O Último Homem Bom
Capítulo 29
O guarda-corpo do alpendre estava coberto com um a cam ada fina de gelo. A respiração de Niels form ava nuvenzinhas no frio. Ele olhou para Hannah através do vidro da porta. Ela estava curvada sobre o m apa aberto na m esa de centro. Seu perfil era atraente. A apenas dois m etros de distância dele, Hannah estava num outro m undo. Olhava para os doze Xs do m apa. Niels pensou no que eles tinham acabado de falar. No fato de cada X representar um a Sarah Johnsson ou um Ludvig Goldberg. Um a história. Um a vida. Alegrias, tristezas, am igos, conhecidos e fam ília. Cada X era um a história. Com um com eço, um m eio e um súbito e brutal fim .
Um pato m ergulhou na superfície do m ar. Reem ergiu logo em seguida, fez um giro de cento e oitenta graus e rum ou para o sul. Para longe do frio invernal da Escandinávia. Niels acom panhou com invej a a sua partida. Ele estava enj aulado ali, confinado num a im ensa prisão. Que tipo de deficiência psicológica estava atuando com o seu guarda de prisão? Medo? Traum a? Novam ente ele se virou para observar Hannah. De certa form a ele sentia com o se estivesse no processo de descobrir a resposta para aquela pergunta. Ele a viu usar um cigarro para acender o seguinte sem tirar os olhos do m apa.
Os dedos de Niels estavam duros de frio quando ele pegou o celular. Um a m ensagem de Anni, perguntando-lhe se ele queria entrar na vaquinha do presente de Susanne, da divisão de arquivos. Ela ia fazer cinquenta anos na quinta-feira. A equipe queria com prar para ela um a m áquina de rem ar ou um a tem porada num spa em Ham burgo.
“Minha am ada” – era assim que Niels tinha inserido Kathrine na sua lista de contatos. Ele digitou o núm ero. “Você ligou para Kathrine, da DBB Arquitetos.”Ele tinha ouvido aquela m ensagem m il vezes, m as ainda ficava atento até o final. “Não posso atender agora, m as por favor deixe um recado.” Então ela passava a falar em dinam arquês: “Se é você, m am ãe, sej a boazinha e deixe um recado para m im ”.
– Kathrine. Sou eu. – Niels respirou fundo. – Bom , acho que você pode ver que quem está ligando sou eu. Entendo perfeitam ente por que você não quer falar com igo. Só quero dizer que esse caso em que eu estou trabalhando... Tenho a im pressão de que... Sei que isso provavelm ente vai parecer idiota, m as eu acho que estou envolvido em algo realm ente im portante.
Niels encerrou a ligação. Ele tinha razão – parecia idiota. Mas era só isso que lhe ocorria dizer.
Caso de homicídio: Vladimir Zhirkov
– Agora passam os para a Rússia. – Niels estava novam ente sentado no chão. – Ou, para ser m ais preciso, Moscou. Vladim ir Zhirkov, quarenta e oito anos de idade.
– Moscou. Ok. – Hannah pôs um X no m apa.
– Ele era j ornalista e crítico da sociedade.
– Eu não sabia que as pessoas podiam criticar a sociedade na Rússia. – Ela se sentou ao lado de Niels.
– Zhirkov m orreu no dia 20 de novem bro deste ano. De acordo com um relatório de um a organização de direitos hum anos russa cham ada Mem orial, ele ficou preso na infam e prisão Buty rka, em Moscou.
– Por que ele foi condenado?
Niels hesitou enquanto folheava o relatório.
– Não sei, m as tenho certeza de que nós vam os descobrir. Quando ele estava agonizando foi encontrado por um com panheiro de prisão cham ado Igor Dasay ev, que depois contou que naquela tarde e de noite Zhirkov tinha se queixado de dores. Dasay ev pediu aj uda e... hum , aqui tem um texto bem longo. Foi com unicado que Zhirkov gritou: “Tem fogo dentro de m im ” e “Eu estou queim ando”. Logo depois ele foi declarado m orto. Não fizeram autópsia. Ponto final. – Niels levantou-se do chão e tom ou um gole de café.
– O que é isso? – Hannah apontou para um a página com um texto tão reduzido que as palavras m inúsculas estavam praticam ente encavaladas um as nas outras. – É inglês?
Niels assentiu com a cabeça.
– Quase não consigo ler. É um artigo do j ornal The Moscow Times. Do dia 23 de outubro de 2003. Ouça: “O dia 23 de outubro de 2002 é lem brado pelo ataque...” – Niels parou de repente.
– O que foi?
– Acho que é m elhor eu traduzir.
– Eu entendo inglês.
– Tudo bem , m as eu fico constrangido de ler inglês para um a astrofísica.
Hannah protestou, m as Niels insistiu em fazer a tradução.
– “No dia 23 de outubro de 2002 quarenta terroristas chechenos sob o com ando de Movsar Baray ev atacaram o Teatro Dubrovka, localizado a poucos m inutos da Praça Verm elha. Cerca de novecentos frequentadores do teatro estavam lá dentro, à espera do início do espetáculo, quando se tornaram os principais atores de um dram a de terror que em itiu ondas de com oção por toda a Rússia. Entre os terroristas, fortem ente arm ados, havia m uitas m ulheres, a m aioria com explosivos am arrados no corpo. Os terroristas exigiam que todas as forças russas fossem im ediatam ente retiradas da Chechênia. Baray ev enfatizou suas exigências declarando: ‘Eu j uro por Alá que estam os m ais preparados para m orrer que para viver’. A enorm e quantidade de explosivos e arm as que os terroristas haviam levado consigo provava que eles estavam dispostos a concretizar as am eaças. Investigações posteriores m ostraram que havia pelo m enos cento e dez quilos de TNT dentro do teatro. Estim ou-se que cerca de vinte quilos de TNT seriam suficientes para m atar todos os que estavam no teatro. As autoridades russas não tinham ideia do que fazer. Putin se recusou a ceder, apesar do aum ento da pressão dos fam iliares dos reféns, insistindo que era preciso fazer algum a coisa. Um a j ovem de vinte e seis anos, Olga Rom anova, conseguiu entrar no teatro para tentar persuadir os capturadores a libertar as crianças. Os terroristas responderam disparando im ediatam ente na cabeça dela. Nas quarenta e oito horas que se seguiram alguns reféns foram libertados. Cidadãos proem inentes e organizações, inclusive a Cruz Verm elha, os Médicos sem Fronteiras e a conhecida j ornalista Anna Politkovskay a, tentaram iniciar negociações com os capturadores. Por fim a situação se tornou tão crítica que nas prim eiras horas da m anhã de sábado, 26 de outubro de 2002, as forças de segurança russas Spetsnaz lançaram no teatro quantidades enorm es de gás à base de fentanil e em seguida invadiram o prédio. O conflito não durou m uito tem po. A m aioria das pessoas que estava ali m orreu com o gás. As forças de segurança não deram nenhum a chance aos terroristas: m ataram todos, hom ens e m ulheres, atirando na cabeça deles. Em pouco tem po estavam todos m ortos. Depois disso a Rússia ficou em estado de choque. O que inicialm ente pareceu um a vitória se transform ou num a tragédia de proporções quase incom preensíveis. Cento e vinte e nove reféns m orreram , inclusive dez crianças. Sessenta e nove crianças ficaram órfãs com o ataque. Alguns reféns tinham sido alvej ados pelos terroristas, m as a m aioria m orreu asfixiada pelo gás, porque o atendim ento m édico que eles receberam depois de serem carregados inconscientes para fora do teatro foi inadequado. No local havia apenas um as poucas am bulâncias, e as pessoas não receberam o tratam ento m édico de que necessitavam . Muitos sufocaram nos ônibus superlotados que os levaram em bora.”
Ao deixar de lado o artigo Niels viu que estava ofegante. Ele im aginava a cena. As crianças apavoradas, cercadas por terroristas, explosivos e m etralhadoras carregadas. A espera. O m edo. Ele tinha visto na televisão um docum entário sobre o evento.
– E o que é que isso tem a ver com Vladim ir Zhirkov? – perguntou Hannah.
– Boa pergunta. Talvez ele tenha escrito o artigo. Ele era j ornalista, afinal de contas.
– Mas o policial italiano poderia ter m andado para você todos os artigos que ele escreveu.
Niels balançou a cabeça e folheou as páginas com inform ações fragm entadas.
– Zhirkov cresceu no subúrbio m oscovita de Khim ki. Sua m ãe era enferm eira. O pai se suicidou quando ele era m enino. Eis um a declaração de um boletim inform ativo de um tim e antigo. Acho que é de um treinador de hóquei: “Vladim ir Zhirkov, de doze anos, tem um talento m agnífico, m as precisam os trabalhar a sua personalidade para que ele possa ter esperança de trilhar um a carreira no hóquei no gelo. Ele tem tendência a parecer resignado e deprim ido”. Eu m e pergunto por que o italiano traduziu isso. Agora um trecho de um a entrevista de... não diz de onde. Um j ornal ou um a revista.
– Um a entrevista com Zhirkov? – indagou Hannah.
– Infelizm ente não. Com um professor cham ado Aleksey Saenko.
– Quem é?
– Deve ter sido um dos reféns do teatro. “As noites dentro do teatro foram o pior. Nós nos sentávam os ali nas fileiras de poltronas com o se esperássem os o espetáculo de um pesadelo que nunca term inaria. No poço da orquestra havia três cadáveres. Um deles era de um j ovem que tentara fugir quando os terroristas entraram à força. Atiraram na barriga dele. Eu via os seus intestinos saindo. Ele ficou ali gem endo durante horas e quando m orreu eu pensei: finalm ente. Seus gem idos acabariam enlouquecendo todos nós. As crianças choraram quase ininterruptam ente. Seus pais tentavam consolá-las. Os terroristas ficavam andando entre nós. Eles tinham colocado no m eio do teatro um a enorm e pilha de explosivos. Gigantesca. Era um a m ontanha de m orte. Eu estava sentado a apenas poucos m etros dela e pensava: nós não vam os sair vivos daqui. O líder dos terroristas, Baray ev, parecia desequilibrado. Tinha granadas de m ão am arradas em todo o corpo e talvez estivesse sob efeito de drogas.”
– “Eu vim a Moscou para m orrer” – exclam ou Hannah.
– O quê? – Niels ergueu o olhar para ela.
– Foi o que ele disse – explicou Hannah. – Eu m e lem bro. “Eu vim a Moscou para m orrer.” Essa frase foi repetida pelos j ornais dinam arqueses.
Niels continuou lendo:
– “A certa altura ocorreu um incidente entre um refém e um dos terroristas. Era um a j ovem m ãe que sob toda aquela pressão tinha perdido o controle. Ela estava com dois m enininhos no colo. Um deles era ainda bebê. O outro – devia ter uns cinco anos – estava trem endo de m edo. De repente a m ãe se levantou de um salto e com eçou a gritar para os terroristas. Cham ou-os de psicopatas, assassinos e covardes que não podiam pensar em nada m elhor que m atar m ulheres e crianças inocentes. Os terroristas deram um puxão na m ulher e nos m eninos, levando os três para o corredor. As crianças gritavam . Não havia dúvida de que eles iam m atar os três. Mas então um hom em se levantou. Estava sentado na fileira que ficava atrás daquela onde a m ulher havia estado. Um hom em m uito j ovem . Disse que podiam atirar nele. Eu m e lem bro exatam ente das suas palavras: ‘Atirem em m im . Eu não tenho tanta coisa a perder’. Um silêncio terrível tom ou conta do teatro. Todos estavam prendendo a respiração. O terrorista hesitou. Finalm ente ele assentiu com a cabeça e acom panhou a m ulher e as crianças de volta às poltronas. O j ovem deu um passo à frente. Parecia com pletam ente calm o. Essa é a im agem m ais clara que eu tenho daqueles dias horrendos dentro do teatro: a expressão calm a no rosto do hom em quando ele deu um passo à frente para receber o tiro. Baray ev partiu para atacá-lo. Na época eu não sabia o nom e dele, m as ficou m uito evidente que ele era o líder dos terroristas do teatro. Ele com eçou a gritar. Sobre os crim es com etidos contra o povo checheno. Sobre as ações im piedosas dos russos em Grozny. Ele estava espum ando. Sua fam ília inteira tinha sido dizim ada pelos russos. O ódio faiscava nos seus olhos quando ele ergueu a arm a e a encostou na testa do j ovem , e então... nada. Não aconteceu nada. Ele não puxou o gatilho. O j ovem o olhou nos olhos, calm am ente esperando o inevitável. Mas não aconteceu nada. O j ovem foi novam ente se sentar no seu lugar enquanto os outros terroristas se entreolhavam atônitos. Por que Baray ev não atirou no hom em ? O que o tinha feito hesitar? Claro, eu não posso responder. Algo nos olhos dele. Não tenho dúvida de que naquele dia no Teatro Dubrovka eu assisti a um m ilagre.”
– Essa foto é da m ulher com os m eninos? – Hannah pegou um a foto.
– Suponho que sim . – Niels olhou para a linda m ulher e seus dois filhos. O m enor não era m ais um bebê. – Deve ter sido tirada alguns anos depois da tragédia.
– Você está pensando a m esm a coisa que eu?
Niels não sabia se o que havia no rosto de Hannah ao fazer a pergunta era um sorriso.
– Estou – disse ele. – O j ovem do teatro era Zhirkov. Salvou a vida da m ãe e dos seus filhos.
– Então por que ele acabou na prisão? Afinal de contas ele foi um herói.
Niels pensou sobre o caso. Ficou em silêncio por um longo tem po. Hannah se levantou e foi até o m apa onde os Xs estavam espalhados por todo o m undo, aparentem ente de m odo aleatório.
– Talvez a experiência dentro do teatro o tenha tornado crítico do sistem a russo. – Niels estava pensando em voz alta. – E é por essa razão que a organização cham ada Mem orial se interessou por ele.
– Você quer dizer que ele foi preso por criticar o governo?
– Talvez.
– Então quem foi que o m atou?
Niels tinha na m ão um a outra página.
– Isso parece im pressão de artigo da internet. Talvez publicado pela Mem orial.
Ele traduziu o conteúdo.
– Oficialm ente, ainda é um m istério a autoria do assassinato de Vladim ir Zhirkov, m as na opinião de Garry Kasparov, o conhecido crítico social e gênio do xadrez, a questão é bem clara. Ele declarou: “Putin m atou Zhirkov”. Mas o com panheiro de cela de Zhirkov, Igor Dasay ev, que encontrou seu corpo, tem um a explicação diferente. “Na noite anterior ao assassinato de Vladim ir Zhirkov eu vi um hom em – a som bra de um hom em – de pé bem ao lado de Zhirkov, que estava dorm indo. Não sei com o foi que ele entrou na cela e não sei o que ele estava fazendo. Mas não tenho dúvida sobre a sua relação com a m orte de Zhirkov. Foi um a coisa m uito assustadora. Com o um film e de horror.”
– Acho que a sua pronúncia de inglês é boa.
Niels sorriu ironicam ente.
– Com o é que alguém poderia ter entrado na cela dele? A prisão Buty rka tem um a guarda reforçadíssim a. Não dá para acreditar nisso.
– Eles falam algum a coisa sobre a m arca nas costas?
– Parece que não.