O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 109 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 6

Jutlândia

Mães e pais de m eia-idade esperavam na estação para receber seus filhos adultos que voltavam para com em orar o Natal. As pessoas estavam olhando para eles? Ao pisar na plataform a Niels sentiu sua paranoia aum entar. Eles poderiam ter sido localizados um as cem vezes entre Odense e Esbj erg.

Niels viu o hom em antes de ele vê-lo. A expressão fria, um pedaço de papel na m ão, os olhos vagando pelos passageiros que desem barcavam . Niels puxou Hannah para o banheiro m asculino da estação.

– O que está acontecendo? – indagou ela.

Ele não respondeu. Estava tentando refletir. Com o eles poderiam tê-lo encontrado tão rapidam ente? Com a m esm a celeridade com que eles foram descobertos no porto. Era rápido dem ais. Alguém deve ter ligado para a polícia. Hannah? Niels olhou para ela, recapitulando. No porto ele tinha ido para o quiosque, portanto ela poderia ter usado o celular. E no trem ela havia saído a certa altura para ir ao banheiro.

– Por que você está m e olhando assim ? – perguntou ela.

Niels passou a olhar o chão.

– Tinha um hom em lá. Um policial à paisana. Ele está à nossa procura.

– Com o é que você sabe disso?

– É fácil de ver.

Niels pensou na situação. Hannah era a única que poderia tê-lo entregado. Ou então era... Ele tirou do bolso o celular. Estava ligado.

– Droga!

– Qual é o problem a?

– Nenhum .

– Eles estão seguindo você pelo celular?

– Pois é.

Niels esperou alguns m inutos antes de olhar pela j anela do banheiro. Os passageiros ainda estavam em barcando e desem barcando. Havia pilhas de bagagens e as pessoas abriam cam inho pela m ultidão arrastando pesadas m alas. O m undo deve pesar bem m ais na época do Natal, pensou ele. E então voltou a ver o hom em . Na extrem idade da plataform a.

– Ele ainda está lá?

Niels fechou a porta. O policial se denunciou não tanto pelo m odo com o encarava as pessoas, m as pelo fato de olhar para o papel que tinha na m ão toda vez que passava um hom em de m eia-idade.

Niels puxou Hannah para um dos com partim entos sanitários. Alguém entrou no com partim ento vizinho para urinar. Hannah sorriu e segurou a respiração. As paredes estavam cobertas de convites desesperados. Rapaz procura rapaz. Rapaz procura parceiro masculino adulto.

– Acho que aqui não é m uito fácil encontrar alguém que não se enquadre nas norm as sexuais – disse Niels quando eles voltaram a ficar sozinhos.

– Não. Mas nunca é fácil. – Ela parecia falar por experiência própria.

– Agora saia e dê um a olhada na ponta da plataform a. Um hom em de m eia-idade, m ais ou m enos um m etro e oitenta, com um paletó de cam urça clara. Está procurando a gente. Se ele ainda estiver lá, tussa.

– E depois?

– Vire-se e entre calm am ente no banheiro ao lado. Com o se você sim plesm ente tivesse entrado no banheiro errado.

Ela saiu. Um m om ento depois Niels ouviu um a tosse surpreendentem ente natural e depois a porta do banheiro fem inino sendo fechada com estrépito. Ele esperou durante longos cinco m inutos. Então abriu a porta. O hom em estava com eçando a descer a escada. Tinha desistido.

 

Em frente da estação ferroviária, antes de entrarem num ônibus, Niels praguej ou. Já fazia anos que ele não participava de um a perseguição a um crim inoso. Ele era negociador – não estava acostum ado a pensar em coisas com o rastreadores, satélites, sinais de GPS e torres de celulares. Prim eiro ele j ogou fora o seu cartão SIM, depois pisoteou o celular. Isso lhe deu um a sensação de satisfação.

– Posso fazer isso com o seu celular? – perguntou ele.

Hannah lhe entregou o celular sem protestar. Um casal de velhos observou do outro lado da rua enquanto Niels atirava no chão o celular de Hannah e o destruía sob seus pés. Eles balançaram a cabeça.

 

O ônibus com eçou a trafegar pela rodovia, m as depois saiu dela e continuou por pequenas estradas secundárias.

– Eu acho que sei onde nós estam os – disse Hannah olhando para a paisagem . – Não venho aqui há trinta anos. E quando vim era verão.

– Tem hotel por aqui?

– Deve ter. Você não acha?

Eles entraram na cidadezinha. Com o a m aioria das cidadezinhas dinam arquesas, aquela pareceu bem aborrecida: um superm ercado e prédios térreos de tij olinho verm elho. Mas aquela, particularm ente, no final se tornou encantadora graças à área onde antigam ente ficava a aldeia de pescadores. O ônibus saiu da estrada e parou.

Hannah se levantou.

– É isso.

Lá fora eles viram dois m oradores do lugar, dois hom ens j á velhos que estavam de pé ao lado da bicicleta.

– Olá. – Niels se aproxim ou deles. – Os senhores sabem se tem um hotel aberto?

Olhares desconfiados e o tipo de tratam ento m udo que se vê apenas nas cidadezinhas. Niels j á se dispunha a perguntar novam ente quando o hom em que ainda tinha dentes cuspiu seu rapé e respondeu:

– Está fechado para turistas. Volte no verão.

– Fechado ou fechado só para turistas?

O hom em não respondeu. Hannah interveio.

– O senhor tem certeza de que na cidade não existe nenhum lugar para a gente passar a noite?

O hom em sem dentes disse:

– Vocês têm de ir até praia e virar para o norte. Mas cuidado com os trens de carga. A cancela do cruzam ento não está funcionando direito.

– Obrigada.

Eles seguiram as pegadas na areia, que ficavam m aiores à m edida que a trilha se aproxim ava do m ar. O som tam bém era um guia. O estrondo das ondas na praia. Niels nunca entendera com o era possível alguém querer m orar perto da costa, onde nunca havia silêncio.

– Cuidado! – Niels agarrou o braço de Hannah e puxou-a para trás. O trem passou disparado por eles e só então o condutor apitou, m ais com o um cum prim ento que para avisar.

– Idiota – disse Niels.

– Eles nos avisaram que a cancela não estava funcionando.

– Claro, m as e as pessoas que não foram advertidas?

Os trilhos estavam quase cobertos de areia e neve e o rugido do m ar encobria o som do m otor a diesel. A cancela fazia o possível para descer, m as não conseguia se m over. Por algum tem po nenhum deles falou. Com o todos os policiais, Niels sentia um a aversão visceral pelas condições inseguras de tráfego. Algum dia um dos seus colegas estaria ali consolando os sobreviventes, coordenando am bulâncias e carros de bom beiros e tentando descobrir quem seria o responsável pelo acidente.

A costa do m ar do Norte é am pla, com riachinhos m inúsculos e lagoas abrindo cam inho na areia com pactada. As pessoas precisavam saltar sobre eles enquanto o vento tentava derrubá-las. Hannah riu.

– Do que você está rindo?

Ela não conseguia parar.

– O que é que há? Por que você está rindo?

Ela pôs a m ão sobre a boca enquanto ria. Eles continuaram cam inhando e ela ria sozinha.

Talvez fosse apenas porque ele parecia m uito tolo.