O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 35 de 137

Páginas do PDF

O Último Homem Bom

Capítulo 28

Helsingør – Dinamarca

Os cam pos cobertos de gelo estavam desertos e abandonados. As árvores na linha do horizonte pareciam esqueletos. Um a explosão de cinza. Um a linda vista se a m elancolia tivesse fixado residência no seu coração. Do contrário era apenas som brio, e a única coisa a fazer era fugir – com o fizera Kathrine.

Niels tinha a estrada toda para si. Dirigia velozm ente. Ele deixou a estrada e entrou num cam inho de cascalho. Dessa vez estacionou bem na frente da casa e saiu do carro segurando a caixa sob o braço.

Antes que pudesse bater, ele a viu no desem barcadouro. Estava de pé no m esm o lugar da véspera. Ele desceu até lá.

Hannah não se voltou para olhá-lo.

– Achei que você estava saindo de férias.

– Adiei as férias. Você está pegando algum peixe?

– Neste lago não tem peixe. – Ela se virou e olhou para ele. – Em bora as pessoas digam que ele está cheio de peixes.

– Eles não m ordem a isca?

Ela balançou a cabeça.

– Pode ser que sintam o cheiro. – Ela levantou a m ão com o cigarro. – Eu só estou aqui pescando porque isso faz parte de um plano das coisas.

– Plano das coisas?

– Envolve fazer coisas que eu nunca fiz enquanto m eu filho estava vivo.

Não havia sinal de lágrim as na voz. Sua tranquilidade perm anecia inalterada, e isso am edrontou Niels. Quando as pessoas que parecem frias e reservadas cedem finalm ente aos seus nervos, esse desm oronam ento tem um a ferocidade terrível e frequentem ente elas tentam levar consigo as outras pessoas. Ele sabia disso por experiência própria.

 

– Eu sei que faz frio aqui. – Ela ligou o term ostato. – Foi um a das últim as coisas que Gustav disse antes de ir para o Canadá. “Nós precisam os consertar a caldeira”, ele m e falou. E depois foi em bora. – Não havia am argura na sua voz. Ela estava apenas relatando obj etivam ente um fato. – Então você m e trouxe a penca inteira de assassinatos?

– Trouxe.

– Está forte dem ais?

– O café? Não.

– Eu prefiro bem forte.

Niels abriu a caixa de papelão. Cuidadosam ente, pôs a pilha de papéis na m esa de centro.

– E eles vieram de Veneza?

– Mandados por Tom m aso di Barbara. O policial com quem você falou no telefone. Ele m andou as páginas por fax hoj e de m anhã. – Niels se sentou no sofá diante da m esa.

– Você leu todos eles?

– Dei um a olhada m eio superficial. É um registro detalhado de tudo o que se sabe sobre as vítim as. Que tipo de vida era a delas, que em pregos tinham e o que elas chegaram a realizar. E, evidentem ente, tudo sobre as m ortes. Hora, lugar e circunstâncias. É... – Niels folheou as páginas até chegar à últim a. – Um relatório de duzentas e doze páginas sobre vida e m orte. Um a parte foi traduzida do italiano para o inglês com o Google. Mas não tudo.

– Ótim o. – Ela lhe deu um sorriso breve.

– Prim eiro eu quero que você dê um a olhada nisto. – Niels pegou um a foto que m ostrava as costas de um a das vítim as e a colocou sobre a m esa.

– O que é isto?

– As costas de Vladim ir Zhirkov. Todas as vítim as têm um a espécie de m arca nas costas. Um a tatuagem ou um sím bolo qualquer.

– O m esm o sím bolo?

– Acho que sim . Tom m aso disse que são núm eros, m as eu não vej o núm eros.

Hannah apertou os olhos. Talvez desconfiasse. Ou então estava surpresa. Ela abriu um a gaveta e encontrou uns óculos de leitura, de um grau e m eio, com o logotipo Statoil na arm ação. Eles ainda estavam com a etiqueta de preço. Ela estudou a foto.

– Você tem certeza de que todos eles têm nas costas um a coisa assim ?

– Sim . Olhe aqui outro exem plo. As costas de Maria Say wa, do Peru. Assassinada no dia 29 de m aio deste ano. – Ele pôs na m esa, ao lado da foto de Vladim ir Zhirkov, a foto de Maria Say wa. Em bora as im agens fossem escuras, podia-se ver as m arcas.

Hannah estava segurando um a lupa. Ela a havia pegado na m esm a gaveta de onde tirara os óculos, j unto com um inequívoco cheiro de m aconha.

Niels a estudou. O arco do nariz. Os pelinhos quase invisíveis da nuca. Os olhos de Niels passeavam por ela, e Hannah correu a m ão pelo pescoço, com o se sentisse sobre si o olhar dele. Passaram -se m uitos segundos. Ou talvez tenham sido m uitos m inutos. Im paciente, Niels m udou de posição. Alguns cisnes estavam fazendo um a confusão no lago.

– Você está vendo algum a coisa? – perguntou ele.

– Isso é m uito louco. – Ela não ergueu os olhos. Mas m ecanicam ente acendeu outro cigarro.

– Com o assim ?

– Quem fez isso? – Ela soprou um a nuvem de fum aça na m esa. – O assassino?

Niels se aproxim ou.

– O que é que você está vendo?

Ela ignorou a pergunta. Niels achava que m erecia um a resposta. Já ia repetir a pergunta quando ela com eçou a m urm urar:

– Hebraico, árabe, indiano, urdu, devanagari...

Niels olhou para ela. Ela entoava num sussurro:

– Mesopotâm io, vigésim o sistem a, núm eros celtas, núm eros hierográficos, núm eros babilônios...

– Hannah. – A voz de Niels havia se elevado. – O que é que está acontecendo?

– São só núm eros. Nada além de núm eros.

– Onde?

– Ele tem razão. O hom em com quem eu conversei.

– Tom m aso?

– É. São núm eros. Esse é o núm ero trinta e um . Vladim ir Zhirkov.

– Trinta e um ?

– É o núm ero trinta e um em vários sistem as num éricos. Em núm eros m inúsculos. Parecem vasinhos sanguíneos rom pidos sob a pele. Com o se os vasos sanguíneos form assem o núm ero trinta e um .

– Com o se pode fazer isso?

Ela deu de om bros.

– Eu não sou derm atologista. Mas... – Hannah m udou de ideia e se calou.

– Mas o quê? – Niels pareceu se im pacientar novam ente.

– Eu sei que a superfície de todos os vasos sanguíneos é form ada pelo epitélio de um a cam ada. Que é conhecido pelo nom e de endotélio.

– Existe algum a coisa que você desconheça? Desculpe. Continue.

– Com o eu estava dizendo, eu não sou perita no assunto, m as se o endotélio é lesionado, o sangue entra em contato com outras células e tecidos... – Ela parou de repente. – Não, eu não posso lhe dizer m ais nada. Para ser bem franca, eu não sei do que estou falando. Não tenho ideia de com o esses núm eros foram feitos.

– E você tem certeza de que o que está aqui é o núm ero trinta e um ?

– Tenho certeza. Eu conheço alguns sistem as num éricos.

– É o m esm o núm ero repetidos várias vezes? Trinta e um ?

Ela não respondeu enquanto voltou a olhar para a foto.

– Hannah?

Ela m eneou afirm ativam ente a cabeça.

– É isso m esm o. Só trinta e um .

– E essa outra? – perguntou Niels. – A m ulher do Peru. Maria.

Hannah estudou a figura estam pada nas costas de Maria Say wa.

– É um seis. O núm ero seis escrito em centenas de sistem as num éricos diferentes. Sistem as usados atualm ente e sistem as usados em lugares distantes, de tem pos antigos. As im agens não são claras, por isso é difícil distinguir, m as esse hom em ... – Ela pegou outra figura na caixa e segurou-a no alto. – Ele tem nas costas o núm ero dezesseis em centenas de variações. Eu reconheço o núm ero hierático.

Niels olhou para a foto e foi procurar o texto nos faxes.

– Jonathan Miller. Pesquisador am ericano encontrado na Estação McMurdo, na Antártica, no dia 7 de agosto deste ano. Mas... – Ele largou a foto de Miller, sem saber o que dizer. – Quantos sistem as num éricos existem ?

– Em todas as eras, todas as culturas tiveram necessidade de contar. Para sistem atizar o m undo e criar um a visão geral. Os gregos, os rom anos, os egípcios, os indianos, os árabes, os chineses. Todos eles têm sistem as num éricos originados há m uito, m uito tem po. Com m ilhares de variações. Já encontraram ossos da Idade da Pedra m arcados com riscos finos que são núm eros. Os núm eros cuneiform es da Mesopotâm ia são de cerca de 2000 a.C. No com eço os núm eros eram usados só para contar, m as as pessoas logo perceberam que eles tam bém eram sím bolos.

– Eram sím bolos? Ou você quer dizer que as pessoas os transform aram em sím bolos?

– É o velho dilem a do que veio prim eiro, o ovo ou a galinha. – Ela encolheu os om bros. – Nós criam os sistem as num éricos ou eles j á existem ? E se dois m ais dois era igual a quatro antes que houvesse pessoas por aí, então quem criou o sistem a? Para os seguidores de Pitágoras os núm eros eram a chave para as leis do cosm o. Eram sím bolos num a ordem m undial divina.

– Isso é m uito im pressionante.

– De acordo com Novalis, Deus poderia se revelar tanto na m atem ática quanto em qualquer outra ciência. Aristóteles disse que os núm eros não só significam um a quantidade específica com o tam bém têm qualidades inerentes. Ele as cham ava de “estruturas qualitativas” de núm eros. Os núm eros ím pares eram m asculinos. Os pares, fem ininos. Outros gregos falavam em núm eros espirituais.

A gata saltou para cim a da m esa e com a m esm a rapidez Hannah a retirou dali sem interrom per o que estava dizendo.

– A m atem ática está cheia de m istérios. Mistérios que podem resolver os nossos problem as. Era nisso que Gustav estava pensando quando fez a declaração que trouxe você aqui.

– Que quem irá salvar o m undo será um m atem ático?

– Pense no trabalho que estão fazendo no Bella Center. Curvas, gráficos, núm eros. Nada além de núm eros. A interpretação correta dos núm eros determ ina se nós vam os viver ou m orrer. É vida ou m orte. Isso é um a coisa que todos os cientistas sabem . É por isso que Ty cho Brahe teve o nariz decepado num duelo.

– Por causa de núm eros?

– Porque ele afirm ou que existiram os cham ados núm eros com plexos. E seu adversário dizia que eles não existiam .

– Quem tinha razão?

– Ty cho Brahe. Mas ele perdeu o nariz.

Ela fez um a pausa, deixando Niels pensar nisso.

– Você j á ouviu falar de Avraham Trakhtm an? – Sem esperar a resposta, ela prosseguiu: – Um professor de m atem ática que em igrou para Israel. Sem conseguir encontrar em prego lá, ele acabou trabalhando com o leão de chácara num clube. Enquanto estava no clube tentando acalm ar hordas de adolescentes bêbados, ele resolveu um dos m aiores m istérios m atem áticos dos tem pos recentes: O Problem a da Coloração da Estrada. Isso lhe diz algum a coisa? – Ela estava respirando com tanto esforço que parecia quase a ponto de sufocar.

– Na verdade não.

– A questão é extrem am ente sim ples: um hom em chega num a cidade estranha para visitar um am igo m as não sabe onde ele m ora. As ruas não têm nom e, m as o am igo telefona e resolve orientá-lo dizendo apenas: “Direita, esquerda, direita, esquerda”. O hom em pode encontrar a casa do am igo baseado só nessas instruções, independentem ente de onde ele está?

– Se tiver sorte.

– A resposta é: sim . Vou poupar você da dem onstração. Você conhece Grigori Perelm an? O russo que resolveu a conj ectura de Poincaré.