O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 75 de 137

Páginas do PDF

O Último Homem Bom

Capítulo 64

Ospedale Fatebenefratelli, na sala de leitura – Veneza

Tom m aso se lem brava dos locais onde todos os assassinatos tinham sido com etidos. Até os prim eiros: Tanzânia, Peru, Brasil. Ele tinha usado um a caneta para m arcá-los no m apa arrancado do atlas infantil. Com um estilete ele retirara toda a água. Depois em purrara os continentes para form ar um único bloco. Agora ele podia ver, m esm o a olho nu, com o tudo se aj ustava.

Tom m aso tinha fechado a porta da sala de leitura, m as continuava ouvindo vozes no corredor. Olhou para o trabalho m anual infantil que estava na m esa. Um m undo recortado em pedaços e depois novam ente reunido. Lá fora um a sirene tinha com eçado o seu lam ento. Tom m aso levou um tem po para se dar conta do que significava aquele som . Só entendeu quando chegou até a j anelinha e viu os venezianos correndo para casa. A cidade seria inundada dentro de alguns m inutos. A água dos canais subiria sem nenhum ruído. Ele olhou novam ente para o m apa reform ulado. Era com o se agora a água da laguna estivesse querendo se vingar porque Tom m aso tinha retirado do m apa os m ares que ele continha.

Absurdo.

Era época de inundação na laguna. Várias vezes por sem ana os venezianos precisavam pôr galochas, obstruir com barricadas suas portas e vedar as fendas. Ele tam bém devia ir para casa. Ou talvez pudesse ligar para o vizinho do térreo e pedir-lhe para pôr as tábuas. Pensar em usar o celular fez Tom m aso se lem brar da m ensagem que tinha recebido da Dinam arca. Ele tentou novam ente ligar para a dinam arquesa que havia deixado a m ensagem no correio de voz. Ninguém respondeu.

A m ãe de Tom m aso estava deitada na cam a exatam ente com o ele a havia deixado. Sozinha. Tom m aso estava com dor de cabeça e suas costas tam bém doíam . Passou pelo quarto um a enferm eira.

– Perdão – disse ele. – Seria possível a senhora m e trazer, por favor, alguns analgésicos?

A enferm eira olhou para ele e sorriu.

– Vou cham ar o m édico.

Ela se foi. A casa de repouso estava deserta, com apenas uns poucos funcionários – e os pacientes, claro. O resto saíra correndo para casa, com o faziam todos quando a água com eçava a subir. Alguns rum ando para o continente, outros indo proteger sua casa.

– Não estou encontrando o m édico. – Da porta, a enferm eira pôs a cabeça dentro do quarto novam ente. – Mas falo com o senhor assim que conseguir.

– Obrigado.

Ela o olhou com um a expressão pesarosa.

– Eu falei com a irm ã Magdalena agora há pouco.

– A irm ã passou m uito tem po com a m inha m ãe e eu sou m uito grato a ela por isso.

– A irm ã Magdalena está vindo para cá. – A enferm eira sorriu. – Apesar da inundação. Disse que é im portante. Pediu que o senhor não vá em bora antes de ela conversar com o senhor.

Tom m aso teve dificuldade em im aginar o que poderia ser tão im portante.

– Outros m em bros da fam ília estão vindo para cá? – perguntou a enferm eira.

– Acho que não.

– Talvez o senhor queira ir até a igrej a acender um a vela para a sua m ãe.

– Talvez eu faça isso.

– Se for, eu aviso à irm ã Magdalena que o senhor não está longe.

Tom m aso sorriu, e então sua criação católica o fez se levantar. Claro que ele iria acender a vela que a m ãe usaria no seu cam inho pelo purgatório.

 

Ele parou na entrada principal. O leão veneziano estava esculpido na pedra ao lado dos pilares de m árm ore que sustentavam o peso do teto do prédio antigo. O leão parecia bravo. A praça diante da casa de repouso j á estava com m ais de m eio centím etro de água. A igrej a não ficava longe. Os pés de Tom m aso ficariam m olhados, m as não havia nada a ser feito quanto a isso. Ele precisava acender a vela, em bora a irm ã Magdalena tivesse dito que ele não devia deixar o hospital antes de conversar com ela. Mais que qualquer outra pessoa, ela saberia da im portância de acender um a vela para um m orto. Os fogos do purgatório não iriam esperar por causa de um a pequena inundação.

– Signor Di Barbara.

Tom m aso viu o velho padre.

– O senhor está indo em bora?

– Vou apenas acender um a vela para a m inha m ãe. E o senhor?

– Não vou dem orar. Nosso cardeal está chegando com o m inistro da Justiça – respondeu o padre com o rosto ilum inando-se a esse pensam ento.

– Na estação ferroviária?

– Isso. Volto logo.

O padre pôs o capuz na cabeça e saiu – bem preparado, com grandes galochas cuj a ponta aparecia sob a batina com prida. Por um m om ento Tom m aso se sentiu livre. Totalm ente livre. Livre de ficar de plantão, usando uniform e e participando de um a daquelas interm ináveis cerim ônias de boas-vindas para o chefe de polícia; livre de visitar esse lugar, essa casa de repouso. Ele estava livre. Com o dinheiro da casa... se ele a vendesse... Não. Era cedo dem ais para pensar nisso. Ele não tinha nem m esm o acendido um a vela para a sua m ãe. O sentim ento de liberdade foi substituído pela culpa, e ele saiu correndo em direção à igrej a.