O Último Homem Bom
Capítulo 54
Aeroporto Kastrup – Copenhague
A m anhã estava gélida. A sensação térm ica era de cinco graus abaixo de zero. O Air Force One aterrissou precisam ente às nove horas. Alguns segundos depois a porta ao lado do selo presidencial se abriu e o presidente Obam a saiu do avião e desceu a escada. Havia um a som bra de preocupação na sua expressão norm alm ente determ inada. Um traço de dúvida. O hom em m ais poderoso do m undo não foi recebido com nenhum tipo de pom pa e circunstância. Depois de um rápido aperto de m ãos com a em baixadora am ericana Laurie S. Fulton ele entrou num a confortável lim usine e rum ou para o Bella Center. Era um hom em ocupado. Um hom em com um a m issão m uito específica: ia salvar o m undo.
Sexta-feira, 18 de dezembro
Niels acordou sentindo o corpo pleno de energia. Um sentim ento conhecido – e m uito preferível ao oposto, que era o vazio. Não a depressão alegada por Kathrine. Ele tinha m uita energia ou m uito pouca.
Distrito de Nørrebro – Copenhague
Em bora Hannah estivesse sim plesm ente sentada ali olhando para o espaço, havia nela algo diferente.
Niels notou isso im ediatam ente, quando entrou no café e viu Hannah sentada a um a m esa no fundo, bebericando um café. Não por ela ter se em penhado na aparência: base, um pouco de batom , o cabelo bem penteado. Era sobretudo pelo seu olhar. O m odo com o seus olhos estavam vigiando a sala e as outras pessoas no café. Um a curiosidade despertada. Um interesse fundam ental no que estava acontecendo em torno dela. Ela o viu e acenou. Foi um gesto infantil, que fez Niels sorrir. Ao lado dela, no chão, estava a caixa de papelão com todo o m aterial do caso.
– Vam os com em orar o sistem a. – Hannah balançou a cabeça apontada para a bandej a na m esa. Bolinhos, ovos, croissants, fatias de m elão. – Pedi para nós dois.
– O assassinato na Cidade do Cabo. Com o foi que você...
– Eu im aginei o sistem a. – Ela falava rápido, quase febrilm ente. – Usei o m ito e o núm ero trinta e seis com o ponto de partida.
– Mas espere um pouco, Hannah. Você não é religiosa.
– Você tem certeza disso? – Ela sorriu. – Para ser sincera, eu não sei se sou ou não sou. Mas o que sei é que todo m undo sem pre está apregoando a divisão entre religião e ciência. Você não vai se sentar?
Niels não tinha percebido que ainda estava de pé. Ele se sentou.
– Essa divisão se baseia num a prem issa falsa. Ela sim plesm ente não existe. As prim eiras ciências se desenvolveram a partir do desej o de dem onstrar a existência de Deus. Nesse sentido a ciência e a religião estiveram de m ãos dadas desde o princípio de tudo. Talvez m ais favoravelm ente inclinadas um a na direção da outra durante alguns períodos que em outros, m as m esm o assim .
– Por que o núm ero trinta e seis? – Niels se serviu de café. – Ele tem um significado especial?
– Com relação ao sistem a, sim . E é disso exatam ente que nós precisam os. Preste atenção: exatam ente agora os cientistas sustentam frequentem ente a opinião de que nós conhecem os apenas quatro por cento de toda a m atéria do universo. Quatro por cento!
– E quanto aos noventa e seis por cento restantes?
– Exatam ente. E quanto a eles? Nós, os astrofísicos, cham am os isso de “m atéria escura” e “energia escura”. Talvez fosse m ais certo cham ar sim plesm ente de ignorância. Nós não sabem os tanta coisa, Niels. É chocante o pouco que nós conhecem os. E, no entanto, nos com portam os com o deuses que acreditam controlar tudo. Com o garotos com ilusões de grandeza. Não é nisso que nós nos transform am os? É o m esm o que ficarm os tentando nos convencer de que só existem os quatro por cento. Que tudo o m ais, tudo o que nós não sabem os, não existe. Mas existe. Nós sabem os que a coisa está lá, só que não a conhecem os.
– Houve com unicação de apenas... quantos assassinatos? Vinte e um ? E são trinta e seis.
– Até agora vinte e um , m as isso é porque os outros não foram descobertos ou com unicados.
Niels hesitou. Não sabia se parecia curioso ou cético quando perguntou:
– E quanto a esse assassinato na Cidade do Cabo? Com o foi que você soube dele?
– Você sabe quem foi Ole Røm er?
– Sei. Foi o chefe da polícia em 1700 e algum a coisa.
– E astrofísico – disse ela. – Com o eu. Ele foi a prim eira pessoa que m ediu a velocidade da luz – e fez isso com grande precisão.
– E onde é que ele entra na nossa história?
– Certa vez o rei pediu a ele que descobrisse o tam anho da área coberta por Copenhague. Assim , ele só precisava sair e tom ar m edidas m eticulosas, certo? Mas Røm er descobriu em m enos de dez m inutos. Com o foi que ele fez isso?
Um a garçonete passou pela m esa. Hannah a cham ou.
– Eu sei que o pedido é estranho, m as você podia m e arranj ar um a tesoura e um m elão?
A garçonete olhou atentam ente para Hannah.
– Só um segundo – disse ela, e saiu.
Hannah prosseguiu.
– Røm er pegou um a balança e um m apa cadastral de Copenhague e... Ah, obrigada. – A garçonete lhe entregou a tesoura e o m elão que ela pedira. – E com eçou a cortar.
Hannah com eçou a cortar o forro de papel da m esa. Niels percebeu que um j ovem casal olhava disfarçadam ente para eles. Para Hannah.
– Røm er sim plesm ente cortou do m apa todas as áreas habitadas e as colocou num dos pratos da balança. Depois colocou no outro prato as áreas vazias.
Niels sorriu.
– E isso que você cortou, o que é?
– Não parece a África? – Ela segurou um pedaço de papel.
– Se é isso que você acha...
– Tudo bem . Eu adm ito que a África do Sul devia ser um pouco m ais estreita, m as aposto que você pode reconhecer a Austrália, a Am érica do Sul e a Am érica do Norte. – Ela segurou m ais alguns pedaços.
– Você retirou os continentes?
– Não, a água. Os oceanos. Com isso sobraram apenas os continentes. O resto eu cortei fora. –Ela com eçou a j untar os pedaços com o se eles fossem um quebra-cabeça.
– Hannah? – Niels insistia em olhá-la nos olhos. – Eu não tenho o m enor contato com a física nem com a m atem ática desde que term inei o colegial. Você tem de ir m ais devagar. Então: você cortou os continentes de um m apa. Até aí eu entendi. E j ogou fora os oceanos?
– Isso.
– Mas por quê? O que é que isso provaria?
– Eu não contei na m inha m ensagem por celular? Nós tem os de regredir no tem po, Niels. Até um a época m uito distante. Até quando os continentes foram form ados. Época em que apareceram os organism os m ulticelulares.
Niels olhou fixo para ela.
– Isso tem relação com a placa tectônica. Placas continentais, placas no fundo dos oceanos e a gravidade específica do granito por oposição ao basalto. Não há necessidade de entrar nisso tudo agora. Vam os com eçar por um a coisa diferente.
– Boa ideia.
– Por causa da placa tectônica os continentes se m ovem sobre a Terra. Eles estão em perpétuo m ovim ento. Existe um a explicação longa e com plexa para o porquê disso, m as eu vou lhe poupar dos detalhes.
– Obrigado.
– O que você precisa saber é que os continentes são com postos de granito. Você j á ouviu falar de Minik Rosing?
Niels balançou a cabeça.
– É um geólogo da Groenlândia. Ele propôs um a teoria de que o granito da terra é form ado pela oxidação do basalto e que o oxigênio para o processo de oxidação vinha das prim eiras bactérias fotossintetizadas, que surgiram há quase quatro bilhões de anos.
Niels ergueu as m ãos rendendo-se.
Hannah fez um a pausa para pensar.
– Tudo bem . Vam os pular a explicação e ir direto para a conclusão. Ou pelo m enos para um a conclusão parcial. Os continentes passaram a existir com o consequência da vida na Terra.
– Isso é um a conclusão?
– Vam os cham ar de um ponto de partida. Olhe para isso.
Niels observou Hannah m exer nos continentes até eles ficarem todos ligados. O casal j ovem da m esa ao lado tinha desistido de disfarçar seu interesse e seguia a explicação.
– Houve um a época em que todas as m assas de terra estavam ligadas, reunidas em torno do polo Sul. Os continentes pareciam isto aqui. Não. Vou desenhar um a figura para você. – Ela pegou na bolsa um pincel atôm ico preto e com eçou a desenhar os continentes no m elão. – Era assim que eles eram , reunidos no polo Sul.
Desde que Niels conhecera Hannah ela tinha um j eito nervoso. No m odo de andar, em todos os seus m ovim entos. Mas agora não.
– É m ais ou m enos assim que a Terra era há cerca de um bilhão de anos. – Ela ergueu o m elão.
– Quando os continentes eram ligados? – indagou Niels.
– Exatam ente. Hoj e essa teoria é aceita, m as faz quase um século que um astrônom o alem ão descobriu com o eles se aj ustavam uns aos outros. E só depois de anos as pessoas com eçaram a acreditar nele.
Niels contem plou o m elão.
– Vam os para um m undo novo. – Ela olhou para ele. – Só por um m om ento vam os viaj ar para um m undo cham ado Rodínia.