O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 66 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 56

Nørrebro – Copenhague

Niels saiu do café. A m udança da luz interna para a externa era quase im perceptível. O dia m ais escuro e m ais curto do ano não dem oraria a chegar. Os postes de luz antigos, com seu fraco brilho am arelo, não eram páreo para a escuridão que se adensava.

– O sol se põe m uito cedo – disse Hannah. – Nós só tem os um as poucas horas.

Ela ficou atrás dele, pondo na carteira o troco da conta do alm oço. Tinha posto na calçada a caixa de papelão com os m ateriais sobre o caso.

Niels olhou em volta e depois para ela.

– Quando é que o sol está se pondo?

– Logo depois das quatro. Por quê?

– Por quê? – Niels olhou-a perplexo. Para ela tudo aquilo era m era teoria? Um j ogo de salão? – Hannah, você disse que o assassinato ocorreria no crepúsculo. Certo?

– Certo, é isso m esm o. No exato m om ento em que o sol se puser.

– Isso significa que nós tem os cinco ou seis horas para descobrir o local. E a pessoa que está para ser assassinada.

Hannah olhou para Niels com um ar surpreso, com o se a sua teoria tivesse assum ido um significado novo.

– Você veio para cá de carro? – indagou ele.

– Vim .

– Onde é que você estacionou?

– É aquele Audi ali.

– Ele tem GPS?

– Tem , veio com o carro. Eu nunca usei. Nem sei com o é que funciona.

Niels foi o prim eiro a chegar ao carro. Hannah se acom odou no banco do passageiro, segurando no colo a caixa de papelão. Ela não estava acostum ada a essa m entalidade prática. Niels percebia isso. Ela havia com unicado os resultados, com pletado a sua conferência. Para ela o m undo era principalm ente um lugar de teoria. Ocorreu a Niels um a ideia: ela teria estado flertando com ele no café? Seria assim que um gênio com o Hannah flertava? Desenhando átom os na toalha de papel e tagarelando sobre com o era a Terra há um bilhão de anos? De repente ele entendeu com o a vida dela devia ser difícil.

– Escute aqui, Hannah. Foi você que falou prim eiro: talvez a gente possa im pedir o próxim o assassinato. E você ligou para m im .

– Foi. – Ela balançou a cabeça resolutam ente.

– Então, eu estou pronto. – Niels pegou a caixa no colo dela e a atirou no assento traseiro. – Vam os dar um a olhada no GPS. Ele aj uda o m otorista a se orientar com base na latitude e na longitude?

– Não sei. Pode ser.

Niels girou a chave na ignição. O carrinho deu partida com um ronronar suave. Hannah ligou o GPS e olhou para Niels esperando suas instruções. Vai ser um a longa viagem , pensou ele antes de com eçar a rodar, quase batendo num cam inhão.

 

Jagtvej . Outro nom e de rua que todos os policiais de Copenhague relacionavam com confusão e m anifestações de adolescentes. O tipo de coisa que antigam ente podia se espalhar, atraindo segm entos insatisfeitos da população para um a revolta capaz de derrubar reis e governos. Mas agora não m ais. A época da revolução tinha passado. Quando os cidadãos resolveram que a m onarquia absoluta devia ser abolida, m enos de dez m il pessoas m archaram num desfile pacífico até o palácio real. Hoj e todas as m anifestações pelo clim a ocorridas em Copenhague não podiam esperar com seus esforços nada além de um bom resfriado. No rádio um com entarista calculou que naquela hora havia cem m il pessoas nas ruas de Copenhague, participando de teatro de rua e m archas de protesto.

Niels balançou a cabeça. Um m ilhão de pessoas nas ruas de Londres não tinham sido capazes de influenciar na decisão de Tony Blair de m andar soldados ingleses para o Iraque. Assim , com o é que cem m il ativistas em defesa do clim a poderiam dim inuir a tem peratura da Terra?

– Está funcionando? – Niels observou Hannah tocar desaj eitadam ente a tela do GPS. – É difícil descobrir?

Ela lhe dirigiu um olhar ofendido.

– Niels! Com quatro anos eu resolvia equações de segundo grau.

– Foi só um a pergunta.

Silêncio. Ela estudou a tela.

– Tudo bem , está pronto. Precisam os ir um pouco para o sul.

– Sul?

– Sudoeste, na verdade.

O trânsito sim plesm ente não avançava. A Jagtvej estava sem pre assim . Houve época em que a rua tinha sido reservada para o uso dos m em bros da fam ília real no seu traj eto do palácio até o cam po de caça. Quando foi aberta para o público em geral, ela se tornou im ediatam ente popular. Num a capital onde o planej am ento urbano era aleatório e caótico, para dizer o m ínim o, a Jagtvej deve ter proporcionado um alívio; um a linha ininterrupta de um extrem o a outro da cidade, do bairo Nordhavn, no nordeste, até Carlsberg, no sudoeste. Niels tinha de enfrentar o trânsito da Jagtvej todo dia e detestava fazer isso. Além de tudo era um a prática insalubre. A tecnologia m oderna estava presente em toda parte, m edindo a poluição criada pelos m otores a gasolina contra os quais os m anifestantes estavam protestando. O ar naquela rua devia ser tão nocivo à saúde quanto o da Cidade do México. Se Copenhague fosse no Japão, todos estariam andando com m áscara na boca. Mas não era Tóquio nem Osaka. Era Copenhague, e as pessoas ali não estavam tão preocupadas com o ar que respiravam .

Niels acendeu um cigarro.

– Você se im porta se eu fum ar dentro do carro?

– Parece que é exatam ente isso que você j á está fazendo.

– Eu posso j ogar pela j anela.

– Bobagem . Eu tam bém vou fum ar.

Niels descansou a m ão na buzina.

– Nós não vam os a nenhum lugar desse j eito – disse ele.

– Não, eu tam bém acho.

Ele desviou o carro para a outra faixa. Um idiota vestido de terno e dirigindo um enorm e BMW avançou para bloquear a interseção. Niels bateu a sua identidade policial contra a j anela.

– Im becil!

– Essa rua não é m ão única? – perguntou Hannah enquanto o BMW dava m archa a ré, e Niels acelerava pela rua lateral.

– Pegue o m eu celular.

– Para quê?

– Você disse que há dois lugares onde os próxim os assassinatos vão ocorrer, certo?

– Certo. Aqui e em Veneza.

– Ligue para Tom m aso. O italiano.

– Di Barbara?

– Diga a ele que... Não; dê a ele coordenadas. Conte para ele o que você descobriu.

Relutantem ente, Hannah pegou o celular de Niels. Ele j á havia digitado o núm ero. Hannah ficou ouvindo.

– Correio de voz.

– Deixe um a m ensagem .

– O que é que eu falo?

Niels deu a Hannah um olhar aborrecido. Pouco tem po antes aquela m ulher tinha sido um a central elétrica, um a incrível explosão de pensam entos e ideias, cálculos e m agnitude, m as agora ela se reduzira a um a total am adora. Alguém que era um a turista na vida real, que logo iria correr para casa, para a fortaleza da teoria e do luto que ela havia criado dentro da sua casa de cam po.

– Diga a Tom m aso que você descobriu que vai acontecer um assassinato hoj e, em Veneza ou em Copenhague, quando o sol se puser.

Hannah se virou para o celular e com eçou a dizer seu recado falado.

– Bonjour, Monsieur Di Barbara.

Seu francês enferruj ado prosseguiu do m esm o m odo que o carro que Niels estava dirigindo na contram ão da rua: hesitando e desviando. Niels m anobrou desaj eitadam ente, contornando um cam inhão de lixo. Um ciclista não vacilou em m anifestar sua irritação. Esm urrou o teto do Audi. Hannah deu um pulo. No trânsito de Copenhague ciclistas se opunham a m otoristas, e as pessoas passavam de um papel para o outro na m aior facilidade.

– Diga que você vai m andar para ele com o texto a latitude e a longitude. Então ele pode encontrar o local num GPS.

Hannah voltou a falar em francês.

Niels ouvia. Em bora Hannah de vez em quando parasse repentinam ente no m eio de um a frase, as palavras francesas nunca tinham parecido m ais bonitas que as que saíam dos lábios dela.