O Último Homem Bom
Capítulo 17
Lyngby, subúrbio de Copenhague
Deus sabe por que eles precisam de todo este espaço, pensou Niels ao virar a esquina de um a das ruas residenciais. Nenhum a alm a à vista. Diante das casas enorm es havia pequenos carros estacionados, os veículos das esposas. Mais tarde, de noite, os carros grandes voltariam para casa e estacionariam ao lado daqueles.
A chapa de m etal na porta pintada de verm elho-escuro tinha apenas um sobrenom e: Am undsen. O segundo nom e da lista. Havia barulho dentro da casa. Passos subindo e descendo a escada. Passos instáveis. Niels voltou a tocar a cam painha e em seguida deu um a forte pancada na porta de m adeira antiga. No m eio da alm ofada havia um a grande depressão, com o se alguém tivesse tentado arrom bar a porta. Niels com eçou a se im pacientar.
– Ande, venha abrir.
Ele olhou para a rua atrás de si. Nenhum a testem unha. Com o dedo, em purrou a tam pa da fenda da caixa de correio e teve um vislum bre de um a m ulher nua que subia correndo a escada. Alguém estava sussurrando, e Niels se endireitou no m om ento exato em que a porta abriu. O hom em tinha um cabelo loiro j ovial que lhe chegava quase até os om bros. E olhos azul-claros.
– Posso aj udá-lo?
– Christian Am undsen?
– Sou eu.
– Niels Bentzon. Da polícia de Copenhague. Eu o procurei na sede da Anistia m as eles m e disseram que o senhor estava doente e tinha ficado em casa.
Am undsen olhou atordoado para Niels antes de responder.
– Bom , eu não diria que estou propriam ente doente. Todo m undo precisa de um dia de folga de vez em quando. Isso tem algum a coisa a ver com o m eu carro?
– Tam bém tentei ligar. Posso entrar por uns dez m inutos?
– É sobre o quê?
Niels olhou para as fotos em olduradas na parede: Am undsen na África, abraçando dois prisioneiros libertados. Am undsen na Ásia, diante de um a prisão com dois asiáticos com ar feliz.
– Foi tirada em Mianm ar. – Am undsen entrou na sala.
– O senhor está se referindo à Birm ânia?
– Prisioneiros políticos. Passei três anos tentando libertá-los da Prisão de Insein. É um dos presídios m ais terríveis do m undo.
– Deve ter sido um período difícil.
– E o senhor acha que eu consegui asilo para eles na Dinam arca?
– Não se o senhor faz a pergunta assim .
– Por fim o governo australiano concordou em aceitá-los. Depois de um a grande pressão de m uita gente, inclusive nossa.
A m oça cuj as pernas Niels havia adm irado entrou com um serviço de chá num a bandej a. Agora estava de j eans. Jeans colantes e um encantador batom verm elho que com binava com o seu cabelo preto asiático. Ela não teria nem um dia a m ais de vinte anos. A quím ica entre ela e Am undsen era elétrica. Niels se sentiu com o se estivesse na cam a entre eles.
– Essa é Pinoy. Ela trabalha para nós com o baby sitter.
– Oi – disse ela. – Chá? – Um a voz doce, obsequiosa m as autônom a.
– Aceito, obrigado.
– Pinoy tam bém foi perseguida pelas autoridades. Ela foi m andada para a prisão duas vezes. Mesm o assim tivem os de desistir de trazê-la com o refugiada. Mas pudem os fazê-la entrar com o baby sitter. Essa regra j am ais será tocada. Não enquanto as classes superiores precisarem de m ão de obra barata.
– Voltando ao nosso assunto... – com eçou Niels, m as Am undsen o interrom peu.
– Esse é m ais ou m enos o único m eio que nós tem os de trazer alguém para a Dinam arca. Tentam os aj udar o m aior núm ero possível.
Niels esperou se passarem alguns segundos para deixar a desculpa de Am undsen se desvanecer.
– Com o eu estava dizendo, não há razão para o senhor se preocupar. Só precisa m e ligar caso aconteça algo incom um . Um arrom bam ento, vandalism o, buracos abertos com picaretas, ligações telefônicas m isteriosas etc.
– Nada disso m e aconteceu. Essa coisa está m e parecendo um pouco absurda – quer dizer, a ideia de que alguém vai sair por aí m atando pessoas boas.
Am undsen deu um pulo ao ouvir o som de um carro estacionando lá fora.
– São as crianças. O senhor pode esperar um m inuto?
Antes que Niels tivesse tem po de responder, Am undsen j á saíra. Pela j anela da frente Niels viu a m ulher de Am undsen, em estado de gravidez adiantada, tentando tirar do carro duas crianças pequenas. A m oça asiática estava de pé ao lado dele. Parecia zangada. Ele lhe sussurrou algo antes que a porta se abrisse. Crianças felizes, sorrisos e abraços sinceros. Niels usou o tem po de espera para exam inar m ais um a vez as fotos das vitórias de Am undsen. Um artigo em oldurado, pendurado na parede, anunciava: “A Anistia Internacional salva iem enitas da deportação”.
– Perdão. – Am undsen parou no vão da porta com um a criança nos braços. Era um hom em aturdido que tentava equilibrar seus im pulsos pessoais e todo o bem que o seu superego queria realizar. Niels sorriu para o m enininho.
– Tudo bem . Com o eu estava dizendo: m e ligue se o senhor vir algo fora do com um . E não há razão para se preocupar.
Am undsen pegou o cartão de Niels.
– Não estou preocupado. O senhor quer saber o que eu acho?
– Claro.
– O senhor está procurando no lugar errado.
– Por que o senhor acha isso?
– Não é no m eu cam po que o senhor vai encontrar as pessoas boas. Com tanto envolvim ento do ego e da atenção da m ídia.
– Meu trabalho não é encontrar as pessoas boas. Eu só preciso advertir aqueles que um m aluco pode considerar bons.
Am undsen hesitou. Depois, calm am ente, olhou Niels nos olhos e disse:
– O senhor tem certeza disso?
Am undsen ficou sentado sozinho no escritório. O policial tinha ido em bora. Não fora um a visita agradável. O hom em parecia capaz de ver perfeitam ente a sua vida. Todas as m entiras. Por que ele não tinha m encionado os telefonem as anônim os? A pessoa que batera o telefone quando ele atendera a ligação no m eio da noite? Ou a vez em que alguém atirara um a garrafa na porta da frente? Am undsen ainda ouvia m entalm ente o estouro. A garrafa tinha se espatifado em m ilhares de pedaços e deixado um am assado perm anente na porta. Entre os estilhaços de vidro ele havia encontrado um rótulo no gargalo da garrafa. Am arula Cream . Am undsen conhecia m uito bem a m arca – um licor crem oso africano, exageradam ente doce e com o desenho de um elefante no rótulo. Um a vez ele havia se em bebedado com Am arula em Serra Leoa. Ou talvez tenha sido na Libéria. Será que a garrafa atirada na porta da frente da sua casa tinha relação com um desses casos? Serra Leoa, a porta de entrada do inferno. Crim es pavorosos, pobreza, fom e, doença, corrupção, ditadores m alucos e um sistem a de j ustiça inexistente que obstava o trabalho que a Anistia tentava realizar. Era im possível evitar passos em falso em lugares assim . E passos em falso criavam inim igos.
Um dos incidentes o havia im pressionado particularm ente. Junto com os outros diretores da Anistia, alguns anos antes Am undsen tinha ido a Serra Leoa. Eles iam m ontar um centro de atendim ento psicológico para crianças que lutavam com o soldados. Am undsen tinha encontrado dois garotos que estavam na prisão, no corredor da m orte, condenados por um m assacre horrendo na sua aldeia. Um m enino havia atirado no próprio irm ão m ais novo, de dez anos de idade. O m enino tinha doze. Ele tinha exigido que o resto da fam ília fosse executado. Am undsen nunca havia encontrado alguém tão só. O país, o exército que o havia raptado, as autoridades do bem -estar social – se é que elas podiam ser assim cham adas –, a fam ília do m enino, enfim , todos o tinham abandonado à sua própria sorte. A Anistia havia colhido m ais de cem m il assinaturas de apoio a ele. Am undsen as tinha entregue pessoalm ente ao presidente da suprem a corte do país. Essa corte era um a farsa. A sala do tribunal tinha sido usada antes para banquetes num hotel abandonado. Só os deuses sabiam onde o j uiz negro com o breu havia encontrado a ridícula peruca branca que ele usava. Os deuses tinham havia m uito abandonado a África Ocidental, deixando atrás de si organizações com o a Anistia, a Cruz Verm elha e os Médicos sem Fronteiras para lim par aquela latrina do m undo. Seus esforços para aj udar não passavam de bolas de neve no inferno.
O outro garoto na prisão ainda contava com o apoio da fam ília. Ele havia sido raptado quando estava com oito anos e tinha dez quando Am undsen o conheceu. Fora treinado durante dois m eses para ser um a m áquina de m atar. Eles tinham treinado em crianças. Treinaram atirando em outras crianças que tinham sido raptadas. Ou os m eninos aprendiam a puxar o gatilho ou eram alvej ados por um sargento adulto. Mike – era esse o nom e do m enino – tinha rapidam ente aprendido o valor das drogas e a sua im portância para em brutecer os sentidos. Sem as drogas ele teria enlouquecido e atirado em si m esm o. Am undsen nunca esqueceria o prim eiro encontro que teve com o m enino. Ele esperava enfrentar um a situação terrível, m as a realidade tinha sido bem pior que a im aginada por ele. O que ele viu foi um garoto que tinha se tornado dependente quím ico a fim de sobreviver ao inferno. Um m enino franzino, suando e trem endo na sua cela, com todos os seus pensam entos e palavras concentrados em obter um a dose. Am undsen estava em contato próxim o com a fam ília do garoto. Talvez ele tentasse instilar dem asiada esperança neles. Os dois m eninos acabaram sendo executados num pátio de prisão im undo. Claro. Todas as histórias de Serra Leoa acabavam em m orte.
A m ãe do m enino havia censurado Am undsen, dizendo que ele não tinha feito o suficiente e podia ir para o seu país. Ele ainda se lem brava do que ela lhe gritara: “A m orte do m eu filho paga o seu salário”.
Am undsen m uitas vezes pensava nessas palavras. Elas o tinham im pressionado fortem ente. Um a conclusão inj usta, disse ele para si m esm o. Ele estava lutando por eles, afinal de contas. O seu trabalho era instilar esperança. Mas a m ãe do m enino não tinha entendido isso, e as palavras dela continuavam assom brando-o.
A m orte do m eu filho paga o seu salário.