.

Ela apontou para o desenho na m esa.

– Se o sistem a se parece com o que eu estou im aginando, então nós podem os saber exatam ente onde e quando aconteceram todos os assassinatos. E tam bém onde e quando os dois últim os irão ocorrer.

– É m esm o? – Niels descobriu que estava sussurrando. Então repetiu em voz m ais alta: – É m esm o?

– Eu escrevi tudo. Olhe para isso. – Ela pegou um papel e entregou-o a Niels. Ele o desdobrou e estudou o que ela havia escrito.

1. Desfiladeiro de Olduvai (Tanzânia) – Sexta-feira, 24 de abril de 2009 (cham a kiwete)

2. Santiago (Chile) – Sexta-feira, 1o de m aio de 2009 (victor huelva)

3. Bangui (República Centro-Africana) – Sexta-feira, 8 de m aio de 2009

4. Monróvia (Libéria) – Sexta-feira, 15 de m aio de 2009

5. Dacar (Senegal) – Sexta-feira, 22 de m aio de 2009

6. Cuzco (Peru) – Sexta-feira, 29 de m aio de 2009 (m aria say wa)

7. Rio de Janeiro (Brasil) – Sexta-feira, 5 de j unho de 2009 (am anda guerreiro)

8. Sam arkand (Uzbequistão) – Sexta-feira, 12 de j unho de 2009

9. Meca (Arábia Saudita) – Sexta-feira, 19 de j unho de 2009

10. Tel Aviv (Israel) – Sexta-feira, 26 de j unho de 2009 (ludvig goldberg)

11. Nairóbi (Quênia) – Sexta-feira, 3 de j ulho de 2009 (nancy m utten-dango)

12. Johannesburgo (África do Sul) – Sexta-feira, 10 de j ulho de 2009 (helen lutuli)

13. Chicago (EUA) – Sexta-feira, 17 de j ulho de 2009 (andrew hitchens)

14. Cidade do Cabo (África do Sul) – Sexta-feira, 24 de j ulho de 2009 (j oris m athij sen)

15. Thunder Bay (Canadá) – Sexta-feira, 31 de j ulho de 2009 (sarah j ohnsson)

16. Estação McMurdo (Antártica) – Sexta-feira, 7 de agosto de 2009 (j onathan m iller)

17. Pequim (China) – Sexta-feira, 14 de agosto de 2009 (ling zedong)

18. Bangalore (Índia) – Sexta-feira, 21 de agosto de 2009

19. Babilônia (Iraque) – Sexta-feira, 28 de agosto de 2009 (sam ia al–assadi)

20. Chennai (Índia) – Sexta-feira, 4 de setem bro de 2009

21. Katm andu (Nepal) – Sexta-feira, 11 de setem bro de 2009

22 Hanói (Vietnã) – Sexta-feira, 18 de setem bro de 2009 (truong tho)

23. Kaliningrado (Rússia) – Sexta-feira, 25 de setem bro de 2009 (m asha lionov)

24. Caracas (Venezuela) – Sexta-feira, 2 de outubro de 2009

25. Helsinque (Finlândia) – Sexta-feira, 9 de outubro de 2009

26. Belém (Brasil) – Sexta-feira, 16 de outubro de 2009 (j orge alm eida)

27. Nuuk (Groenlândia) – Sexta-feira, 23 de outubro de 2009

28. Atenas (Grécia) – Sexta-feira, 30 de outubro de 2009

29. Paris (França) – Sexta-feira, 6 de novem bro de 2009 (m aurice deleuze)

30. Seattle (EUA) – Sexta-feira, 13 de novem bro de 2009 (am y aniston)

31. Moscou (Rússia) – Sexta-feira, 20 de novem bro de 2009 (vladim ir zhirkov)

32. Xangai (China) – Sexta-feira, 27 de novem bro de 2009

33. Washington (EUA) – Sexta-feira, 4 de dezem bro de 2009 (russell y oung)

34. Mum bai (Índia) – Sexta-feira, 11 de dezem bro de 2009 (raj bairoliy a)

35.

36.

Niels ficou olhando para o papel. O j ovem da m esa ao lado se levantou para pagar a conta. A m oça espichou a cabeça para ver o que dizia o papel. Hannah continuou sua conferência.

– É sabido que o círculo m ais externo do átom o núm ero trinta e seis é sim étrico. Em outras palavras, se localizarm os os núm eros trinta e seis e trinta e quatro, que nós tem os – ela apontou –, nós saberem os exatam ente onde encontrar os núm eros trinta e cinco e trinta e seis.

– E onde é que está isso?

– Acho que o nosso am igo de Veneza deve ter conseguido decifrar um a parte do sistem a. Porque alguns dos continentes são iguais ao que sem pre foram . Eles apenas se deslocaram . É por isso que há um a distância precisa entre alguns dos locais de assassinato. E é por isso que eu acho que ele queria m andar um aviso...

Niels a interrom peu.

– Hannah. Onde?

Ela girou o papel e escreveu algo em baixo.

– Tudo bem . Agora o sistem a está com pleto.

Niels leu o que ela havia escrito:

35. Veneza OU Copenhague – Sexta-feira, 18 de dezem bro de 2009

36. Veneza OU Copenhague – Sexta-feira, 25 de dezem bro de 2009

Niels olhou para as palavras. Na realidade ele talvez j á soubesse daquilo o tem po todo. Talvez tivesse tido essa im pressão desde o m om ento em que foi designado para o caso. Mesm o assim foi com o se todo o sangue tivesse sido retirado da sua cabeça e seu coração tivesse parado.

– Nós sabem os a hora e o lugar dos dois últim os assassinatos. Só não sabem os a ordem .

– Então o que você está dizendo é que...

– Que hoj e na hora do crepúsculo acontecerá um assassinato em Veneza ou aqui em Copenhague.

– Você acredita m esm o nisso?

– Se eu acredito? Isso não tem nada a ver com crença, Niels. De que outra form a eu poderia ter descoberto a localização na África do Sul? A probabilidade estatística de ser um a coincidência é...

Niels j á não a estava escutando. Ele sentiu seu corpo ficar m ais pesado, quase com o se estivesse sendo pressionado para baixo – com o se, sem aviso prévio, a gravidade tivesse dobrado de intensidade. Ele olhou para Hannah, que ainda m exia os lábios finos. Argum entando, conferenciando. Niels se forçou a prestar atenção no que ela estava falando.

– Eu estou lhe dizendo, Niels, há um sistem a m uito claro nisso. Um sistem a de... digam os: de proporções divinas. Ele está nos dizendo que o próxim o assassinato irá acontecer hoj e no crepúsculo em Veneza ou em Copenhague.

– Mas em que lugar de Copenhague?

Hannah rasgou m ais um pedaço de papel da toalha da m esa – que a essas alturas j á estava com as bordas totalm ente esfarrapadas – e escreveu alguns núm eros. O j ovem casal estava indo em bora. Antes de sair, a m oça deu a Hannah um olhar de aprovação. Hannah não notou; estava entregando a Niels o papel com os núm eros.

– O que é isso?

– A latitude e longitude aqui em Copenhague. Hoj e ou na próxim a sexta-feira.

– Você tem certeza, Hannah?

– Não m e pergunte isso, Niels. Eu estou apenas dizendo com o funciona o sistem a. A m atem ática nunca m ente. Hoj e no pôr do sol em Copenhague ou algum lugar de Veneza.

Niels apontou para os núm eros que ela havia escrito.

– Onde exatam ente é isso?

– Eu não entendo o que você quer dizer. A latitude e a longitude estão exatam ente aqui no papel.

– Tudo bem , Hannah, m as onde é isso?