O Último Homem Bom
Capítulo 15
Polizia di Stato – Veneza
Tom m aso anotou o núm ero do telefone do funcionário da polícia dinam arquesa. Ele se sentia quase eufórico, apesar da sua nova condição: oficialm ente em licença rem unerada. Aquela fora a prim eira vez, em todos aqueles m eses que ele tinha passado investigando o caso, que lhe haviam respondido. Ele fechou a porta da sala. O com issário tinha lhe dado o resto do dia para redigir seu relatório sobre a viúva do insuflador de vidro. Não que houvesse algum problem a no caso. Era um a sim ples questão de confissão de culpa. A m ulher não tinha sido capaz de aguentar a pressão por m ais tem po.
Sua sala tinha um a vista do canal e da estação ferroviária. O m obiliário se com punha de um a escrivaninha, um a cadeira e um sofazinho estofado de im itação de couro verde. Havia tam bém um guarda-roupa, m as Tom m aso não o usava para roupas. Ele o abriu. O com issário não o havia encontrado. Tinha quase certeza disso. Do contrário o chefe teria m encionado o fato j unto com a suspensão. Todo o interior do guarda-roupa estava coberto de recortes sobre o caso. Fotos das vítim as. Mapas dos locais. Citações da Bíblia. As reflexões e teorias de Tom m aso. Ele ouviu passos e rapidam ente fechou a porta do guarda-roupa. Sabia que estavam de olho nele.
Sua secretária, Marina, acabara de entrar na área de recepção e tinha o ar culpado. Claro – eles a haviam envolvido tam bém . Ela bateu na porta de vidro.
– Entre – disse Tom m aso.
Marina pôs a cabeça no interior da sala, m as fez um esforço para ficar com o resto do corpo na área da recepção.
– Ligaram do hospital. Sua m ãe cham ou você durante toda a noite.
– Entre, Marina.
Ela obedeceu, fechando a porta atrás de si.
– Você contou para eles em que eu ando trabalhando, não foi m esm o?
– O que você esperava que eu fizesse? O com issário m e ligou ontem à noite e m e pediu para vir aqui. Eram m ais de oito horas. – Seus olhos estavam m arej ados.
– Calm a. Eu não estou culpando você de nada.
– Você m entiu para m im .
– Menti?
– Eu achei que estava trabalhando em caráter oficial quando traduzi todos aqueles docum entos para você. – Ela apontou para o guarda-roupa. – Você tem ideia de quantas horas eu passei fazendo aquelas traduções? Do italiano para o inglês e vice-versa?
– Você fez um excelente trabalho. Mas não falou nada sobre isso... – Ele apontou para o guarda-roupa.
– Eles não m e perguntaram .
– Ótim o, Marina.
Marina se em pertigou e fez um a óbvia tentativa de avaliar o estado m ental de Tom m aso. Ele sorriu. Precisava dela para poder tom ar posse do pacote da China. 16
– Pare de m e olhar desse j eito – disse Tom m aso.
– Eles estão dizendo que é por causa da sua m ãe.
– Pergunte a si m esm a em quem você deve acreditar. Em m im ou no com issário?
Ela pensou na questão. Marina era um a m ulher sensível. Ele a tinha pessoalm ente escolhido para ser sua secretária. Mãe de três filhos, m uito gorda, com um coração de ouro, e, até m ais im portante, falava inglês. O idiom a era o açafrão linguístico de Veneza – m uito poucas pessoas eram fluentes em inglês, e quem tinha essa qualificação recebia um salário alto. O rím el de Marina estava borrando. Ele lhe entregou um lenço de papel e desistiu de esperar a resposta.
– Você pode m e arrum ar um caixote de papelão? Vou levar a caixa de docum entos para a m inha casa. E depois, se você não se im portar de m e fazer um últim o favor.
Ela fez com a cabeça um gesto afirm ativo e disse:
– Tudo bem .
– Isto é im portante, Marina. Mais im portante que você ou eu. Quando o com issário lhe der o pacote que veio da China e lhe pedir para m andá-lo de volta, não m ande.
Ela estava m ais um a vez lhe dirigindo um olhar obediente. Era isso que ele queria.
– Em vez disso você deve m andá-lo para a pessoa que tem esse núm ero de celular. – Ele lhe entregou o guardanapo onde escrevera o núm ero.
– Quem é essa pessoa?
– Um a autoridade policial de Copenhague. Um hom em que está trabalhando no caso. Talvez o único, agora que eu fui dem itido.
– Com o é que eu vou descobrir quem ele é?
– Ligue para esse núm ero e pergunte a ele. Ou lhe m ande um a m ensagem de texto e peça seu nom e e endereço. Depois lhe m ande o pacote. Em m ala diplom ática. Assim será m ais rápido.