O Último Homem Bom
Capítulo 6
Dortheavej – Copenhague
Maníaco-depressivo. Niels ouviu Leon sussurrar para os outros policiais do outro lado da porta. Ele sabia m uito bem que usavam esse term o para classificá-lo. E sabia tam bém com o o term o era definido nos dicionários deles: suj eito a surtos. Mas Niels não era m aníaco-depressivo. De vez em quando ficava um pouco irritado. E acontecia tam bém de se sentir deprim ido. Da últim a vez isso tinha durado dois m eses.
Niels olhou para as suas pernas nuas que se m ovim entavam pela sala. Ainda estavam trêm ulas: com o frio era m ais difícil conseguir o alm ej ado autocontrole. Durante um a fração de segundo ele pensou em desistir. Ir em bora. Deixar Leon lidar do j eito m ais duro com aquela situação. Ele j am ais havia disparado a arm a que usara em serviço – e nunca iria fazê-lo. Sabia disso. Sim plesm ente não podia. Talvez fosse essa a explicação para o fato de ele ter acabado com o negociador. Na força policial essa era a única situação para a qual o policial não usava arm a.
Niels lim pou a garganta e gritou:
– Peter! Você acha que eu sou idiota? – Ele deu dois passos na direção do quarto. – Que eu não sei com o a gente se sente fazendo o tipo de trabalho que você e eu fazem os?
Niels sabia que Peter estava atento. Ele ouvia a sua respiração. Agora a questão era ganhar a sua confiança para que ele soltasse as crianças.
– As pessoas não sabem o que é tirar a vida de alguém . Elas não sabem que é com o se a gente estivesse se m atando tam bém .
Niels deixou as palavras pairarem no ar durante alguns segundos.
– Fale com igo, Peter! – gritou ele com um a voz de com ando. A aspereza do seu tom surpreendeu até a ele próprio. Mas Peter era soldado. Precisava de ordens. – Eu disse fale com igo, soldado!
– O que é que você quer? – gritou Peter do quarto. – Droga, fala o que é que você quer!
– Não, o que é que você quer, Peter? O que é que você quer? Quer acabar com essa droga de vida? Eu entendo m uito bem isso. O m undo lá fora é m uito feio.
Nenhum a resposta.
– Agora eu vou entrar. Não tenho nenhum a arm a e tirei toda a roupa. Com o você exigiu. Vou abrir a porta bem devagar para que você possa m e ver.
Niels deu três passos na direção da porta.
– Agora eu estou abrindo a porta.
Ele esperou dois segundos. Era essencial que a sua respiração estivesse sob controle. Nenhum sinal de nervosism o podia transparecer. Ele fechou os olhos. Abriu-os e em purrou a porta. Ficou na entrada. Um a m enina estava deitada na cam a. Teria uns catorze ou quinze anos. Clara. A m ais velha. Inerte. Sangue nas colchas. Peter estava sentado num canto do quarto, olhando surpreso para o hom em nu ao lado da porta. O soldado tinha vestido o uniform e. Seus olhos corriam de um lado para outro. Estava em punhando um a espingarda de caça e a apontava para Niels. Entre as suas pernas, no chão, havia um a garrafa vazia.
– Você não pode m e dizer o que eu devo fazer – m urm urou Peter. Ele j á não parecia m uito seguro de si.
– Onde está a Sofie?
Peter não respondeu, m as sons fracos vieram de debaixo da cam a. Ele abaixou a espingarda e a apontou para Sofie, que tinha se enroscado sob a cam a.
– Tem os de sair daqui – disse o soldado, pela prim eira vez olhando nos olhos de Niels.
Sem desviar os olhos dele, Niels concordou:
– É, nós tem os de sair daqui. Mas não a Sofie.
– A fam ília inteira.
– Eu vou m e sentar.
Niels se sentou. O sangue da m enina m orta gotej ava da cam a e caía no chão. Algum as gotas aterrissaram no seu pé descalço. Um fedor de álcool e roupa de cam a suj a pairava no ar. Niels esperou alguns m inutos. Ele via que Peter não estava pronto para atirar na filha caçula. Há m uitos m eios diferentes de negociar com o suj eito que m antém um refém , m uitas técnicas. Tantos que Niels ainda não conhecia os m ais recentes. Seus dois colegas tinham ido aos Estados Unidos para participar de um curso no FBI. Niels devia ter ido com eles, m as o m edo de viaj ar o retivera em casa. A sim ples ideia de entrar num enorm e cilindro de m etal para voar sobre o Atlântico a um a altitude de trinta e cinco m il pés estava além da sua com preensão. O resultado não poderia ter sido outro: ultim am ente seus superiores quase não o convocavam m ais. Apenas se os outros estavam doentes ou de férias, com o naquela noite.
De acordo com o m anual, seu próxim o passo seria iniciar a negociação com Peter. Levá-lo a fazer algum as exigências ou pedidos, qualquer coisa, enfim . Algo que relaxasse a sua m ente e desse tem po a am bos. Poderia ser algo m uito banal. Um pouco m ais de uísque ou um cigarro. Mas Niels tinha abandonado o m anual há m uito tem po.
– Sofie! – Niels gritou de novo. – Sofie!
– Oi – ele ouviu de sob a cam a.
– Seu pai e eu vam os conversar um pouco. Vai ser um a conversa de gente grande. Nós querem os ficar sozinhos!
Niels falava com um a voz áspera, m uito áspera, e não tirava os olhos de Peter nem por um segundo. Sofie não respondeu. Niels era agora o oficial com andante de Peter, seu superior, seu aliado.
– Quero que você faça o que o seu pai e eu vam os lhe dizer para fazer. Saia daí agora! Vá para a escada!
Finalm ente Niels ouviu a m enina sair de debaixo da cam a.
– Não olhe para nós! Saia agora! – berrou ele.
Ele ouviu os passos leves da m enina correndo pela sala e depois o som da porta da frente abrindo e fechando. Ficaram para trás Niels e Peter com o corpo de um a adolescente.
Niels estudou o soldado. Peter Jansson, vinte e sete anos de idade, soldado dispensado. Um autêntico herói dinam arquês. Peter tinha virado a arm a ao contrário e colocado a boca sob o seu próprio queixo.
O soldado fechou os olhos. Niels ouvia Leon sussurrando na escada.
– Deixa ele, Niels. Deixa o m aluco estourar os m iolos.
– Onde você quer ser enterrado? – Niels estava absolutam ente calm o. Falava com o soldado com o se os dois fossem am igos íntim os.
Peter abriu os olhos m as não olhou para Niels. Fixou-os no teto. Ele era religioso? Niels sabia que m uitos soldados m andados para a guerra recorriam bastante ao capelão m ilitar, m as não se dispunham a adm itir isso.
– Você quer ser crem ado?
O soldado apertou m ais a arm a.
– Não quer m andar um recado para alguém ? A últim a pessoa que vai ver você vivo será eu.
Nenhum a reação de Peter. Ele respirava ruidosam ente. Seu últim o ato – tirar a própria vida – parecia exigir m ais coragem do que m atar a m ulher e a filha.
– Peter, você gostaria que eu contatasse alguém ? Alguém para quem você queira que eu leve um recado?
Niels falava com Peter com o se ele j á tivesse um pé no céu. No lim iar do outro m undo.
– Não.
– E agora você quer m orrer.
– Quero.
– Eu entendo isso. Você gostaria de ser lem brado por algum a coisa? Um a coisa boa?
Peter ficou pensando. Niels viu que tinha acertado no alvo. Pela prim eira vez Peter estava pensando em algo que não era acabar consigo m esm o, com sua fam ília e com toda essa droga de m undo. Assim , Niels continuou na m esm a linha.
– Peter! Me responda! Você fez um a coisa boa! O que foi?
– Tinha um a fam ília... um a aldeia perto de Basra que estava sob fogo pesado – com eçou Peter, m as Niels viu que ele não tinha forças para continuar.
– Um a fam ília iraquiana? E você a salvou?
– É.
– Você salvou vidas. Tirou vidas m as tam bém salvou. As pessoas vão se lem brar disso.
Peter abaixou a arm a. Por um m om ento ele deixou que os golpes o esm urrassem , com o um boxeador aturdido m as ainda de pé.
Niels reagiu com um a velocidade im pressionante. No m esm o instante estava ao lado do soldado e agarrou o cano da espingarda. Surpreso, Peter ergueu o olhar para ele. Não tinha intenção de soltar a arm a. Sem perda de tem po, Niels deu um tapinha com as costas da m ão na cabeça do hom em .
– Solte! – gritou ele para Peter, que finalm ente afrouxou a preensão sobre a arm a.
Desde que entrara no quarto, Niels achara que era Peter quem produzia o som de batidinhas e suspiros que ele ouvia. Mas o soldado estava sentado ali, com o olhar de quem havia desistido. Segurando a espingarda, Niels se virou. A m enina estava se m exendo na cam a.
– Leon! – gritou ele.
Os policiais irrom peram no quarto. Leon na frente, com o sem pre. Atiraram -se sobre o soldado, em bora ele não tivesse oferecido nenhum a resistência. Os m édicos subiram ruidosam ente a escada.
– Ela está viva! – Niels se precipitou para fora do quarto. Alguém j ogou um cobertor em seus om bros. Ele parou ao lado da porta e olhou para trás. Peter estava chorando. Estava em processo de desintegração. Era bom que ele chorasse; Niels sabia disso. Se havia lágrim as, havia esperança. Os param édicos tinham posto a m enina num a m aca e saíam com ela.
Enrolado no cobertor grosso que cheirava aos cães da polícia, Niels foi até a cozinha e deixou os outros fazerem seu trabalho. A fam ília tinha com ido bolinhos de carne no j antar. Com m olho bearnês com prado pronto.
Lá fora ainda estava chovendo. Ou seria a prim eira neve do ano? O vidro da j anela estava em baçado.
– Bentzon. – Leon entrou na cozinha. Ficou bem perto dele. – Ando querendo lhe perguntar um a coisa.
Niels esperou. Leon tinha m au hálito.
– Droga, por que é que você faz isso?
– Você quer m esm o saber?
– Sim .
Niels respirou fundo. Leon usou a pausa para com er o últim o bolinho de carne da fam ília. Revirou-o no m olho bearnês e o m eteu na boca.
Então Niels respondeu:
– Eu penso num a coisa que ouvi no rádio. Sobre Abraão e Isaac.
– Im aginei que você ia dizer qualquer coisa assim .
– Você m e perguntou.
Leon ainda m astigava.
– O que aconteceu com eles? Eu quase não sei nada sobre essas coisas.
– Um a vez um pastor disse no rádio que ninguém devia divulgar essa história. Você se lem bra dela? Deus diz para Abraão que ele precisa sacrificar o filho para dem onstrar a sua fé.
– Concordo com o pastor. Parece um a história m órbida. Essas bobagens deviam ser proibidas.
– Mas o que a gente faz não é exatam ente isso? Mandam os os j ovens para a guerra no deserto e pedim os a eles que se sacrifiquem por um a crença.
Leon olhou para Niels durante alguns segundos. Um sorrisinho, um a sacudida de cabeça um tanto forçada e pronto, foi em bora.