O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 47 de 137

Páginas do PDF

O Último Homem Bom

Capítulo 38

Instituto Niels Bohr – Copenhague

Com a caixa de papelão debaixo do braço, Hannah correu pela Blegdam svej até chegar ao seu destino: o velho Instituto Niels Bohr. Enfiou a chave na fechadura. A porta abriu, e Hannah pensou que talvez houvesse algo sim bólico no fato de ela não ter entregado a sua chave. Seria porque subconscientem ente deixava aberta um a portinha para o m undo da pesquisa? A porta se fechou atrás dela com um clique quase inaudível. No vestíbulo do prédio antigo, ela se deteve para olhar em torno de si. Viu a fam osa foto de Niels Bohr e Albert Einstein absortos num a conversa intensa, apressando-se pelas ruas calçadas de pedra a cam inho da Conferência de Solvay de 1927 em Bruxelas.

A ideia do instituto foi de Niels Bohr. Ele tinha providenciado o financiam ento e sozinho arquitetou a estrutura do seu funcionam ento. O instituto foi inaugurado em 1921 e nas décadas seguintes se tornou o centro do m undo da pesquisa em física teórica. Dizia-se que durante esses anos era im possível diferenciar o hom em Niels Bhor do Instituto Niels Bohr. Era lá que ele e a sua fam ília m oravam . Era lá que ele trabalhava. Lecionando, pesquisando e fazendo conferências para os principais físicos do m undo. Sem pre que Hannah olhava para as fotos dessa época elas quase lhe tiravam o fôlego. Ela se perguntava quantos dinam arqueses tinham ideia dos brilhantes cientistas que haviam frequentado aquele lugar.

Hannah subiu a escada, passando pela antiga sala de Bohr. A porta estava escancarada. Ela espiou o am biente. Era com o dar um a olhada no túnel do tem po. A m esa oval. O busto de Einstein. Por um m om ento ela foi vencida pela em oção. Isso a surpreendeu, porque j á havia estado ali m uitas vezes. Ela respirou fundo. Com o se desej ando puerilm ente fazer entrar nos seus pulm ões um m iligram a do gênio de Bohr. Isso era algo que agora ela realm ente poderia usar m uito bem .

 

Hora do alm oço. Corredores em total silêncio. Hannah foi para o salão de conferências. Nada havia m udado ali desde os tem pos de Bohr. Com os duros bancos de m adeira e o quadro-negro idealizado com o um a caixa chinesa inteligente que oferecia constantem ente novas lousas, um a atrás da outra. O salão de conferências tinha sido proj etado e preservado com o um dos tesouros culturais da Dinam arca. Fotografias tiradas no auditório estavam agora dependuradas nas paredes, inclusive um a foto fam osa de Bohr sentado com alguns dos lum inares da ciência: Oskar Klein, Lev Davidovich Landau, Wolfgang Pauli e Werner Heisenberg.

Hannah pôs a caixa num a m esa com prida e retirou os m ateriais, dispondo tudo diante de si. Observou todos os pedaços de papel. E tam bém o m apa-m úndi, que parecia rir para ela. “Você quer dizer que não pode m esm o resolver o problem a?”, era o que ele parecia dizer. “Tudo o que você tem a fazer é encontrar o sistem a. O resto é consequência.”

Hannah ouvia o barulho leve do trânsito lá fora. Ela pôs de lado todo o m aterial sobre o caso e concentrou sua atenção no m apa. Exam inou os Xs que m ostravam os locais das cenas de crim e, que pareciam ter sido escolhidos aleatoriam ente. Alguns na costa, outros no interior. Hannah olhou para as datas dos assassinatos. Seria possível encontrar um tipo de padrão na sequência? A m esm a distância entre uns e outros? A m esm a... Ela foi até a j anela. Parecia que ia nevar. O céu estava coberto de nuvens cinza-claro e havia gelo nos pinos pontiagudos destinados a afastar os pom bos do peitoril da j anela. Em baixo, as pessoas passavam na rua. Um a velha estava se aproxim ando. Um ônibus parou no ponto e alguns passageiros desceram . A velha caiu na calçada escorregadia. Im ediatam ente surgiram pessoas para aj udá-la. Ela sorriu agradecida. Estava bem . Hannah ficou na j anela, um a espectadora olhando para... seres humanos.

Pessoas. O m ito tinha relação com seres hum anos. Trinta e seis pessoas que deviam tom ar conta de todas as dem ais. Todos nós. Pessoas – por oposição a quê? Terra? Água? Hannah saiu do salão e entrou na sala da secretária, deserta àquela hora, procurando um a tesoura. Encontrou-a na gaveta da escrivaninha. De volta ao salão de conferências, j á ia recortar o m apa quando m udou de ideia. Em vez disso baixou o m apa-m úndi que ficava na frente do salão, arrastou para sob ele um a pequena estante de livros e subiu nela. Não havia alternativa, ela precisava de grandes continentes; só assim teria espaço suficiente para todos os Xs. Quando com eçou a recortar o m apa, pensou: m as o que é que eu estou fazendo? Cortando em pedaços o m apa de Niels Bohr? Ao m esm o tem po ela teve a sensação de que ele aprovaria. Detalhes práticos não devem im pedir nosso avanço, se sentim os que vam os descobrir algo im portante.