O Último Homem Bom
Capítulo 17
12h59 – 2 horas e 42 minutos até o crepúsculo
Outra volta à consciência. Ela aconteceu em pequenas ondas que fizeram seus olhos se abrirem por um m om ento e depois se retiraram novam ente.
– Eu... – disse Hannah e então se calou. Dessa vez ela não falaria com ninguém . Não pediria aj uda. Nem im ploraria aos m em bros da equipe que a deixassem ficar acordada. Aquilo era um hospital; eles fariam todo o possível para salvar a vida dela. Mas havia um equívoco. Agora Hannah sabia disso. Ela devia m orrer. Naquele dia. Na hora do crepúsculo ela estaria m orta.
Era preciso se m ovim entar calm am ente – para ficar no m esm o ritm o dos seus pensam entos, que ainda estavam sob a influência dos sedativos. Prim eiro ela tirou o soro e pressionou o esparadrapo sobre a picada. Depois levou as pernas para fora da cam a e se pôs de pé, oscilando com o um bebê que dá os prim eiros passos. Um a perna estava quase inútil. Ela precisava de um a m uleta. Ou de um a cadeira de rodas.
Ela se apoiou na parede e avançou com dificuldade até o arm ário. Dentro havia apenas o seu paletó. Ainda enlam eado pelo acidente e fedia a zim bro e álcool. Hannah se lem brou da garrafa de gim quebrada. Os cacos de vidro azul-claros. Ela vestiu o paletó. Logo de início não reconheceu a m ulher que estava de pé diante de si, com um ar enfurecido. Depois veio a dolorosa percepção de que ela estava olhando para o próprio reflexo num espelho. Um lado do rosto estava inchado. Mas isso não tinha im portância. Logo ela estaria deixando para sem pre a sua casca terrena.
14h24 – 1 hora e 17 minutos antes do crepúsculo
– Mais dois. Eles vão dim inuir a dor.
A enferm eira estava debruçada sobre Niels enquanto ele engolia com dificuldade os dois com prim idos grandes. Ela olhou para ele.
– Hoj e é sexta-feira? – ele se ouviu perguntando.
– Isso, sexta-feira. Dia de Natal. Você dorm iu m uito tem po, Niels.
– Hoj e à tarde...
– O que é que vai acontecer hoj e à tarde, Niels?
– Quando o sol se puser...
– Eu soube que você andou correndo pelo hospital no m eio da noite. – Ela sorriu. Talvez por causa da palavra “correndo”. – Por sorte você foi logo encontrado. Acho que você só está se sentindo um pouco confuso com toda essa situação.
Niels não respondeu.
– Sabe de um a coisa, Niels? – prosseguiu ela. – Na verdade é m uito com um os pacientes acordarem e se sentirem totalm ente aturdidos. Isso é perfeitam ente norm al.
Ela tom ou a m ão dele. Ele olhou pela j anela, tentando ver o sol. Por um m om ento achou que a luz forte que cegava seus olhos a ponto de ele não poder ver as árvores fosse o sol. Mas não. Era apenas o reflexo da lâm pada. Ele tentou m urm urar um a coisa, m as a enferm eira não o ouviu.
– Você precisa ficar aqui, Niels. Assim nós podem os tom ar conta de você. – A m ão dela estava sobre a dele. – Você disse algum a coisa?
– Apague a luz.
– Claro. Vou apagar.
Ela desligou a lâm pada de cabeceira e o reflexo na j anela desapareceu. O sol estava pairando sobre o alto das árvores do parque. Carm esim e im paciente. Já não havia m uito tem po. Ele desistiu. Pensou: Vá em frente e m e leve para o reino da m orte. E que o m undo inteiro vá para o inferno.
A enferm eira interrom peu os seus pensam entos.
– Aí fora estão dois hom ens que querem falar com você. Eles vieram aqui diariam ente desde que você foi internado. – Ela se levantou e foi encontrá-los.
Som m ersted e Leon entraram no quarto. Leon ficou ao lado da porta. Com o o guarda-costas de um chefe da m áfia. Som m ersted se aproxim ou.
– Por pouco tem po – disse a enferm eira e em seguida saiu do quarto.
Niels não soube interpretar a expressão de Som m ersted. Não era reconhecim ento nem com paixão, frieza ou desprezo. Se não fosse por aquele fiapo de hum anidade que se m anifestava na form a de ciúm e quando se tratava da sua m ulher, Niels certam ente acharia que Som m ersted era um robô com posto de nada m ais que aram es e m ecanism os com plicados.
– Para ser honesto, Niels, eu não entendo nada disso – disse Som m ersted num a entonação calculada. Com o um hom em que tinha todo o tem po do m undo e sabia que não seria interrom pido. – Mas você tinha razão. No sábado passado um policial foi encontrado m orto em Veneza. E foi exatam ente com o você disse: ele tinha um a m arca nas costas. Ainda estam os esperando o relatório final do m édico legista italiano, m as parece que estam os falando do núm ero trinta e cinco possivelm ente tatuado na pele da vítim a. A Interpol está trabalhando diligentem ente no caso.
Som m ersted deu um suspiro profundo, que Niels interpretou com o um pedido de desculpas, algo com o “Sinto m uito por não ter ouvido você”. Niels cruzou o olhar com o de Leon. Era com o olhar nos olhos de um peixe m orto.
– E quanto a você, Niels? – indagou Som m ersted. De repente havia um laivo de em patia na voz dele.
– Quanto a m im ?
– Com o é que você está? O m édico diz que você escapou por um triz. Foi um trem ?
– Um carro num cruzam ento de ferrovia.
– Ah, então foi isso. – Som m ersted balançou a cabeça. – O que você fez para aquelas m eninas foi form idável. Eu soube que elas teriam sido m ortas se você não estivesse lá. Prim eiro aquela fam ília no bairro da zona Noroeste e agora essas duas m eninas. Você j á salvou um bocado de vidas. – Ele m eneou a cabeça e olhou para o chão antes de prosseguir. – Com o eu disse, nós realm ente não entendem os toda essa história. Mas vam os aum entar a presença da polícia no hospital nos próxim os dias e ver o que acontece.
– Só por esta tarde. Até o pôr do sol – disse Niels. Ele olhou para a j anela. O sol tinha com eçado a acariciar o alto das árvores.
– Tudo bem . Nós podem os providenciar isso, sem dúvida. Está certo, Leon?
Leon entrou de repente na conversa.
– Claro, não estam os falando do m esm o nível de segurança que tivem os na conferência sobre o clim a. Mas j á inform am os os funcionários da segurança do hospital e pedim os a eles um a vigilância extra. Vam os guardar as quatro entradas principais e vigiar o estacionam ento. – Ele m anteve os olhos fixos em Som m ersted. Com o um garoto que im plora o reconhecim ento do pai. E obteve o que queria.
Som m ersted assentiu com a cabeça.
– Muito bem , Leon. – O chefe da polícia se virou para ir em bora, m as m udou de ideia e voltou-se novam ente para Niels, dizendo-lhe:
– Eu nunca cheguei a entender você, Niels. Sabe o que m e ocorreu agora?
– Não, não sei. – Niels sentiu que Som m ersted estava a ponto de se atropelar nas próprias palavras.
– Talvez eu devesse ter ouvido você. Mas eu nunca sei bem o que pensar de você. Você parece tão... talvez a palavra sej a “ingênuo”.
Ele se calou abruptam ente. Niels achou que seu chefe estava prestes a lhe oferecer um reconhecim ento im portante.
– Estou feliz com a perspectiva da sua recuperação. Estou m esm o. Não posso evacuar o hospital – sei que você entende isso. Mas Leon e m ais alguns m eninos vão ficar de olho nas coisas aqui.
Niels m eneou a cabeça, surpreso com o uso do “m eninos”. Nunca ouvira essa palavra na boca de Som m ersted. Ele falou com o um treinador de tim e infantil. E a palavra lhe caiu bem . Talvez por isso Leon tenha fechado o punho, exclam ando:
– Droga, Bentzon, nós estam os pensando em você. Trate de ficar de pé de novo.
Niels olhou para ele m as foi incapaz de encontrar algo para dizer. Som m ersted evidentem ente notou o silêncio constrangedor e se apressou a falar.
– Aliás, deu tudo certo aqui em Copenhague. Nós tom am os conta direitinho dos chefes de Estado. – Ele encolheu os om bros. – Parece que dessa vez o m undo foi salvo.
Leon sorriu. Ele sem pre sabia j ogar de acordo com as norm as. Inclusive as tácitas. Um a destas era que sem pre se deve sorrir quando o chefe tentou fazer um a piada.
Niels concordou. Não soube por quê.
Alguém bateu na porta com força um pouco excessiva. A enferm eira pôs a cabeça para dentro do quarto.
– Já term inaram de conversar?
– Acho que sim . – Som m ersted deu um desaj eitado tapinha colegial no om bro de Niels e saiu do quarto.
– Bentzon – disse Leon, acenando para Niels e j á se retirando atrás do chefe.
Depois da saída deles a enferm eira fechou a porta.
Niels não percebeu quando a porta abriu novam ente. Mas ouviu alguém sussurrar o seu nom e.
– Niels.
Ele se virou na cam a.
Hannah estava sentada num a cadeira de rodas. Foi doloroso para Niels vê-la assim , m as ao olhar o seu rosto ele ficou esperançoso. Havia algo diferente nela.
– Niels.
– Hannah.
Ela dirigiu a cadeira até a cam a e pôs a m ão no braço dele.
– Que bom conseguir encontrar você depois de tanta procura. – A voz dela era fraca m as determ inada. – Eu tentei vir ver você, m as eles m e m andavam de volta para o quarto.
– Nós precisam os sair daqui, Hannah. Tem os pouquíssim o tem po.
– Niels. Nós tem os tem po. Eu só preciso lhe explicar a coisa toda. E você precisa ouvir.
– O sol j á está descendo.
– Escute, Niels: quando eu m orri não havia só escuridão. – Ela apertou a m ão dele. – Há outra vida além desta. E agora existe um a prova.
– Prova?
– Com o eu lhe disse no telefone. Mas talvez você estivesse m eio alheio. – Ela sorriu. – Estão fazendo um a experiência im portante, Niels. Puseram im agens em prateleiras perto do teto dos prontos-socorros de hospitais de todo o m undo. Im agens que só podem ser vistas se você está pairando perto do teto. Não é nenhum a doidice; é um estudo científico. Realizado por m édicos e cientistas, e com patrocínio da ONU – gente com o eu, que foi treinada com rigoroso respeito à integridade científica. Me disseram que na internet é possível se inform ar sobre isso. Espere. Ouça a história até o fim antes de m e interrom per. Eu vi o que puseram na prateleira perto do teto. Fui capaz de descrever a im agem , que eu só poderia ter visto com a condição de a m inha consciência se desprender do m eu corpo.
– Consciência. – Niels suspirou. Não se im portou com o brilho fanático que havia no olho de Hannah.
– Cham e com o você quiser. Alm a? Não sei. Só sei que por causa dessa prova precisam os repensar tudo.
– O que nós precisam os fazer é sair daqui antes do pôr do sol, Hannah.
– Você se lem bra da história que eu lhe contei? Sobre o m eu colega do Instituto Niels Bohr que não sabia dizer não? O suj eito que teve problem as por causa da sua bondade?
– Precisam os sair, Hannah. Você vai m e aj udar?
– Olhe para você, Niels. Você tentou salvar aquelas m eninas. Você queria parar o carro só com as suas m ãos.
– Eu fiz o que qualquer outra pessoa teria feito.
– Ficar correndo pelo Hospital Nacional à procura de um a pessoa boa? Isso é um a coisa que qualquer outra pessoa faria, Niels?
– Isso é porque eu sou m aníaco. Maníaco-depressivo. Eu não sou bom da cabeça.
– Você é, sim ! Você é um a boa pessoa que faz coisas boas.
– Nós precisam os sair daqui.
– Nós não podem os. E você sabe disso. Você sabe perfeitam ente o que eu estou insinuando.
Niels não respondeu. Um a frase estava ecoando na sua m ente: “Mas antes eu preciso fazer algum a coisa ruim ”.
– Você se lem bra da história do Abraão? Deus lhe ordenou que levasse o Isaac para a m ontanha. Você m e disse isso quando nós estávam os deitados nas dunas de areia do m ar do Norte.
– Eu não quero saber disso.
– Você vai ter de querer – disse Hannah.
Niels afastou as cobertas e tentou sair da cam a.
– Você precisa parar de ser bom , Niels. É a sua única chance.
– Hannah. – Niels se calou. Lem brou-se m ais um a vez das palavras de Worning: “Mas antes eu preciso fazer algum a coisa ruim ”. – Ele se sentou recurvado e olhou o sol pela j anela.
– Você precisa sacrificar algum a coisa. Um a coisa de que você goste. Algo que lhe m ostre que você está ouvindo. Você entende o que eu lhe digo, Niels? Eu estava m orta e fui trazida de volta para a vida. Eu vi com os m eus próprios olhos um a abertura para... outra coisa.
Niels a deixou falar.
– Nós... você, Niels... precisa aceitar isso. Existe um a coisa m aior que nós. E você precisa m ostrar que você entende isso.
– O que é que eu preciso m ostrar? O que, exatam ente, eu preciso m ostrar?
– Você precisa m ostrar que nós som os capazes de acreditar em algo que não é a gente.
Niels teve vontade de vom itar. Ou de bater nela. De dar nela um a boa bofetada. Com o faziam antigam ente com as m ulheres histéricas. Ele olhou com sim patia para o rosto inchado de Hannah. Aqueles olhos inteligentes. Ela só podia ser tocada por argum entos razoáveis.
– E daí, Hannah? – ele se ouviu dizer. – Então o que é que acontece?
– Eu não sei. Talvez... talvez nós sim plesm ente vam os continuar. E depois nasce um a nova geração. Os trinta e seis seguintes.
Ele balançou a cabeça.
– Nós precisam os sair daqui – m urm urou ele sem convicção. – Quanto tem po ainda tem os?
– Não adianta, Niels. Pense no italiano. Ele tam bém fazia parte do sistem a. Você precisa parar de ser bom . Você...
Ele a interrom peu gritando:
– Quanto tem po nós ainda tem os?
– Uns dez m inutos. Depois o sol vai se pôr.
Niels arrancou o soro do braço. Da picada brotou um sangue verm elho-escuro. Lá fora, no corredor, eles ouviram pessoas gritando e correndo. Hannah saiu da cadeira de rodas para dar a Niels um lenço de papel. Ela oscilou por um m om ento. Depois se reequilibrou. Enquanto Niels saía da cam a, Hannah m exia no arm ário do quarto.
Niels estava pálido com o um cadáver quando agarrou a m ão dela e disse:
– Me aj ude, Hannah. Me aj ude para que eu possa pelo m enos tentar fugir.
Ela deu m eia-volta. Estava com a arm a dele na m ão.
– Tudo bem .