O Último Homem Bom
Capítulo 12
Sexta-feira, 25 de dezembro, 2009
Niels tentou m exer as pernas. Doeu, m as depois de pouco tem po seus pés j á podiam novam ente ser controlados. Sem sentir os m úsculos das coxas, ele se esforçou para despertar neles um pouco de vida. A princípio não teve sucesso, m as lentam ente, m uito lentam ente, ele foi capaz de levantar as pernas.
A dúvida era se isso seria suficiente para ele poder fazer todo o percurso até os arquivos.
00h01 – 15 horas e 40 minutos até o crepúsculo
Niels parou de repente ao ouvir um grito. Seria Hannah? Im possível. Ela estava longe dem ais.
Ele andava com o um velho. A dor nos tornozelos só lhe perm itia arrastar os pés. Sua cabeça estava pesada, com o um peso que ele fosse forçado a arrastar consigo; ele gostaria de poder cortá-la fora e carregá-la debaixo do braço. Duas costelas quebradas tentavam em purrar a sua pele, ou pelo m enos era isso que lhe parecia. Com o um corpo que devia ser partido em pedaços e guardado para esperar por tem pos m elhores.
Niels esperou um a eternidade, e quando o elevador chegou, um servente sonolento que saía olhou para ele. O hom em não pareceu absolutam ente surpreso por ver um paciente ferido fora da cam a.
Ao parar no subsolo, o elevador deu um solavanco e Niels quase perdeu o equilíbrio. Ele saiu e olhou em torno. Viu um a placa: acesso perm itido apenas ao pessoal autorizado. Em pilhados num canto estavam dezenas de colchões envoltos em plástico. Um a fileira de cadeados de m etal se estendia pela parede, fazendo Niels pensar num a escola secundária am ericana. E havia tam bém m uitas portas – que lhe pareceram em núm ero infinito ao longo dos corredores, com o um a série de segredos. Niels experim entou algum as m açanetas m as estavam todas travadas. O único espaço em que pôde entrar – provavelm ente graças ao descuido de algum funcionário – foi um a espécie de oficina. Apesar da pouca luz, ele conseguiu ver caixas de ferram entas, bancadas, serras, m artelos e chaves de fenda. Então voltou para o corredor. Perguntou-se se estaria perto dos arquivos. Tentou pensar retrospectivam ente; apenas um a sem ana atrás ele havia zanzado pelo hospital. Teria visto os arquivos nessa ocasião?
Vozes.
Do seu esconderij o atrás de um colchão colocado em pé contra a parede, Niels ouviu dois hom ens passarem . Um deles – o que falava m uito alto – estava dizendo que a sua m ulher tinha fobia de sexo. O outro hom em riu. Então eles desapareceram no elevador. Niels esperou um pouco antes de rum ar para a direção oposta. Ainda doía quando ele andava, e por isso ele avançava lentam ente, m as estava se acostum ando à dor. Suas costelas eram o que m ais doía, ao passo que os tornozelos sim plesm ente haviam ficado dorm entes. Ele se recostou na parede e seguiu rastej ando.
arquivos centrais
A placa e a flecha lhe deram um ânim o novo. Niels foi em frente, contornou um canto e se viu diante de um a porta. Não viu a placa arquivos, m as aquela era a única porta para a qual a flecha podia estar apontando. A porta estava trancada. Claro. E agora? Se ele estivesse na sua condição física norm al talvez pudesse arrom bá-la. Mas naquele m om ento isso estava fora de cogitação. Além do m ais haveria m uito barulho. Mas e a oficina?
As pernas de Niels reagiram antes do seu cérebro, levando-o de volta para a oficina. A porta estava aberta. Ele se arriscou e acendeu a luz. Pôsteres de m ulheres nuas enchiam as paredes. Um cachecol com o em blem a do tim e de futebol FCK estava j ogado num a cadeira. Niels abriu um a gaveta e tirou de lá um a chave de fenda grande. Na parede havia um m artelo pendurado em dois pregos. Alguém tinha desenhado com tinta o seu contorno, o que fez Niels se lem brar das linhas que os técnicos frequentem ente desenham no chão em volta da vítim a, no local do assassinato.
Ele conseguiu inserir a ponta da chave de fenda na fresta que havia entre a porta e o batente, im ediatam ente acim a da fechadura. Então deu um golpe forte com o m artelo. Depois da prim eira tentativa viu que não levaria m uito tem po para abrir a porta, pois a chave de fenda penetrara um pouco m ais na abertura. Depois de m ais dez tentativas a fechadura m etálica cedeu. Niels teve de parar para se recom por. Respirou fundo, tentando se concentrar.
Então ele entrou nos Arquivos Centrais do Hospital Nacional.
Quinze quilômetros de registros de pacientes. Niels se lem brou do que a enferm eira havia lhe dito.
Quantos arquivos haveria ali? Centenas de m ilhares? Milhões? Para hom ens, m ulheres e crianças de todas as idades. Todos os que nos últim os setenta anos haviam sido algum dia tratados no Hospital Nacional estariam relacionados naqueles arquivos.
Havia um leve cheiro de am ônia. Niels ficou quieto e atento. Um zunido leve e constante vinha das instalações elétricas e de vários dutos; o tipo de som que só notam os quando cessa. Ele acendeu a luz. Susteve a respiração e olhou desanim ado para as interm ináveis fileiras de arm ários, prateleiras e sistem as de catálogos que se estendiam a perder de vista. A enferm eira tinha dito que os arquivos eram um sistem a com plexo que m uito poucas pessoas entendiam . Niels acreditou nela. Quando o arquivista – o nom e dele era Bj arne? – resolvesse se aposentar, talvez fosse sensato contratar bem antes o seu sucessor, que precisaria ficar em treinam ento durante m uito tem po.
Niels ouviu um som que o fez desligar a luz.
Vozes. Talvez alguém tivesse percebido que a porta estava aberta. Talvez tivessem visto a luz acesa e estranhassem a presença de alguém nos arquivos no m eio da noite. Ou ele sim plesm ente havia im aginado os sons? Talvez as vozes fossem um produto da crescente paranoia que estava com eçando a tom ar conta da sua m ente. Niels resolveu arriscar e prosseguir. Avançando hesitantem ente, ele percorreu os corredores de prateleiras e arm ários. Não tinha certeza, m as achava que tinha transposto a porta do fundo. Talvez fosse m ais fácil ter um a visão geral do lugar se ele com eçasse na outra extrem idade. Quando chegou à porta do lado oposto, ele encontrou um a m esa. Um a m esa velha de m etal com pernas enferruj adas e cheia de xícaras de café, copos de água pela m etade e um a caixa de pastilhas para a garganta. Niels olhou à sua volta. Tinha de ser possível conseguir um a visão geral.
Seu olhar recaiu em alguns livros com encadernação de couro que estavam lado a lado na prateleira inferior de um a estante. Eles tinham continuidade nas outras prateleiras. Niels pegou um : Registros de Internação. O exem plar escolhido cobria o período de outubro a novem bro de 1971. Não era o que ele precisava. 1966. 1965. Ele foi para o outro lado do corredor. 1952. 1951. A década de 1940. Niels sentiu o coração se acelerar. 1946. 1945. 1944. Finalm ente: 1943. Havia m uitos livros para aquele ano. Ele folheou um deles. As páginas eram finas com o papel de arroz e estavam grudadas um as às outras; aqueles livros não eram abertos havia anos. Ele procurou em “W” a palavra “Worning” m as não encontrou nada. Por quê? Os pacientes não eram relacionados em ordem alfabética? Então ele se deu conta: os nom es estavam em ordem alfabética, m as a lista recom eçava a cada m ês. Aquele livro continha nom es de pacientes apenas dos m eses de j aneiro, fevereiro e m arço de 1943. Ele pôs de volta o livro e pegou o seguinte. Abril, m aio e j unho de 1943. Havia dois pacientes com o sobrenom e Worning. Julia e Frank, m as não Thorkild. Ele tentou outro livro. Algum as páginas estavam soltas. Julho, agosto, setem bro. Nada em j ulho nem em agosto. Mas nos registros de internação de dezem bro de 1943, bem no pé da página, estava escrito Thorkild Worning. Niels achou num a gaveta um a caneta esferográfica. Na atadura que cobria a perfuração para a adm inistração
do soro na sua m ão ele escreveu o que viu no livro: Seção H, arquivo n 6.458. o Depois voltou para os corredores de prateleiras.
E agora? Só então Niels notou que nas estantes havia m inúsculas etiquetas com anotações m anuscritas. Eram letras do alfabeto: A, B, C, D, E, F, G, H. Ele olhou para a estante que tinha diante de si. Estava tão próxim a das outras que lhe seria im possível se esprem er entre elas. Então ele viu um a alavanca proj etando-se das prateleiras. Pegou-a e em purrou. A estante deslizou para um lado e ele se posicionou no espaço que se abriu. Viu caixas que tinham pequenas fichas, m ais um a vez rotuladas por ano. Havia várias caixas para cada ano. 1940, 1941, 1942, 1943. Niels puxou um a das caixas de 1943. Janeiro, fevereiro, m arço. A próxim a caixa. Setem bro, outubro, novem bro. E finalm ente: dezem bro. Ele correu os dedos pelo alto das fichas. Pedaços de papel am arelo. Rosenj øj , Roslund, Sørensen, Taft, Torning, Ulriksen. Lá estava! Thorkild Worning. Niels tirou a ficha e leu. Thorkild Worning, internado no dia 17 de dezembro de 1943. Paciente dermatológico. Registro médico número 49.452. Ele atentou para o núm ero. 49.452. Pôs a ficha no bolso e voltou para o corredor. As prateleiras do outro lado continham os registros dos pacientes: 26.000 a 32.000. Ele foi percorrendo a fileira: 35.000 a 39.000. Estava tão nervoso que pensou em cigarros. 48.000 a 51.000. Parou. Era ali. Ele puxou a alça e as estantes se afastaram um a da outra. Então parou e respirou fundo, sentindo que seu corpo estava m uito tenso. Ele sentia na boca um gosto quím ico ruim . Deu um a olhada rápida para a ficha que tinha na m ão, em bora isso nem fosse necessário. Ele tinha decorado o núm ero: 49.452. O registro m édico referente a Thorkild Worning.
Niels encontrou rapidam ente o lugar certo. Descrições do estado de saúde dos pacientes e tipos de tratam ento. Alguns ocupavam m eia página, ao passo que outros eram quase um a novela. 49.452. “Thorkild Worning”, estava escrito no alto da página. Internado no dia 17 de dezem bro de 1943. Havia duas fotos, am bas em branco e preto. Um a delas era a m esm a foto que ele vira no livro. A foto das costas de Thorkild Worning. Com a m esm a m arca, igual à de todos os outros que haviam m orrido. Apenas com um núm ero diferente. Trinta e seis. Com o nas costas de Niels. A outra foto m ostrava o rosto do paciente. À prim eira vista Thorkild Worning parecia um tipo absolutam ente com um . Um hom em que podia ser encontrado atrás do caixa de um banco em 1943. Cabelo escuro puxado para trás e com um a risca im pecável; nem um único fio fora do lugar. Um rosto fino e bem proporcionado. Óculos com arm ação redonda de aço. E no entanto havia algo nos seus olhos. Algo m aníaco, quase dem oníaco, na expressão do hom em . O texto sob as fotos era decepcionantem ente curto e escrito em estilo frio, clínico:
Internação 17-12-1943
Conclusões clínicas:
O paciente passou hoj e por um exam e prelim inar. Queixou-se de dor
forte nas costas. As com pressas frias que lhe foram aplicadas não surtiram
efeito. O paciente tem um inchaço significativo nas costas. Parece hostil e
alheio. O paciente diz que a m arca apareceu sem ser provocada e a dor está
aum entando. O paciente descreveu a dor com o “um a sensação abrasadora,
corrosiva”. E depois com o “a sensação de que a m inha pele está queim ando
a partir de dentro”. Ele afirm ou que a dor é intensa não só na pele com o
tam bém por dentro das suas costas. “No m eu sangue”, com o disse o
paciente. O paciente foi tratado com aspirina m as sem o resultado esperado.
O paciente parece ser extrem am ente desequilibrado e trata os m édicos com
desdém . Um exam e das costas do paciente indicou um a form a de eczem a
grave, erosão ou possivelm ente um estado desconhecido de inflam ação.
Recom enda-se o teste de alergia a m etal na clínica derm atológica de Finsen.
Não há pus vazando nas suas costas, em bora a pele estej a verm elha e
inchada. Sua pele apresenta um desenho nítido. O com portam ento agressivo
do paciente está se exacerbando. Ele está delirando e produzindo vôm ito
com sangue.
Ocupação e estado civil do paciente:
Telegrafista. Casou-se com sua atual m ulher em 1933. Reside em um
apartam ento de um quarto na Alam eda Rahbæks.
Consumo de álcool e tabaco:
Moderado.
Outros órgãos:
Nenhum a queixa específica, fora um pouco de artrite em um om bro. Não
se cogita relação.
Avaliação psicológica:
23-12-43: Presum e-se que a enferm idade sej a consequência de
desequilíbrio m ental. O paciente foi transferido para o departam ento de
psiquiatria do Hospital Nacional na m anhã do dia 23 de dezem bro.
Dr. W. F. Pitzelberger
Niels releu várias vezes o relatório m édico antes de colocá-lo no bolso. Não sabia o que pensara que encontraria, m as tinha esperado m ais. Voltou para o corredor, tentando esquecer o desapontam ento e se convencer de que aquele era um passo interm ediário necessário. Era no departam ento de psiquiatria que ele encontraria a resposta para... o quê? Não era exatam ente isso que Hannah tinha tentado lhe dizer? Que há m uito tem po a ciência havia deixado claro que a ignorância hum ana era m onum ental? E que cada vez que se fazia um avanço, ele apenas revelava que havia m ais e ainda m aiores cam adas de ignorância? Finalm ente Niels se perguntou: Com o foi que Worning sobreviveu?
Com o qualquer policial de Copenhague, Niels conhecia o departam ento de psiquiatria do Hospital Nacional, localizado na esquina diagonalm ente oposta à do hospital. Era lá que a polícia entregava os loucos – pessoas que não podiam ficar na prisão. Havia m uitos crim inosos reincidentes. Dem asiados. Na sede da polícia se discutia frequentem ente esta questão: o núm ero de leitos dos pavilhões psiquiátricos estava sendo constantem ente reduzido. Se os políticos soubessem que os pacientes psiquiátricos cuj o tratam ento não era adequadam ente financiado passavam frequentem ente a integrar as estatísticas de crim e, por certo eles pensariam duas vezes antes de reduzir o orçam ento.
Niels saiu dos arquivos m as precisou deixar a porta aberta.
Ele ouviu vozes aproxim ando-se. Vindas do elevador. Tinha de acontecer, m ais cedo ou m ais tarde; obviam ente eles iriam procurá-lo.
– É ele! Ali! – gritou alguém atrás dele.
Niels virou num canto e entrou em outro corredor, depois dobrou noutro canto e chegou a um saguão quase totalm ente escuro. Ainda estariam atrás dele? Ele parou e ficou atento.
Ouviu um a porção de palavras bem -intencionadas ditas em voz áspera.
– Ei, você! Ei, cara. Os pacientes não podem vir aqui em baixo.
Niels não parou. Outro saguão. Seu pé tropeçou em algo e ele quase caiu. Mas se reequilibrou e continuou. Ele achava, pelos sons e vozes ouvidas, que m ais de duas pessoas o perseguiam . Não se virou; isso seria um a perda de preciosa energia. Mas eles não dem orariam a alcançá-lo.
Niels se viu dentro do elevador. Ele deve ter andado em círculo.
Um servente estendeu o braço e o agarrou. Niels não viu o rosto do hom em , m as notou que ele estava usando um j aleco de laboratório e parecia determ inado a segurar firm em ente o seu braço. Teve m edo que o hom em lhe quebrasse o pulso. Outras pessoas o perseguiam . Eles estão esperando o quê?, pensou Niels.
– Já está na hora de ir para a cam a, cara.
O servente tentou em purrá-lo para fora do elevador. Niels usou toda a sua raiva para convocar os últim os vestígios de energia. Girou e golpeou com o j oelho a virilha do hom em . Xingando, o servente relaxou a m ão. Só por um segundo, m as o suficiente para Niels em purrá-lo para fora do elevador. A últim a coisa que ele viu antes de as portas fecharem foi o servente cair no chão de cim ento.