O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 112 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 9

Niels abriu o arm ário de rem édios no banheiro. Alguém tinha deixado ali um inseticida em spray e um filtro solar, FPS 25. Ele espalhou um pouco de filtro na m ão e cheirou o spray. O cheiro de verão. Não sej a tolo, pensou ele. Provavelm ente o inseticida tinha sido produzido em algum a fábrica polonesa cinco invernos atrás. E, no entanto, lhe ocorreu um a enxurrada de lem branças. Sol e m osquitos, água, sorvete e flores de sabugueiro.

Ele se sentou na borda da banheira. Percebeu no peito um a sensação vigorosa. Queria viver. Não queria m orrer. Ainda restava m uita coisa que ele não havia feito.

Domingo, 20 de dezembro

Claro que ele podia fazer aquilo, pensou Niels ao abrir o chuveiro. Ele tinha um plano. As pílulas de m orfina estavam na sacola, e eram m uitas. Ele se instalaria num barco, tom aria o suficiente para derrubá-lo, se afastaria e perm aneceria longe por um longo tem po.

– Niels?

Hannah. Estava no quarto.

– Niels?

– Espere um m inuto. – Ele fechou o chuveiro, enrolou na cintura um a toalha e pôs a cabeça para fora da porta do banheiro.

– Você quer tom ar café da m anhã? Eles só servem até as nove.

Som ente então Niels notou que ela estava com a sua arm a na m ão.

– Hannah! Isso está carregado!

– Desculpe. Ela estava na cadeira e... pronto. – Hannah lhe entregou a pistola.

Ele retirou o pente e lhe devolveu a arm a.

– Tudo bem . Agora ela não pode ferir ninguém .

– Tem certeza?

– Tenho. No m om ento ela é segura. Mas se você fizer isto... – Ele entregou a Hannah o pente e lhe m ostrou com o colocá-lo na arm a. – Então ela pode disparar.

– Eu gosto m ais do outro m odo. Você j á atirou em alguém ?

Ele m eneou a cabeça e sorriu.

– Esqueceu que teoricam ente eu sou bom ?

– É por isso que você andou lendo aquilo ali? – Ela apontou para a Bíblia, na cam a desarrum ada.

– Talvez.

Ela sorriu.

– Vej o você lá em baixo.

Depois que ela saiu, Niels se vestiu e fez a cam a com todo o capricho. Então pôs a Bíblia de volta na gaveta. Foi ao banheiro e se olhou no espelho, levantando a cam isa. A m arca se estendia de um om bro ao outro e descia até quase m etade das costas. Linhas finas que sob a pele pressionavam para cim a. Ele se inclinou, aproxim ando-se do espelho. Daria para ver algum núm ero? Talvez a m arca desaparecesse se ele parasse de pensar nela.

 

Mais tarde eles foram passear ao longo da praia. O vento nunca dava trégua ali, m as finalm ente as nuvens de tem pestade se dissiparam .

– Eu m e lem bro de ter entrado num a casam ata alem ã em algum a costa – disse Hannah.

– Quando garota?

– Você acha que a gente pode encontrar um a?

Niels olhou para a extensão de praia que tinha diante de si. Nevoeiro m arinho. Movim ento de carros na areia. Ele se virou e olhou para Hannah. Observou com o o seu cabelo estava se agitando ao vento, batendo no rosto, bloqueando a sua visão.

– O que foi?

– Nada – disse ele. – Por quê?

– Você está m e olhando de um j eito esquisito. – Ela o cutucou. – Vam os, velhote. Aposto que eu chego prim eiro nas dunas.

Hannah com eçou a correr. Niels a seguiu. Com sapatos, cabelo e olhos enchendo-se de areia. Ele tropeçou ao subir pela duna e ouviu Hannah rir.

– Você está rindo de m im ?

– Você é m uito desaj eitado.

Na escalada das dunas, Niels lutou para chegar no alto em prim eiro lugar, m as eles chegaram j untos. Sem fôlego e praticam ente cobertos de areia, caíram sobre a urze e a relva congelada. Ali estavam protegidos do vento.

Por um m om ento eles ficaram quietos sem falar.

– Você falou que estava lendo a Bíblia – disse ela.

– Um pouco.

– O que você estava lendo?

– A história de Abraão. E Isaac.

– Deus diz a Abraão que leve seu único filho, Isaac, até a m ontanha para sacrificá-lo ali – disse ela resum indo a história.

– Certa vez eu ouvi um pastor falar sobre isso no rádio. Ele disse que essa história devia ser banida da Igrej a Luterana Dinam arquesa.

– Mas ela nos diz um a coisa im portante – disse Hannah. – Algo que nós esquecem os.

– E você vai m e contar o que é, certo?

Ela riu.

– É a professora que há em m im . Perdão. – Ela se sentou. – Acho que a história sobre Abraão nos diz que nós precisam os ouvir. Pelo m enos de vez em quando.

Niels não fez nenhum com entário.

– Mas você tem razão. É um a história aflitiva. Deus não tinha nenhum outro m odo de dizer a m esm a coisa?

– Você acredita? – indagou Niels.

– Em quê?

– Você sabe.

– Você não consegue nem falar a palavra.

– Em Deus.

Hannah se deitou de costas na areia, olhando para o céu.

– Eu acredito no que nós ainda não sabem os. E isso é m uito – bem m ais do que nós percebem os.

– Você está pensando nos quatro por cento de que j á falou? – perguntou Niels.

– Exatam ente. Quatro por cento. Nós sabem os o que significam quatro por cento do universo. Mas tente falar isso para um político quando você está pedindo dinheiro para pesquisa. É m uito m elhor gritar que você tem certeza absoluta de que os oceanos vão subir dois m etros e m eio durante o próxim o... – Ela parou de repente. Sentou-se e olhou solenem ente para Niels. – Polícrates. Você se lem bra da história de Polícrates?

– Acho que nunca ouvi falar dela.

– Era um rei grego. Tudo o que ele experim entava fazer dava incrivelm ente certo. Ele era um sucesso total: tinha m ulheres, saúde, vitórias m ilitares. Polícrates tinha um am igo – acho que era um governante egípcio – que lhe escreveu dizendo que ele precisava sacrificar algum a coisa. E precisava ser a coisa m ais preciosa que ele tinha. Do contrário os deuses ficariam invej osos. Polícrates pensou m uito nisso, por m uito tem po. Finalm ente ele rem ou até o m ar e atirou na água o seu anel m ais caro e de que ele m ais gostava. Alguns dias depois um pescador presenteou o rei com um peixe que ele havia pescado. Quando cortaram o peixe para com ê-lo, o que foi que eles encontraram ?

– O anel.

– Exatam ente. O anel. Polícrates escreveu im ediatam ente para o seu am igo no Egito, que respondeu dizendo estar pondo um ponto final na am izade deles. Não ousava ficar próxim o de Polícrates quando os deuses algum dia decidissem despej ar nele a sua fúria.

Hannah se aj oelhou na areia e o vento com eçou a brincar com o seu cabelo.

– É o m esm o tem a da história de Abraão e Isaac. O tem a do sacrifício de algo – com entou ela.

– O que, exatam ente, nós devem os sacrificar, Hannah?

Ela pensou nisso.

– Nossa tem erária autoconfiança. Essa é um a palavra real? – Ela sorriu. – Quer dizer, um a coisa é acreditar em nós m esm os. Outra totalm ente diferente é nos adorarm os com o se fôssem os pequenos deuses.

Um sorriso desaprovador. Com o se ela achasse que tinha dito algum a coisa tola. Hannah olhou para ele. Depois se inclinou sobre ele tão rapidam ente com o fizera antes e lhe deu um beij o.

 

Eles estavam m uito cientes daquele beij o quando pouco tem po depois cam inhavam pela praia deserta. Niels saboreava o vento frio contra o rosto, o ar fresco com gosto de sal. Mais tarde ele pretendia chegar até o porto e falar com um pescador que estivesse pensando em ir para o m ar antes do Natal. Isso não devia ser difícil, disse ele para si m esm o. Ainda seria preciso pescar m uito bacalhau antes da véspera do Ano-Novo. Ele ofereceria alguns m ilhares de coroas por um leito no seu barco e depois tom aria pílulas suficientes para desacordar.

– No que é que você está pensando? – perguntou Hannah.

– Em nada.

– Vam os tom ar um drinque – exclam ou ela. – Afinal de contas nós estam os de férias. Eu sem pre m e esqueço de com o é isso.

– Gim e tônica?

– E depois um cochilo à tarde. Ou vice-versa?

– Acho que não há m uitas fórm ulas para esse tipo de coisa.

– Não diga isso. – Ela sorriu. – Vam os para a cidade.

 

Niels parou perto de um a cabine telefônica antiquada. Do outro lado da rua havia um a loj a de conveniência.

– Vou só fazer um a ligação rápida.

– Você tem m oedas?

Ele assentiu com a cabeça. Hannah foi até a loj a enquanto ele se instalou na cabine telefônica, inseriu m oedas na fenda e com eçou a digitar o núm ero quilom étrico da África do Sul. Ele parou antes do últim o núm ero. Estava vendo Hannah dentro da loj a. Ela acenou para ele. Ele acenou de volta e se virou. A luz de inverno estava banhando o m ar com um branco cauteloso. Sob os pés dele a terra se m oveu ligeiram ente. Ou ele estaria im aginando coisas? O trem or continuou, subindo pelo seu corpo. Um pequeno choque elétrico ou um terrem oto m uito fraco. Ele balançou a cabeça, atribuindo aquilo à tensão nervosa. Digitou novam ente o núm ero. Para Kathrine. Ou pelo m enos era o que ele pensava. Mas quem atendeu foi Rosenberg. Niels ficou surpreso. Ele tinha decorado o núm ero do telefone do pastor?

– Quem fala? – A voz do pastor era m ais profunda do que a que ele guardava na sua lem brança.

Niels hesitou. Queria dizer algum a coisa, m as não encontrava as palavras.

– Tem alguém na linha?

Hannah acenou novam ente. Já estava no balcão, pronta para pagar os cigarros. O olho de Niels foi atraído por outra coisa. Mais adiante um carro estava se aproxim ando na rua. Niels olhou para a cancela no cruzam ento com a ferrovia: ela estava tentando descer, com o da outra vez; ou seria o vento que a fazia se m exer?

– Não sei com quem eu estou falando, m as acho que se você m e ligou é porque está disposto a ouvir – disse o pastor.

Niels viu o trem . O m otorista do carro o teria visto tam bém ?

De novo o pastor, com voz quase cantante:

– Talvez você tenha experim entado algo que o levou a duvidar. Algo que o tornou disposto a ouvir.

Silêncio. O pastor queria lhe dar um a chance de dizer algo, m as Niels não falou.

– Você não precisa dizer nada.

Duas garotinhas saíram da loj a. Rindo, cada um a com um a sacola de bom bons. Tinham o rosto rubro de frio e estavam com gorros tricotados. Cam inharam até suas bicicletas.

Rosenberg pigarreou e disse:

– Basta que você estej a disposto a ouvir. Basta você m ostrar que está prestando atenção.

Niels ouvia a respiração do pastor. Ele parecia um pouco ofegante.

– Você ainda está aí?

Niels desligou o telefone e saiu da cabine. Viu o carro – um m odelo antigo de Volvo – aproxim ando-se e notou que o m otorista não desacelerara. As m eninas estavam ao lado das bicicletas, em frente da loj a. Um a delas aj eitava o cachecol. Ele avançou alguns passos e acenou para o carro.

– Ei! – Niels estendeu lateralm ente o braço, fazendo um sinal para o m otorista. Mas o carro continuou se aproxim ando. – Pare! – O m ar e o vento gelado abafavam qualquer outro som . O m otorista não conseguia ouvi-lo, m as Niels gritou novam ente: – Pare!

Um a das m eninas se virou assustada com os gritos de Niels. Nesse instante ela escorregou na neve e a bicicleta se soltou da sua m ão, chocando-se contra a porta da loj a de conveniência. Niels olhou para Hannah. Ela não havia percebido nada. Ele olhou m ais um a vez: o trem , o Volvo, a cancela que não estava funcionando, as m enininhas, as bicicletas, Hannah dentro da loj a, a porta fechada. Niels com eçou a correr na direção do carro, acenando para que ele parasse.

– Pare! – Pareceu-lhe que o m otorista tinha finalm ente ouvido o seu grito. O carro desacelerou. Niels parou. Estava de pé a m eio cam inho entre a loj a e os trilhos do trem . Por um segundo teve a m esm a sensação de quando estava sentado no banco traseiro do carro da polícia, rum ando para Copenhague. Com o se algum a coisa o estivesse puxando.

Quando o m otorista viu o trem e freou j á era tarde. O freio travou, e o carro deslizou sobre os trilhos com um chiado forte. A neve agiu com o um lubrificante, fazendo o veículo acelerar ainda m ais. O trem atingiu a traseira do Volvo. O baque foi terrível, um som que Niels nunca ouvira. Ele olhou m ais um a vez para a loj a. Hannah estava abrindo a porta para sair. O Volvo ia atropelar as m eninas.

– Saiam daí! Corram ! – As m eninas fizeram exatam ente o contrário. Ficaram ali estáticas, olhando em basbacadas para Niels, que então correu na direção delas. Atrás de si, em algum ponto, ele ouvia o carro descontrolado.

– Corram ! Saiam daí!

Um a das m eninas percebeu o que ia acontecer. Ele não poderia alcançá-las a tem po. Gritou para as m eninas, agitando os braços.

– Saiam daí! Corram ! – Ele olhou sobre o om bro para ver onde o carro estava agora. Conseguiu ver a expressão horrorizada do m otorista antes de um acidente... Antes que o carro colidisse com Hannah, a loj a e ele próprio.