O Último Homem Bom
Capítulo 32
Ospedale Fatebenefratelli – Veneza
– Oitenta centavos.
A m ãe de Tom m aso não havia dorm ido bem nas últim as duas horas. Toda vez que a irm ã Magdalena olhava para ela notava seus resm ungos durante o sono. Mas agora a freira ouviu pela prim eira vez o que a m ãe de Tom m aso estava realm ente dizendo.
– Oitenta centavos.
– Por que a senhora diz isso, signora Di Barbara?
– Ele não deve pagar os oitenta centavos.
– Quem não deve pagar?
– O m eu filho.
A m ãe de Tom m aso tentou tirar o braço de debaixo das cobertas. Magdalena aj udou-a, e a velha agarrou a m ão dela. Ainda havia no seu corpo um a força terrena.
– Você precisa falar para ele.
– Tudo bem . O que é que eu devo falar?
– Diga a ele que ele não deve pagar os oitenta centavos.
– Por que não?
– Porque ele vai m orrer.
– Onde é que ele vai m orrer?
A velha balançou a cabeça.
– Os oitenta centavos são para quê?
A m ãe de Tom m aso estava prestes a chorar quando respondeu:
– Não consigo ver.
Irm ã Magdalena balançou a cabeça. Era isso que acontecia frequentem ente. As pessoas que estavam m orrendo viam por um a brecha o futuro e a vida futura – m as nunca o todo; apenas fragm entos. A signora Di Barbara voltou a dorm ir. Talvez nos seus sonhos ela visse um quadro m ais preciso do que seu filho não devia pagar. Muitas coisas custavam oitenta centavos. Macarrão. Leite. Um café expresso. Magdalena voltou à sua sala e ligou para Tom m aso. Ele não respondeu.