O Último Homem Bom
Capítulo 30
Centro da cidade – Copenhague
O pastor estava no seu escritório. Abdul Hadi o viu m uito bem porque o escritório dava para o j ardim , aberto ao público. Abdul Hadi se sentou num banco a pouca distância dele. Pegada à igrej a ficava um a creche. No interior desta havia crianças e funcionários. Por que o seu prim o gordo não havia m encionado isso? Não que fizesse algum a diferença; ele tinha decidido o seu plano, em bora lam entando não poder explodir a igrej a. Teria sido lindo: a fachada da igrej a reduzida a pedacinhos diante da fam osa rua de pedestres. Fotos de vitrines de loj as destruídas e de um a igrej a arruinada tendo no m eio dos destroços um pastor m orto teriam viaj ado pelo m undo em tem po recorde. Copenhague teria sido acrescentada à lista no novo m apa-m úndi. Um m apa-m úndi m ostrando m ais e m ais vitórias. As coisas cam inhavam na direção certa. A decadência do Ocidente estava prestes a fazê-lo im plodir. Um a vida baseada na exploração dos outros e na depravada perseguição sexual das crianças. Crianças! Abdul Hadi via isso em todos os m anequins das vitrines das grandes loj as. Seios pequeninos, ainda sexualm ente im aturos; alguns m anequins não usavam absolutam ente nenhum a roupa, m as parece que isso não incom odava ninguém . As pessoas passavam com grandes pacotes – sua religião é centrada no consum ism o. No feriado religioso m ais im portante eles com iam carne de porco, davam aos filhos um núm ero absurdo de presentes e se queixavam de que não havia dem ocracia no Oriente Médio. Abdul Hadi lam entava que um dia seu irm ão tivesse vindo para esse lugar. Para a Europa. Mas sua m orte precisava ser vingada.
Abdul Hadi m eteu a m ão no bolso. A faca estava lá. Seu prim o a havia trazido para o aeroporto. Seu prim o gordo ficara estarrecido com o fato de Abdul Hadi ter sido forçado a saltar do trem , e quase se recusara a levar Abdul na travessia pela ponte que liga a Suécia à Dinam arca. “Um exército adorm ecido.” Abdul Hadi o havia repreendido severam ente. Gritara com ele no carro quando ele disse que não estava nem um pouco feliz por levá-lo de carro.
Um Papai Noel passou andando, perseguido por crianças. Abdul Hadi se levantou e foi para a igrej a.
Não havia ninguém na igrej a. Um a grande cruz de m adeira com a figura de Cristo estava dependurada na parede. Era ali que ele pretendia depositar o pastor quando tivesse liquidado com ele. A im agem que acabaria na prim eira página dos j ornais ocidentais. Iconografia. Isso era im portante. Os ocidentais se definiam apenas por m eio de coisas externas. Roupas, aparência, espelhos, figuras, televisão, propaganda. Abdul Hadi entoava silenciosam ente a litania que ele absorvera enquanto rabiscava a planta da igrej a. Os ocidentais não tinham diálogo interior, não tinham conversas com Deus.
Um a m ulher lhe disse algum a coisa, m as percebeu im ediatam ente que ele não falava dinam arquês. Passando para o inglês, ela avisou:
– A igrej a está fechando. Então sorriu e acrescentou: – Quinta-feira tem um serviço à m eia-noite, se o senhor se interessar.
– Obrigado.
Ele saiu. As luzes estavam apagadas na creche. A igrej a foi fechada. Abdul Hadi deu um a volta até a sacristia, onde haviam lhe preparado um a j anela. Ele teria preferido fazer prim eiro um a prece, m as não havia tem po. Tinha visto o pastor vestir o paletó. Precisava ser agora.