O Último Homem Bom
Capítulo 19
15h39 – 2 minutos até o crepúsculo
Daquela altura eles podiam ver Copenhague inteira.
O sol, parcialm ente obscurecido pelas nuvens e pela neve, pairava no horizonte. Niels olhou para trás enquanto Hannah continuava no centro do heliporto. A neve que caía espetava a pele deles com o agulhas m inúsculas.
– Essa é um a boa ideia – sussurrou ela, m as suas palavras foram instantaneam ente arrebatadas pelo vento. – Pegue! – Hannah precisou gritar para se fazer ouvida. – Pegue a arm a.
– Não, Hannah.
– Olhe para m im . – Ela voltou, agarrou Niels e tentou forçá-lo a olhá-la nos olhos.
– Eu não posso fazer isso.
– Você precisa, Niels.
– Me deixe em paz. – Ele tentou em purrá-la, m as estava fraco dem ais e ela se recusou a largá-lo.
– Tudo acaba aqui, Niels. Você entende? – Hannah apertou a arm a na m ão dele. Em bora pudesse ter atirado longe o revólver, fazendo-o voar num arco suave dentro da penum bra, ele não fez isso. – Acaba aqui – repetiu Hannah.
Niels engatilhou o revólver e olhou na direção da porta. Um pequeno m ovim ento que no entanto exigiu toda a sua força. Ele ergueu a arm a e apontou-a para o único acesso ao teto. A porta do elevador.
– Ninguém virá aqui em cim a, Niels.
– Se afaste de m im .
Ela não se m exeu.
Ele gritou:
– Eu disse: “Se afaste de m im ”.
Ela recuou pouco m ais de um m etro.
– Mais longe. – Ele cam baleou m as tinha a arm a bem firm e na m ão. Com o se aquele pequeno obj eto, criado com o único obj etivo de tirar vidas, fosse agora, paradoxalm ente, a sua única salvação.
– Niels!
Hannah estava gritando em vão. Ele não a ouvia.
– Niels! – Ela chegou bem perto dele. Agarrou-o novam ente e não deixou que ele a afastasse.
– Me largue.
– Preste atenção, Niels. Ninguém virá aqui agora. Não há assassino. Quem vai resolver isso som os nós.
Ele não respondeu.
– Você precisa parar de ser bom . Precisa m e sacrificar.
– Pare com isso, Hannah. – Ele tentou novam ente afastá-la.
– É a única opção. Você não percebe isso? Você precisa agir.
Ele não disse nada. Escorria sangue do seu nariz e da boca. Seus j oelhos estavam bam bos. Hannah achou que ele ia cair. Tem eu j á ser tarde dem ais. Um rápido olhar para o oeste lhe m ostrou o sol ainda hesitando no horizonte.
– Nenhum assassino vai aparecer aqui, Niels. Você não percebe isso? Nenhum serial killer idiota. Quem está envolvido som os nós, só nós.
– Pare com isso agora.
– Atire em m im , Niels.
– Não.
– Você precisa agir. Precisa m ostrar que está ouvindo. Trata-se apenas disso. Você precisa sacrificar o que você am a. – Hannah pegou o cano frio do revólver e apontou-o para o seu próprio coração. – Para m im não faz diferença, Niels. É isso que eu estou tentando lhe dizer. Eu estava m orta quando você m e conheceu. Eu m orri quando Johannes m orreu.
– Hannah...
Ela se debruçou sobre ele; seus lábios tocaram a orelha dele enquanto ela sussurrou:
– Nós tem os de m ostrar que você está ouvindo. Que nós sabem os que há algo m ais. – Ela pôs o dedo dele no gatilho. – Você precisa disparar a arm a, Niels. Faça isso. Eu quero voltar. Vi o que nos espera. É a única coisa que eu quero. Voltar. Para Johannes.
– Não.
– Ninguém irá desconfiar de você. Todo m undo vai achar que foi suicídio. Eu sou um a ruína em ocional. O seu chefe tinha razão. – Um sorriso inesperado surgiu nos lábios dela. – Eu não tenho nada a perder, Niels. Nada.
– Não, eu não posso fazer isso.
De repente todos os sons desapareceram . Niels via os lábios dela se m exerem , m as não ouviu nada. O barulho do vento, da tem pestade e da cidade lá em baixo tinha cessado. Perm anecia apenas um silêncio que ele ignorava ser possível. Um silêncio tão com ovente que o fez fechar os olhos para apreciá-lo.
– Está tão silencioso – m urm urou ele. – Tão silencioso.
Um calor percorreu o seu corpo. Um calor m aravilhoso que fez a dor nas costas desaparecer e levou a ele a paz – um alívio, finalm ente. Talvez Hannah tivesse razão. Talvez aquilo fosse um prenúncio do que estava à espera dele. Calor, calm a, paz. Parecia que a tem pestade havia cessado com pletam ente. Não havia m ais neve e as nuvens se separaram para lhe dar um vislum bre das estrelas no céu, ao alcance da m ão. Novam ente ele olhou para Hannah, que estava gritando, im plorando, em bora ele não ouvisse nada. Ela apertou contra o coração a boca da arm a e disse, articulando bem as palavras:
– Faça isso agora, Niels – m as ele não a ouviu. Niels fechou os olhos. Sabia que ela estava com a razão. Mas ele não queria ouvi-la. Não podia.
Contudo ele apertou o gatilho.
O pino do disparo sacudiu vigorosam ente a sua m ão.
Hannah deu um arranco para trás. Pareceu cam balear. Niels olhou para ela, viu-a se afastar um passo. Não havia sangue.
Naquele instante o som voltou aos ouvidos dele, ferindo seus tím panos com um estrondo.
– Mas...
Hannah virou a cabeça. Olhou para o oeste. O sol tinha se posto. O crepúsculo havia descido.
– Você conseguiu, Niels.
Niels sentiu as pernas trem erem . Procurou o ferim ento da bala no peito de Hannah. Não entendia por que não saía sangue. Pequenos espasm os percorreram seu corpo e ele desm oronou no chão.
Hannah estendeu a m ão para ele e lentam ente a abriu. Ali, na palm a da sua m ão, estava o pente do revólver.
Ela se sentou e o envolveu em seus braços. Niels fechou os olhos.
Ele ouviu passos e vozes. Leon o estava cham ando.
– Bentzon? Você está aí em cim a?
Niels abriu os olhos.
– Bentzon? – Leon gritou novam ente.
Mas Niels via apenas Hannah – e os suaves flocos de neve dançando no ar entre eles.