O Último Homem Bom
Capítulo 20
Helsingør – Dinamarca
A apenas um a hora de carro abre-se um m undo totalm ente novo.
Era com o se ele só visse a cidade quando estava no cam po. O barulho, a m ultidão, o trânsito – ele vivia num estado de constante perturbação. Assim , a questão era se ele iria ver o cam po quando voltasse para a cidade. O céu se m ostrando em toda a sua extensão. A paisagem plana, vasta, pontilhada de casas de verão com que ele se deparou j á no lusco-fusco. Cam pos, cam inhos e clareiras, tudo fundido num a única coisa. Ele teve um vislum bre das águas do estreito de Øresund, para além de um arvoredo escuro.
Niels freou subitam ente. Conferiu a sinalização da estrada e deu m archa a ré por alguns m etros. O cascalho estalou sob os pneus. Então ele saiu da estrada, dirigiu algum as centenas de m etros e estacionou perto da única residência que havia por ali, no final do cam inho. Via-se num a das j anelas um a luz fraca. Na placa do correio estava escrito LUND.
Não atenderam quando Niels bateu à porta.
Ele ficou ali, atento. Um pernilongo zum biu de passagem pelo seu ouvido. Ele o afastou surpreso. Os pernilongos não deviam estar todos m ortos em dezem bro? Niels bateu novam ente, m ais forte. Nenhum a resposta. Ele cam inhou pela lateral da casa. Não havia o m enor vento. O ar estava calm o e frio. Ele entrou num pequeno alpendre que dava para o m ar. Já ia bater na porta do alpendre quando ouviu um débil chapinhar. Deu a volta e viu um a pessoa de pé no desem barcadouro, m ais abaixo. Um a m ulher. Niels distinguia apenas o corpo dela. Ele desceu o declive.
– Com licença... – Niels se sentia quase culpado por interrom per um m om ento de silêncio tão lindo. – Estou procurando Gustav Lund.
A m ulher se voltou e olhou para ele. Tinha na m ão um a vara de pescar.
– Gustav?
– Eu gostaria de falar com ele.
– Ele está em Vancouver. Quem é o senhor?
– Niels Bentzon, da polícia de Copenhague.
Nenhum a reação, o que não era habitual. Niels estava acostum ado a enfrentar todo tipo de reação sem pre que anunciava ser da polícia. Medo, pânico, desprezo, desconfiança, alívio. A m ulher sim plesm ente olhou para ele e disse:
– Eu sou Hannah Lund. Gustav não vai voltar. Agora eu m oro sozinha aqui.
Na verdade a m obília não era adequada para um a casa de cam po.
Era bonita dem ais. Cara dem ais. Niels não tinha interesse por m obiliário, m as havia períodos – ou pelo m enos era o que lhe parecia – em que esse era o único assunto de Kathrine. Por isso ele reconheceu algum a coisa: Wegener, Mogensen, Klint, Jacobsen. Se aquela m obília era genuína, valia um a fortuna.
Dois brilhantes olhos de gata fitaram Niels com curiosidade enquanto ele exam inava a casa. A sala de estar era um a grande bagunça. Em todas as m esas havia pratos e xícaras com resto de café. Brinquedos de gato, sapatos e j ornais velhos espalhados pelo chão. Roupa lavada posta para secar dependurada sob um a viga do teto. Um a das extrem idades da sala era quase totalm ente ocupada por um piano. A outra estava cheia de livros. A desordem fazia um contraste chocante com a m obília cara, em bora de certa form a em prestasse às peças um a ideia de propósito. Talvez por ser bom ver um a m obília tão cara sendo realm ente usada. Sem pre que Niels e Kathrine, em raras ocasiões, visitavam algum arquiteto colega dela – Niels norm alm ente evitava essas visitas – ele experim entava um a sensação desconfortável. Um a im pressão de inadequação. Ele não gostava de ficar naqueles apartam entos elegantes de Østerbro, bebericando o seu vinho branco Corton-Charlem agne cuj a garrafa custava seiscentas coroas, cercado de m obília cara de designer e quase não ousando se sentar no sofá. Kathrine achava graça nisso.
– Então o Gustav é considerado um a boa pessoa? – Hannah cortou um sorriso ao entregar a Niels um a xícara de café. – Você tem certeza de que está procurando o hom em certo?
– É o que todos dizem . Com exceção do suj eito da Cruz Verm elha. – Niels m exeu o café instantâneo enquanto observava um a foto pequena de Hannah ao lado de um adolescente alto e m agricela. Muito provavelm ente seu filho. Ela estava com o braço em torno dele. Via-se atrás deles o pêndulo de Foucault, em Paris.
– Por que o Gustav?
– O com putador o escolheu. Por causa de um a coisa que ele disse quando aceitou a Medalha Fields.
– “A longo prazo será um m atem ático que irá salvar o m undo.”
– Exatam ente.
– E é por isso que o nom e do Gustav apareceu na tela?
– Gustav é o seu ex-m arido?
Fazendo um grande rodeio, ela com eçou a lhe explicar o seu estado civil, enquanto ele a estudava. Que idade ela teria? Quarenta? Quarenta e cinco? Havia nela algo desordenado. Algo que com binava com a casa: um pouco soturno e confuso, m as ao m esm o tem po interessante e com plexo. Seus olhos eram escuros, graves. O cabelo castanho longo estava desgrenhado, com o se ela tivesse acabado de sair da cam a. Em bora o chão fosse frio, ela havia chutado os chinelos e cam inhava descalça. Jeans, um a cam iseta branca, a pele clara m uito linda. Um a figura esguia. Ela não era bonita. Se Niels não tivesse outras coisas na cabeça, poderia ter se perguntado por que diabos se sentia atraído por aquela m ulher. Talvez fosse m uito sim ples, ele disse para si m esm o. Ela não estava usando sutiã e ele via m uito m ais através da cam iseta do que ela provavelm ente teria gostado.
– Eu fui aluna dele.
Niels tentou se concentrar no que Hannah dizia. Sentada no sofá, ela envolvia os om bros delgados com um a m anta cinza cheia de pelos de gato.
– Sou astrofísica e discutia m uito com ele sobre m atem ática. O Gustav é um dos m atem áticos europeus m ais im portantes.
– Você é astrofísica?
– Sou. Ou m elhor, era. Com eçam os a nos ver apenas socialm ente. No com eço eu m e adm irava com o fato de um gênio com o o Gustav – e não hesito em dizer que ele é um gênio, porque é o que ele realm ente é – se dar ao trabalho de flertar com igo. Depois eu m e apaixonei por ele. E então nós tivem os o Johannes. – Ela em udeceu abruptam ente. Niels viu outra coisa na sua expressão. Tristeza? Sim , tristeza. Então ele se lem brou de que Gustav Lund tinha perdido o filho. Johannes estava m orto. Ele se m atara.
O silêncio se instalou na sala. Não foi constrangedor. Nenhum dos dois tentou salvar a situação com um a conversa superficial. Ela sabia que ele sabia.
– Você vive aqui o ano inteiro?
– Vivo.
– Não se sente m uito só?
– Não foi sobre isso que você veio aqui para conversar.
O frio súbito na voz dela tinha a função de encobrir a dor que a torturava. Ele soube disso ao fitá-la. Era algo que ela preferia guardar só para si. Lidar com o luto era a pedra fundam ental do trabalho de um negociador; foi nisso que os psicólogos se detiveram por m ais tem po no curso dado a Niels e outros policiais. Era quando as pessoas não podiam lidar com o seu luto que as coisas saíam erradas, levando a arm as, reféns e suicídio. Mais de um a vez Niels tinha sido forçado a dar aos pais a terrível notícia de que seu filho tinha m orrido. Ele conhecia bem as diversas fases pelas quais a pessoa passava quando vencida pela dor. Então se perguntou há quanto tem po o filho de Hannah teria se suicidado. Ela lhe pareceu estar na cham ada fase de nova orientação: o estágio em que a pessoa enlutada tentava redirecionar sua atenção para o m undo. Quando ela novam ente – ainda que apenas por pouco tem po, talvez – ousava olhar para o futuro. Era a fase que em últim a instância envolvia dizer adeus. Afastar-se do ente querido. A fase m ais difícil de todas, um a longa j ornada para dentro de si, e m uitos eram forçados a desistir no m eio do cam inho. Quando perdiam a batalha, o resultado era um a terrível derrota: um a vida desperdiçada na depressão profunda. Em alguns casos o indivíduo acabava com o paciente psiquiátrico, ao passo que outros se viam equilibrando-se na borda de um a ponte no alto de um prédio. E então Niels era convocado para entrar em cena.
– Sinto m uito ter incom odado você. – Niels se preparou para ir em bora. – Com o eu disse, não é nada m uito im portante. Não há nenhum a razão para se preocupar.
– Eu não estou preocupada. Eles podem ir em frente e atirar no Gustav, se quiserem . – Hannah fixou os olhos no rosto de Niels, com o se quisesse enfatizar que falava sério. Ela estava de pé um pouco próxim a dem ais de Niels, m as ele era provavelm ente a única pessoa que teria notado isso. Havia algo estranho na sua linguagem corporal. Ele j á havia notado isso lá em baixo no desem barcadouro. Mas talvez fosse esse o j eito dos cientistas, pensou ele. Sua grande inteligência ocupava m ais espaço no cérebro, desaloj ando as habilidades sociais com uns.
Em bora sentindo a doçura do hálito dela, ele deu um passo para trás. Em algum lugar um telefone estava tocando. Ele levou um tem po até localizar o som no próprio bolso. Tirou o celular e olhou para o m ostrador: um núm ero de outro país.
– Perdão. Um m inuto. Alô? – Niels ficou à escuta. Inicialm ente ouviu apenas barulho na linha. – Alô? Quem está falando?
Finalm ente ele ouviu um a voz. Era Tom m aso di Barbara, o hom em para quem Niels tinha ligado antes. Estava falando em italiano, em bora m uito devagar, com o se isso aj udasse.
– O senhor fala inglês? – indagou Niels.
Tom m aso disse não em tom de desculpa. Pelo m enos ele entendeu o que Niels estava perguntando. – Scusi. – E depois ele sugeriu francês.
– Não. Espere um m inuto. – Niels voltou-se e olhou para Hannah. – Por acaso você fala italiano? Ou francês?
Ela assentiu com a cabeça, m as em seguida pareceu ter se arrependido disso.
– Francês. Um pouco.
– Espere um m inuto. O senhor pode falar com a m inha assistente. – Niels estendeu para Hannah o celular. – Polícia de Veneza. Você só precisa ouvir o que ele quer m e dizer.
– Assistente? – Ela não quis pegar o telefone. – Do que é que você está falando?
– Só m e fale o que ele está dizendo para você. Só isso.
– Não. – Ela pareceu m uito inflexível. Mesm o assim , pegou o telefone. – Oui?
Niels a estudou enquanto ela falava. Não era capaz de j ulgar a sua fluência no francês, m as ela falava rápido e aparentem ente sem nenhum esforço.
– Ele está perguntando sobre os assassinatos do núm ero. – Ela m anteve a m ão sobre o celular e olhou para Niels.
– Os assassinatos do núm ero? Esse núm ero será o que os m ortos têm nas costas? Ele tem certeza disso? Peça a ele para explicar.
– Você disse que o seu nom e é Bentzon? Ele quer saber com o é que você se cham a.
– Bentzon. Isso. – Niels balançou a cabeça afirm ativam ente. – Niels Bentzon. Pergunte a ele se há suspeitos. Se há algum a...
Ela apertou com o dedo o outro ouvido e se afastou um pouco.
Niels fixou o olhar nela. Pelo canto do olho viu a gata se aproxim ar lentam ente. Ele se sentou e a deixou cheirar sua m ão. Então passou a exam inar a foto de Hannah com o filho. E depois olhou para a estante onde havia um álbum de fotos aberto. Foi até lá para olhá-lo. Seis fotos contavam toda a história. Hannah – talvez dez anos antes – com um tipo de prêm io de pesquisa nas m ãos. Sorrindo orgulhosa. Jovem , linda e irradiando vida e am bição. O m undo estava aos seus pés. E ela tinha consciência disso e saboreava o m om ento. Algum as fotos dela com Gustav. Um hom em extraordinariam ente bonito, que teria uns cinquenta anos. Cabelo escuro j ogado para trás. Olhos escuros. Alto e de om bros largos. Sem dúvida um hom em com m uitas adm iradoras; aberto para olhares de flerte, propostas tentadoras. Um a foto m ostrando Hannah grávida. Ela estava de pé, de braço dado com Gustav na Ponte do Brookly n. Niels olhou m ais atentam ente para a foto. Talvez ele tivesse se tornado exageradam ente policial – às vezes o papel o aborrecia e cansava –, m as não pôde deixar de notar que enquanto Hannah estava olhando para a câm era os olhos de Gustav estavam voltados para o lado. O que ele estaria olhando? Um a m ulher bonita que por acaso passava na ponte?
Depois duas fotos m ostrando som ente Hannah e o garoto. Onde estava Gustav? Em algum a conferência? Em algum lugar, cuidando da sua carreira de cientista internacional enquanto a m ulher e o filho ficavam em casa? A últim a foto era do aniversário do m enino. Dez velinhas e “Johannes” escrito no bolo. Hannah e outros adultos estavam sentados em torno do garoto, que se preparava para soprar as velas. Niels olhou para a cena. Era um a dessas fotos em que a pessoa ausente era a presença m ais forte. Gustav.
– Ele ficou falando sobre um m ito antigo. – Hannah estava de pé bem atrás de Niels e lhe estendia o telefone. Ela teria notado que ele estivera olhando as fotos?
Niels voltou-se para ela.
– Mito? Que tipo de m ito?
– Algum a coisa sobre trinta e seis pessoas boas. Da Bíblia, acho. Eu não entendi tudo. Mas você não acha isso fascinante? A m aioria dos assassinatos foi com etida a aproxim adam ente três m il quilôm etros um do outro. É por isso que ele contatou a sua delegacia. Aparentem ente são três m il quilôm etros entre um dos últim os locais de crim e e...
– Copenhague – disse Niels, interrom pendo-a.
Por um m om ento eles ficaram sim plesm ente olhando um para o outro.
Hannah observou Niels dar m archa a ré para sair da entrada de carros. O cartão dele ainda estava na m ão dela. Por um segundo os faróis dianteiros a cegaram . Depois ela viu a placa do carro dele: II 12 041. Ela pegou na gaveta um a caneta esferográfica. O carro de Niels se afastava; talvez ela tivesse se enganado. No peitoril da j anela havia um binóculo. Ela o pegou e correu para a j anela da cozinha; então aj ustou o foco para ver com m ais clareza. Lá estava ela. Era isso m esm o: II 12 041. Hannah anotou o núm ero nas costas do cartão de Niels e sentiu as lágrim as inundarem seus olhos.