O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 105 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 2

Algum lugar em Sjæland

Kathrine dizia que havia dois tipos de pessoa. As que se sentiam tranquilizadas quando iam consultar um m édico e as que ficavam aterrorizadas. Niels pertencia à segunda categoria. Médicos em qualquer am biente m édico: centros m édicos, hospitais e clínicas. Ele fazia o possível para evitá-los. Sem pre tentava adiar qualquer tipo de contato enquanto isso não fosse absolutam ente necessário. Seis anos antes ele havia forçado dem ais a sua sorte. Um a inocente infecção respiratória, que poderia ter sido curada em poucos dias com um a dose de penicilina, quase lhe custara a vida. Com o ele havia se recusado a tom ar qualquer providência, a infecção se espalhara pela pleura, tecidos pulm onares e alvéolos. Quando Niels concordou em ser internado num hospital, seu estado era de tam anha debilidade que os m édicos suspeitaram inicialm ente de um câncer pulm onar de tipo agressivo. Kathrine ficou furiosa com ele. Por que ele não havia procurado um m édico antes? “Eu pertenço à segunda categoria” foi a única frase que ele pôde dizer.

 

A princípio nada aconteceu quando Niels quebrou o vidro com o cotovelo. Depois o alarm e disparou. Um som feio. Um grito alto, agudo. Sua m ão estava sangrando e ele hesitou. Depois com eçou a rem exer nas gavetas e no arm ário, tentando ler os rótulos no escuro. Prednisolon, Albuterol, Aspirina, Terbasm in. Com o é que a m orfina era cham ada? Ele exam inou os rótulos: Sedativo. Sonífero. Laxativo. Anti-histamínico. A m aioria dos rem édios era j ogada no chão, m as qualquer coisa que pudesse ter um efeito tranquilizante ia parar nos seus bolsos. Quanto tem po havia se passado? Poderia levar dez m inutos para a polícia chegar no local. Pelo m enos. Esse tipo de arrom bam ento não tinha alta prioridade. Ele ouvia m entalm ente os policiais na delegacia recebendo o com unicado: “Esses m erdas desses viciados!” Eles tom ariam m ais um café. Pois de que adiantaria ir lá? Que policial gostaria de sair no escuro, no m eio de um a nevasca, para lidar com um drogado desesperado, provavelm ente infectado com o HIV? Sem pre haveria m ais pobres coitados dispostos a engolir um a porção de pílulas – qualquer que fosse o tipo delas – na esperança de satisfazer a sua ânsia. Cortisona, baclofeno, brom hexina. Niels atirou alguns no chão e outros ele pôs nos bolsos, antes de encontrar o m aterial realm ente bom : duas m arcas diferentes de m orfina.

– Que diabo você está fazendo aqui?

As luzes foram acesas. Fortes e im placáveis, cegando Niels.

O hom em era m ais j ovem que Niels. Alto, de om bros largos e furioso.

Niels não encontrou nada para dizer. Isso acontecia frequentem ente quando alguém era preso. Silêncio. Com o se a pessoa presa estivesse em estado de choque. Mas nem sem pre era esse o caso. Às vezes a pessoa sim plesm ente não tinha o que dizer.

– Não se m exa. Vou cham ar a polícia.

Niels olhou em torno. Não havia outra saída. Para fugir seria preciso passar pelo hom em . Agora. Ele deu um passo à frente.

– Fique onde você está!

Niels estava bem diante dele. O hom em estendeu as m ãos para agarrá-lo. Instintivam ente, Niels as afastou com um golpe. O hom em tentou esm urrá-lo, m as acabou aplicando-lhe apenas um golpe de relance. Niels não queria atingi-lo. Queria apenas passar. Tentou se esprem er pela porta. O hom em o agarrou e durante alguns terríveis segundos eles cam balearam com o dois lutadores am adores. O hom em era m ais forte que Niels m as não estava desesperado. Com um rugido, Niels derrubou seu opositor. Então o hom em o arrastou até um as prateleiras livres. Por um instante – ou seria im aginação de Niels? – o alarm e parou de gritar e cedeu lugar ao som do arm ário que desm oronava. Depois recom eçou.

Niels foi o prim eiro a se levantar. Em purrou o hom em , notando que ele tinha um caco de vidro espetado na bochecha, logo abaixo do olho. Seu rosto estava ensanguentado. Havia sangue no seu cabelo.

Então Niels saiu de lá.

Ele correu para o carro. Quase perdeu o equilíbrio na calçada escorregadia, coberta de neve. Hannah j á havia aberto a porta. Eles ouviram à distância a sirene da polícia.

– Niels! Que diabo foi isso, Niels?

Ele deu partida no carro.

– O que foi que aconteceu lá, Niels?

Eles se foram .

 

Eles estavam estacionados no acostam ento. A neve tinha am ainado, provavelm ente para reunir suas tropas e voltar com força renovada. Não se ouvia um único som no m undo todo.

Niels olhava através do para-brisa. Para a escuridão. O relógio do painel indicava pouco m ais de três da tarde.

– Eu nunca fiz um a coisa dessas antes – disse ele.

– Se continuar assim , talvez você acabe não com parecendo na sexta-feira.

– O que é que você quer dizer? – Niels se virou e olhou para Hannah.

– Talvez sej a isso que você deva fazer. Coisas ruins. Assim j á não será m ais considerado um a pessoa boa.

Niels não respondeu. Esvaziou os bolsos e leu os rótulos dos rem édios roubados.

– Acho que tenho tudo.

– O que é que você pretende fazer com isso?

– Seringas, álcool e m orfina suficiente para derrubar um elefante.

Pareceu-lhe que suas palavras não tinham chegado até ela. Hannah não estava ouvindo. Mas nem por isso ele ficou em silêncio.

– Ainda tem os um a sem ana. Pouco m enos que um a sem ana. Assim ... – Ele parou de repente.

– E daí, Niels?

– Daí que eu vou tom ar m orfina, m e esconder em algum barco e navegar para longe.

– Navegar para longe?

– Isso m esm o.

– Para onde?

Ele encolheu os om bros.

– Para onde você gostaria de navegar? – insistiu ela.

– Argentina, talvez.

– Argentina? – Ela estava sorrindo? – É um a viagem e tanto.

– Buenos Aires. Eu tenho um a am iga lá. Ela j á m e contou tudo sobre os lagos verdes da Patagônia. Verdes com o esm eraldas.

– Quem ela é?

Ele hesitou.

– Não sei. Eu nunca a conheci de fato. – Ele se voltou e olhou para Hannah. Ela era tão bonita. Feliz, assustada, triste. Aquela era um a lágrim a escorrendo em seu rosto? – Não, tem de ser com você, Hannah.

– Pensei que você não conseguia viaj ar.

– Talvez eu consiga. Se estiver dorm indo.

– Você não entende, Niels. Você realm ente não entende. – Sim , era um a lágrim a. Agora ele conseguia ver. Hannah apressou-se em enxugá-la. – As leis da natureza não se im portam com o fato de você estar dorm indo ou não.