O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 94 de 137

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O Último Homem Bom

Subsolo, Hospital Nacional – Copenhague

15h35

– E o que é que eu faço se encontrar?

Niels não ouviu a pergunta de Hannah. Ele j á estava na m etade do corredor. O som desesperado dos seus passos se fundia com um zum bido fraco que vinha dos fossos de ventilação.

Hannah respirou fundo. Ela estava realm ente sentindo falta da abordagem teórica. Ideias. Im aginar o universo sem j am ais ir além da banca do j ornaleiro para com prar cigarros.

A m aioria das portas não tinha inscrição algum a. Um as poucas prom etiam suprim entos. depósito b2. depósito do departamento de radiologia. Nenhuma dizia apenas integrantes da equipe. Hannah pensou em Søren Kierkegaard. Ele tinha passado a vida inteira num espaço de poucos m etros quadrados, andando de um lado para outro, possivelm ente passeando um pouquinho na rua, m as sem pre com pletam ente absorto nos seus próprios pensam entos. Não é preciso m uito espaço para im aginar o m undo inteiro – na verdade isso podia ser feito dentro de um barril. depósito. suprim entos/anestesiologia. Ela não estava ouvindo os passos de Niels quando virou num canto, seus pensam entos tom ados por filósofos em barris. O grego Diógenes, inventor do cinism o. “Cinism o” vem da palavra grega que designa o cão. Diógenes achava que nós poderíam os aprender m uito com os cães. Um cão pode instintivam ente diferenciar entre am igo e inim igo. As pessoas não fazem isso. Elas podem com partilhar um apartam ento com seu pior inim igo sem nem m esm o saber disso. Por que ela estava pensando nisso agora? Às vezes ela estava sim plesm ente entediada e cansada das suas próprias associações... Ah, agora ela percebia por que Diógenes havia surgido na sua m ente: porque de vez em quando ele deixava seu barril e saía pelas ruas de Atenas procurando um a “pessoa de verdade”. Um a pessoa boa. Diógenes tinha vindo aj udar Hannah. Com o ele, ela tinha saído do seu próprio barril para encontrar um verdadeiro ser hum ano.

Eles chegaram ao canto no m esm o instante, Hannah e Niels.

– Encontrou algum a coisa? – indagou ela. – É agora. Pôr do sol. Agora são três e trinta e sete.

Ele sussurrou.

– Ali está. A inscrição apenas integrantes da equipe naquela porta. Ele tirou a arm a do coldre preso ao om bro.

“Eu m e pergunto o que vam os encontrar.” Foi só isso que Hannah teve tem po de pensar antes de ele forçar a entrada no quarto.

Apenas integrantes da equipe

15h37

Niels entrou no quarto escuro. Trevas interrom pidas apenas pelo brilho débil de um aparelho de televisão e um grito de terror.

– Maria Deleuran? – gritou ele.

Era um a m ulher que estava na cam a? Niels se aproxim ou um pouco passando a m ão pela parede, na tentativa de encontrar um interruptor de luz.

– Maria?

– Sim ?

– Você está sozinha?

– Estou – respondeu ela. Niels piscou. Os contornos do quarto com eçavam lentam ente a tom ar form a. Ela estava deitada na cam a. Ele se aproxim ou m ais um passo antes de descobrir um a segunda pessoa. Um a som bra – algo se m ovendo rapidam ente na direção dele.

– Pare!

– O que é que está acontecendo? – gritou Maria.

Niels tirou a trava da sua arm a.

– Que diabo está acontecendo aqui? – berrou ela novam ente.

Niels não hesitou. Estendeu a m ão no escuro e agarrou um colarinho. A outra pessoa se contorceu, livrou-se dele e lhe deu um soco no rosto. Maria estava chorando. Niels havia acidentalm ente atingido a sua perna com o braço esquerdo ao cair. A outra pessoa im ediatam ente caiu sobre ele tentando agarrar sua cabeça.

– Acenda a luz! – Niels agarrou o pulso do hom em , torceu-o e tentou se levantar. Novam ente foi atingido, dessa vez na parte traseira da cabeça, antes de conseguir se pôr de pé.

– Cham e a segurança! – gritou o hom em . Ele segurava firm em ente o braço de Niels.

– Hannah! Acenda a luz! – Niels conseguiu livrar seu braço e tirou as algem as. Finalm ente conseguiu agarrar a m ão do hom em . Um a torcida rápida, um grito de dor, e Niels atirou o hom em no chão com um a força feroz. Naquele m om ento Hannah acendeu a luz. O hom em sem inu se afastou um pouco no chão antes de Niels arrastá-lo até a cam a, atirando-o sobre ela e prendendo a algem a num a barra de ferro.

Só então Niels olhou para Maria, que aterrorizada tentava cobrir com o lençol o corpo nu.

– O que... o que você quer?

Niels estava sem fôlego. Sangue escorria do seu nariz até a cam isa. Seus olhos vagavam pelo quarto, absorvendo a cena. Ele olhou para Maria. Depois para o ágil hom em quase nu, um quarentão algem ado na cam a. Para o paletó do hom em , caído sobre um a cadeira; para o crachá que m ostrava o seu nom e: m ax rothstein, m édico. Para a garrafa de vinho branco aberta, sobre um a m esinha. Para Maria, que não dissim ulava o choro.

– Responda! – pediu ela. – O que está acontecendo?

– Não é ela – disse Niels. – Não é ela.

– O que é que você quer?

Exaurido, Niels lhe m ostrou sua identidade policial. Hannah retrocedeu um passo, saindo para o corredor.

– Que horas são? – perguntou ele.

– Niels, isso é loucura.

– Alguém pode m e dizer por favor o que está acontecendo aqui? – gritou o hom em .