O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 74 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 63

Amager – Copenhague

Ilha da Merda. Niels detestava aquele apelido. Mas na estrada havia dois m anifestantes segurando um cartaz com letras m al desenhadas: bem -vindo à ilha da m erda – ponto de encontro dos líderes de m erda do m undo inteiro. Hannah tam bém os viu, m as não fez nenhum com entário. A barba de um dos hom ens tinha neve e gelo dependuradas. Seu aspecto era de um m aluco, e ele não podia ser senão isso. Eventos com o a conferência sobre o clim a sem pre atraíam esse tipo de gente. A Décim a Quinta Conferência sobre o Clim a era um m aterial estim ulante para as teorias da conspiração e o raciocínio paranoico que está sem pre à espreita de sinais do apocalipse, tais com o ter todos os líderes m undiais num único lugar. E esse lugar era a área onde antigam ente os cidadãos de Copenhague j ogavam seu lixo. Sim bólico demais. Hoj e um a fina cam ada de asfalto cobre o pântano e sobre ela fica um bairro urbano que saiu diretam ente das visões de futuro apresentadas nos film es franceses de ficção científica da década de 1960. Trens correndo em elevados sem ninguém nos controles e arranha-céus pintados de branco que tinham todos o m esm o aspecto. Arquitetura asséptica proj etada na época em que se achava que o futuro anularia o indivíduo em favor da com unidade. Mas não foi isso que aconteceu. Naqueles tem pos, m ais de quarenta anos atrás, ninguém teria previsto que o m undo se tornaria um term ostato passível de ser regulado para cim a ou para baixo. Principalm ente para cim a.

Alguns retardatários estavam cam inhando na neve das laterais da estrada, rum o ao Bella Center.

– Parece que abriram o portão do hospício – sussurrou Niels.

Hannah tentou rir, m as não conseguiu.

– Você tem certeza de que eu preciso ir lá?

– Tenho. Você precisa explicar tudo.

Hannah olhou através da j anela do carro. Lam entava ter se envolvido naquilo. Não tinha vontade de explicar nada.

 

O Bella Center. Um nom e elegante para um prédio feito de concreto aparente localizado na extensão pantanosa m ais plana da Europa. Niels estacionou um pouco longe. Para entrar de carro era preciso um a perm issão especial. O Bella Center não estava sob j urisdição dinam arquesa durante a realização da conferência. Nesse período ele pertencia às Nações Unidas. Se não fosse assim , m eia dúzia de déspotas não teriam podido participar. Chefes de Estado que, de acordo com os padrões ocidentais norm ais, deviam estar cum prindo trinta e oito prisões perpétuas consecutivas por crim es contra a hum anidade. Mas estavam todos ali. Mugabe, Ahm adinej ad e toda a gangue. Pelo obj etivo de baixar a tem peratura da Terra. Era quase tocante.

– Você viu o Som m ersted? – perguntou Niels a um dos policiais.

– Está em algum lugar lá dentro. Confusão total, agora. O Obam a está aqui. – Niels sorriu e deu um tapinha nas costas do hom em . O policial balançou a cabeça.

– Não dá para saber se quem está dirigindo o espetáculo é o Serviço Secreto ou som os nós – disse o policial.

“Espetáculo”, pensou Niels. Talvez a palavra se aplicasse ao evento com m ais propriedade do que im aginava o seu colega. Os m anifestantes eram m antidos à distância por um a cerca de três m etros de altura. Ficavam do outro lado, parecendo refugiados da Revolução Russa: vestidos de preto, tiritantes de frio e inofensivos. Os que eram considerados potencialm ente perigosos, isto é, todos aqueles que tinham um a chance real de passar pela cerca, haviam sido presos e ficariam detidos enquanto Obam a estivesse em cena.

 

Som m ersted estava diante das câm eras de televisão e dos repórteres, sorrindo tranquilam ente apesar das perguntas que lhe dirigiam . Por que os m anifestantes eram forçados a se sentar no chão por tanto tem po? Por que a polícia não era m ais bem preparada? “Os m anifestantes foram levados para o hospital.” “A polícia agiu com brutalidade.” O sorriso de Som m ersted parecia m aior a cada acusação dirigida à polícia de Copenhague. Por fim ele ergueu as m ãos, com o se tentasse parar um trem descontrolado.

– Exatam ente agora cinco policiais estão no pronto-socorro. Três deles com lesões graves. Um tem o nariz e o m axilar quebrados. Foram golpeados com canos de ferro. Mas evidentem ente eu lam ento o fato de que alguns m anifestantes possam ter sofrido um a leve infecção de bexiga por terem ficado sentados no chão frio.

Ele fez um a pausa para im pressionar. De repente todos os repórteres pareciam crianças e Som m ersted o único adulto presente ali. Ele deu um sorriso sim pático para as câm eras.

– A principal responsabilidade da polícia de Copenhague é garantir que os líderes m undiais possam se encontrar em segurança e sem interferência aqui no Bella Center. Em segundo lugar devem os garantir que haj a o m enor núm ero possível de m anifestantes feridos – em bora eles nos ataquem com tij olos e até coisa pior. Mas quando se trata de segurança a ordem das nossas prioridades é essa. Algum a pergunta?

Murm úrios esparsos. Os repórteres estavam arrependidos. Som m ersted era especialista em apaziguar o pessoal da m ídia. Quando as perguntas cessaram , Niels abriu cam inho pela m ultidão.

– Som m ersted?

O chefe da polícia o olhou surpreso.

– Bentzon? Que ótim o trabalho você fez, pegando o Abdul Hadi.

– Obrigado.

– Mas você não ia tirar férias?

– Eu sei que você está ocupado – disse Niels ignorando a pergunta –, por isso vou apressar as coisas. – Ele fez Hannah avançar. – Essa é Hannah Lund, pesquisadora do Instituto Niels Bohr.

Som m ersted olhou confuso para Hannah e repetiu:

– Niels Bohr?

– Na verdade ex-pesquisadora – Hannah se apressou a m urm urar antes que Niels prosseguisse.

– Os casos de hom icídios ocorridos em vários países – pessoas boas que estão sendo assassinadas. Lem bra? Constatam os que os assassinatos estão sendo com etidos de acordo com um sistem a com plexo que aparentem ente se liga a um m ito religioso antigo. – Niels sabia que isso parecia m uito estranho, então se calou por um m om ento. Um grupo de delegados chineses vestidos de terno com eçou a em purrá-lo. O que lhes faltava em altura era com pensado pelo núm ero. Niels continuou: – Não daria para a gente conversar num lugar m ais tranquilo? É apenas um m inuto.

Som m ersted olhou em torno, pensando durante quinze segundos se ouviria Niels durante o m inuto solicitado.

– Tudo bem . Pode falar.

– Certo. Hannah?

Ela pigarreou e durante cinco segundos ficou olhando nos olhos de Som m ersted.

– Prim eiro nós constatam os que a distância entre um assassinato e outro era de aproxim adam ente três m il quilôm etros. Mas a coisa é bem m aior e m ais com plicada que isso. Estou falando do sistem a. Vej a: prim eiro os núm eros não tinham lógica. Mas então eu retirei a água, os oceanos, e j untei as m assas de terra. O senhor precisa im aginar a superfície do globo com o sendo com posta apenas de terra...

– Reunida no polo Sul – interpôs Niels.

– O polo Sul? – indagou Som m m ersted.

– Exatam ente. Com o os continentes se dispunham um bilhão de anos atrás. O supercontinente de Rodínia. É um pouco difícil explicar tudo em apenas trinta segundos, m as eu vou tentar: se puserm os os locais dos trinta e quatro crim es nos paralelos doze, vinte e quatro, trinta e seis e quarenta e oito, então – Hannah olhou para Niels antes de prosseguir –, eles form arão pequenos círculos e... – Ela parou de falar.

Niels continuou:

– Resum indo, sobraram dois locais: Copenhague e Veneza.

Som m ersted não disse nada. Os segundos passavam .

– Veneza? – Som m ersted olhou para Hannah e para Niels, depois disse:

– Veneza? Eu fui para Veneza na m inha lua de m el.

Seu sarcasm o não surtiu efeito em Hannah.

– E o que é que isso tem a ver com o caso? – indagou ela.

Niels assum iu o relato novam ente. Lim pou a garganta e falou m ais alto para ser ouvido sobre um a m ensagem em inglês que estava sendo irradiada pelos alto-falantes em todo o centro de conferências.

– Esta noite – disse ele –, ou m elhor, esta tarde, quando o sol se puser, logo antes das quatro...

– Às três e trinta e sete da tarde – interrom peu Hannah.

Niels prosseguiu:

– Às três e trinta e sete um assassinato será com etido aqui ou em Veneza. – As pessoas com eçaram a olhar para eles. Ou m elhor, as pessoas que falavam dinam arquês. Repórteres, com a credencial de im prensa dependurada no pescoço por um cordão que fazia publicidade da Nokia.

– Em Veneza o sol irá se pôr dentro de m enos de quatro horas. Aqui ele se porá daqui a três horas. Não tem os m uito tem po.