O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 50 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 41

Centro da cidade – Copenhague

Os terroristas são bem preparados, pensou Niels. Esse ainda era um dos aspectos em que os serviços de inteligência falhavam sem pre. Eles subestim avam os inim igos. Esqueciam -se de que os terroristas tinham passado anos preparando-se para realizar suas ações. Por que eles não teriam considerado todas as várias possibilidades? Por que esse hom em que fugia de Niels não teria pensado na possibilidade de que poderia ser descoberto? Claro que ele havia pensado. Claro que ele tinha cogitado um lugar para se esconder.

Niels continuava correndo.

A Al-Qaeda se estabeleceu bem longe, em cavernas, na área fronteiriça entre o Paquistão e o Afeganistão, estudando o Google Earth. Eles tinham recrutado especialistas em tecnologia da inform ação que superavam facilm ente os especialistas do Ocidente. Esse era um fato bem conhecido. Toda vez que um a ação terrorista de larga escala tinha sido em preendida (em Madri, Londres, Mum bai, Moscou, Nova York) os serviços de inteligência haviam se perguntado: com o um a coisa dessas pôde acontecer? Tinha acontecido porque eles estavam enfrentando pessoas inteligentes e bem preparadas. Os acontecim entos de 11 de setem bro de 2001 foram o resultado de anos de m eticuloso preparo. Logisticam ente foi um golpe de gênio. A m esm a coisa era válida para a bom ba no USS Cole, no ano 2000, e em 1997 o m assacre do Tem plo de Hatshepsut, em Luxor, que pegou totalm ente desprevenidas as autoridades egípcias. As ações haviam sido planej adas até o m ais insignificante detalhe.

Niels conhecia bem esse últim o caso. Um am igo de Kathrine visitara o tem plo dois dias antes do ataque. Tinha sido um horrível banho de sangue. Morreram sessenta e dois turistas. A m aioria foi prim eiro alvej ada nas pernas para não poder fugir, e depois, com facas com pridas, eles abateram ritualm ente um a um . Os terroristas não se apressaram . Os turistas europeus ficaram deitados ali, indefesos, tanto dentro quanto fora do tem plo, esperando a sua vez. Parece que a m atança dem orou pelo m enos quarenta e cinco m inutos. Entre os m ortos havia um garoto de cinco anos. Um a m ulher suíça viu o pai ser degolado. Egito sem turistas, dizia um bilhete encontrado no estôm ago de um senhor j aponês. Os terroristas haviam retirado seus intestinos.

– Olhe onde anda! – gritou irritada um a m ulher quando Niels lhe deu um esbarrão que resultou na queda de um pacote. – Que diabo o senhor acha que está fazendo?

As pessoas não têm ideia, pensou Niels. Elas seguiam no seu m undo de conto de fadas sob os ram os de pinheiro e as guirlandas, com prando presentes de Natal. Em nenhum outro lugar era tão fácil esquecer tudo sobre os perigos do m undo quanto em Copenhague na época do Natal.

A Torre Redonda. Niels não quis acreditar quando viu Abdul Hadi virar à direita e entrar na torre. O hom em estava tentando se esconder na m ultidão? Niels passou correndo pela cabine de venda de ingressos, ignorando os gritos que lhe dirigia o rapaz por trás do vidro. Continuou subindo. Quase perdeu o equilíbrio no escorregadio aclive de pedra. Prosseguiu pela ram pa em espiral. As pessoas reclam avam dos seus em purrões. Ele estava ofegante. Seu peito parecia a ponto de explodir e ele sentia o ácido lático anunciando sua presença nos m úsculos da panturrilha. Subindo. O hom em diante dele nunca voltava a cabeça à procura do seu perseguidor. Sim plesm ente seguia em frente. Não parecia afetado pela subida. Niels se recusava a desistir. Eles logo estariam cara a cara. E os outros policiais chegariam . Deviam estar seguindo Niels pelo GPS. Todos os telefones celulares da polícia podiam ser rastreados com a precisão de até um m etro quadrado. E então tudo aquilo estaria acabado.

Gritos e gem idos. Niels chegou ao belvedere no alto da torre. Estava em punhando sua arm a. As pessoas em torno dele gritavam em pânico. Algum as se atiraram no chão.

– Polícia de Copenhague! – gritou Niels o m ais alto que pôde. – Saiam todos da área. Agora!

Mais pânico. Turistas e pais com crianças pequenas com eçaram a em purrar uns aos outros para sair do belvedere. Niels ouviu o barulho de alguém caindo na escada. Choro e gritos.

Niels afastou-se da porta, m as Hadi havia desaparecido. Ele tinha deixado de vigiar o hom em por apenas um m om ento, m as isso foi o suficiente. Hadi teria passado por ele? Teria conseguido se esconder na m ultidão e fugir descendo pela torre? Niels am aldiçoou sua falta de atenção. A m ultidão estava m inguando.

Agora Niels era a única pessoa ali. Ele olhou em torno. Estava de pé no alto do m undo, cercado por Copenhague e castigado pelo inverno. Cam inhou pela plataform a. Não encontrou nenhum lugar onde Hadi poderia ter se escondido. Um a frase de texto dos seus tem pos de escola ficava lhe m artelando a m ente: “O m édico com sua faca dirige rabiscos para o coração do rei Cristiano IV”. Aparentem ente, um a leitura popular equivocada da confusão no alto da fachada da torre. Por que ele teria se lem brado daquilo? O m édico com um a faca. O assassino com a faca.

Niels o viu no últim o m inuto. Abdul Hadi se lançou para a frente, chutando com força o plexo solar de Niels. E m ais um a vez. Niels vom itou. Hadi passou para trás dele e o agarrou pelo pescoço. Apertou forte. Os olhos de Niels se encheram de lágrim as. Ele não conseguia respirar. De repente sentiu a m ão relaxando. Estava ofegante. Ia se endireitar quando foi arrem essado contra o chão.

Antes que pudesse saber o que estava acontecendo, ele sentiu em sua têm pora o cano de um revólver e ouviu o tinir tranquilizador de algem as.

– Esse não! – gritou a voz. – Esse é um dos nossos.

A arm a desapareceu.

– Para onde ele foi?

Inicialm ente Niels só pôde distinguir partes de frases, m as pouco a pouco entendeu. O pessoal do serviço de inteligência tinha chegado. Alguns policiais tam bém . Um deles aj udou Niels a se levantar e se desculpou. Outro gritou:

– O que é que ele está fazendo, droga?!

Niels olhou para cim a. Abdul Hadi tinha escalado a cerca que circundava a plataform a e estava em poleirado na velha balaustrada externa, pronto para saltar. 42

Niels olhou para ele. Os dois hom ens se olharam longam ente, algo que até então não haviam feito.

Então Hadi olhou para o abism o lá em baixo. Ele havia ido ali para m orrer. Não havia sinal de m edo nos seus olhos. Prim eiro ele disse algum as palavras na sua língua nativa. Niels achou que parecia um a reza. Depois ele olhou para Niels.

– Por que você não atirou?

Niels se aproxim ou da balaustrada.

– Eu não posso – respondeu ele. Abdul Hadi ficou m ais perto da borda.