O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 70 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 60

Nørrebro – Copenhague

Antes de bater à porta, Niels estendeu o braço e levantou a gola do casaco de Hannah.

– Agora eu estou parecendo um a policial? – perguntou ela.

Ele sorriu.

– Mas deixe que eu m esm o fale.

Niels bateu na porta. Não havia placa. O m orador escrevera seu nom e diretam ente na m adeira com pincel atôm ico. Eles estavam ouvindo barulho dentro do apartam ento, m as ninguém abria a porta. Niels desabotoou o paletó para poder ter acesso m ais fácil à sua arm a.

– Polícia de Copenhague! Abra!

Dessa vez ele quase esm urrou a porta. Hannah pareceu alarm ada. Ele não a devia ter trazido consigo. Levá-la ali tinha sido um com portam ento nada profissional. Quando j á ia m andá-la descer de volta a escada, um hom em desarrum ado e com olhos inj etados abriu a porta.

– Carl Petersen?

– O que foi que eu fiz agora?

Niels m ostrou sua identidade para o hom em . Carl a estudou. Niels estava bem m ais j ovem na foto.

– Podem os entrar um m inuto?

Carl olhou por cim a do om bro. Talvez estivesse fazendo um a últim a vistoria na sua própria ruína antes de perm itir a entrada de estranhos. Ele deu de om bros e escancarou a porta. Eram eles que tinham insistido em ir ali.

– Depressa, para os pássaros não saírem .

 

O m au cheiro dentro do apartam ento era insuportável. Com ida, urina, anim ais e decadência. Dois quartos e cozinha. Por algum a razão havia em cada um dos quartos um a cam a de casal, atravancando o exíguo espaço.

– O senhor m ora sozinho?

– Quem é que você acha que ia querer m orar com igo? Um assassino condenado?

Hannah olhou perplexa para Carl.

– Por que você está fingindo surpresa? – disse ele. – Não é por isso que vocês estão aqui? Toda vez que um a m ulher é estuprada aqui no bairro e o cara não deixa pistas vocês aparecem aqui. Quem é, desta vez?

Niels o ignorou e foi para a cozinha, m as Carl não queria deixá-lo sozinho.

– Então, quem foi que eu estuprei desta vez? Fala! Eu cum pri a pena, droga!

Havia recortes de j ornal fixados na geladeira. Artigos contra os im igrantes, recortados dos j ornais distribuídos gratuitam ente: “20.000 trabalhadores poloneses na Dinam arca. Alunos bilíngues se saem m al na escola, se com parados com os dinam arqueses. Cinquenta por cento das m uçulm anas estão desem pregadas.” No m eio havia um cartão-postal com a foto de um a sorridente Pia Kj ӕrsgaard, um a das fundadoras do Partido do Povo Dinam arquês: “Precisam os do seu voto”. Niels deixou a galeria de artigos da geladeira e se voltou para olhar Carl. O ódio era um artigo de consum o. Era possível vender ódio e receber algum a coisa em troca. Carl tinha um a pequena aj uda dom éstica e um a refeição barata um a vez por dia. Em troca, vendera seu ódio, que provavelm ente era em prim eiro lugar ódio a si m esm o, para aquela senhora ultraconservadora cuj a im portância na política nacional era m ínim a. E ela agora estava livre para usá-lo.

– O que é que você quer com igo? – As palavras de Carl foram interrom pidas por um acesso de tosse. – Bronquite – sussurrou ele antes de ser acom etido por outra onda. Ele estava usando um a tigela azul-anil funda e oval para escarrar.

Será que isso j á foi um balde de cham panhe? Hannah se fez essa pergunta antes de olhar para dentro. Não devia ter feito isso. Sentiu a náusea aum entar. Com dois passos apressados, ela foi até a j anela e j á ia abri-la quando Carl gritou:

– Não! – Ele a olhou assustado. – Os passarinhos estão soltos. – Ele apontou para um a gaiola vazia. Um casal de periquitos estava pousado num a prateleira guarnecida com espelhos e vigiava todos os m ovim entos do seu dono. Só então Hannah notou os excrem entos dos pássaros. Havia por toda parte m anchinhas circulares brancas e cinza, nenhum a delas m aior que um a m oedinha de cinco centavos.

– Então, você vai m e dizer que diabo está acontecendo? – perguntou Carl.

Hannah e Niels se entreolharam . Não poderia ser aquele hom em . Im possível.

Nesse m om ento eles ouviram um helicóptero perto da j anela. Um grande Sikorsky estava voando baixo sobre os telhados.

– Essas m erdas desses helicópteros. Ficam aterrissando dia e noite – resm ungou Carl enquanto Niels e Hannah correram para olhar pela j anela da cozinha, que ficava no sul. O helicóptero j á ia aterrissar. Carl estava reclam ando no fundo. – Eu não tive um a única noite inteira de sono desde que eles construíram o heliporto no alto do hospital.

Niels e Hannah se entreolharam . Ela foi a prim eira a dizer:

– O Hospital Nacional.