O Último Homem Bom
Capítulo 5
Fyn
O encontro da neve com a parte m eridional de Fy n não era um belo panoram a. Em torno da delegacia os aglom erados de cristais brancos se m isturavam com lam a rodopiante. Em vez de branca, essa parte do m undo havia se tornado m arrom -clara.
O carro da polícia tam bém estava coberto de neve suj a e sem iderretida. Hannah estava sentada no assento dianteiro de passageiro, o que surpreendeu Niels. Aquilo era um a clara transgressão dos regulam entos, m as talvez fosse porque Rishøj os tinha m ais com o am igos que com o inim igos. Hannah não disse nada quando Niels e Hans entraram . Niels se sentou atrás. As portas não podiam ser abertas por dentro.
Rishøj girou a chave na ignição. Lisa ainda estava dentro da sala, o que tam bém contrariava as norm as. Um policial para dois prisioneiros. Prisioneiros. A palavra soava errada.
O velho se virou e olhou para Hannah e Niels. Com o um professor que vai levar as crianças para um a excursão e quer lhes fazer algum as recom endações. Niels quase esperou que ele dissesse: “Estarem os na casa de Hans Christian Andersen dentro de um a hora. Vocês se lem braram de trazer o lanche e leite?” Mas em vez disso ele disse:
– Preciso ser sincero. Eu nunca vi nada parecido com isso antes.
Niels e Hannah ficaram em silêncio, um esperando que o outro dissesse algum a coisa. Mas parece que isso não aborreceu Rishøj .
– Por aqui não acontece grande coisa. Garotos valentões se m etendo em encrenca. Brigas no bar. Esse tipo de coisa. De vez em quando vam os até Vollsm ose para aj udar quando os j ovens árabes ficam fora de controle. E sabe o que acontece?
– Não. O quê? – Hannah se apressou a indagar.
– A m aioria deles é gente boa. Claro, alguns são o fim da picada, m as a m aioria só está entediada. Então por que não lhes dam os um centro de j uventude ou um cam po de futebol? Mas não era isso que eu queria falar.
Niels olhou para ele. Rishøj estava sorrindo, com o um hom em que houvesse há m uito tem po perdido totalm ente a ligação com o m undo que o rodeia. Um hom em perplexo, ligeiram ente distraído, que deve se livrar do uniform e da polícia e perceber que suas batalhas futuras serão travadas na sua casa de cam po, onde os inim igos não seriam “j ovens árabes” e sim as ervas daninhas do seu j ardim .
Sem pre que Rishøj fazia um a pausa no seu m onólogo eles viaj avam em silêncio. A neve estava m ais densa. Correntes de vento vindas dos cam pos varriam a estrada e o tráfego estava lento. Hans falava m uito. Principalm ente sobre sua filha cabeleireira. Hannah m eneava a cabeça de tem pos em tem pos, m as Niels não estava prestando atenção. Pensava apenas no que aconteceria quando eles chegassem a Copenhague. Ele j á im aginava a cena: a raiva de Som m ersted. O desdém de Leon. E o pior de tudo: a avaliação psicológica a que teria de ser subm etido na unidade psiquiátrica do Hospital Nacional. Ele tinha vontade de gritar: Não quero morrer! Mas era com o se algum a coisa – alguma coisa – o estivesse puxando.
– Um colega seu está nos esperando do outro lado da ponte – explicou Rishøj . – Ele vai levar você de carro pelo resto do cam inho de volta até a cidade.
Hannah olhou para Niels.
– Está vendo, Niels? Não adianta fazer nada. Agora nós estam os de volta.
– Exatam ente com o você falou.
– Mas vej a o outro lado da coisa: isso é algo m aior que nós. Algo que nós desconhecem os totalm ente. E que agora você pode perceber.
– Você está tentando m e consolar?
– Estou.
– Tudo bem .
Rishøj olhou para ela aturdido.
Niels teve vontade de se encolher em posição fetal. Dentro de m enos de duas horas ele estaria de novo em Copenhague. Mais adiante eles veriam a fila que com eçava a se form ar para a travessia da Ponte do Grande Belt. Eu não vou voltar a atravessar essa ponte, disse ele para si m esm o. Se chegar no outro lado, tudo estará acabado.
Um a longa fila de carros estava esperando diante da ponte.
– O que é que está acontecendo? – resm ungou Rishøj para si m esm o.
– Fechada por causa do tem po, talvez? – arriscou Hannah.
O policial m eneou a cabeça. Ficou ali sentado, batendo im pacientem ente os dedos no volante.
– Vou sair para fum ar – m urm urou ele, e abriu a porta. – Mais alguém ? – indagou.
Niels assentiu com a cabeça.
Hannah tinha razão. A ponte havia sido tem porariam ente fechada por causa da m á visibilidade. Niels cruzou o olhar com o dela quando ela tam bém descia do carro.
– Vou ligar para os seus colegas do outro lado. Para eles saberem que nós não os esquecem os. – Rishøj se afastou alguns m etros para fazer a ligação.
– Você está pronta? – sussurrou Niels para Hannah.
– O que é que você está querendo dizer?
– Eu não vou atravessar a ponte.
– Niels, não interessa o que... – Hannah não conseguiu falar m ais nada: Rishøj estava de volta.
– Dizem que o vento está com eçando a am ainar. – Ele pegou o cachim bo e tentou acendê-lo, m as o isqueiro não funcionou.
Niels pensou rápido.
– Eu tenho um isqueiro na m inha m ala, no porta-m alas.
Rishøj assentiu com a cabeça e buscou as chaves. O porta-m alas abriu com um estalo fraco. Niels pegou a m ala no seu interior.
– Aí para a frente tem m ais neve. Olhe lá – disse Hannah, e o velho olhou preocupado para o norte. Quando se virou, ficou na linha de fogo da Heckler & Koch de Niels. Mas ele não percebeu isso. Havia m uito tem po j á não tinha todos os seus reflexos. Era um a sorte a força policial nacional ainda encontrar algum uso para ele.
– É sem pre esse trecho de água que é m ais atingido – resm ungou ele. – Eu tenho um barco em Kertem inde que...
Niels precisou levantar a arm a e dar um tapinha no om bro do policial para que ele percebesse que sua m ão não estava vazia. Ele não ficou com m edo. Nem m esm o se surpreendeu. Sim plesm ente não entendeu o que estava acontecendo.
– Entre no carro – disse Niels para Rishøj . Ele pegou a m ala e a entregou a Hannah.
– O quê?
– Eu quero que você se sente no banco traseiro do carro.
– Mas por quê? – A voz de Rishøj era quase inaudível.
Niels não respondeu, apenas abriu a porta.
– Me dê as chaves.
– Tudo bem , m as...
– Agora! – A voz de Niels havia se elevado.
O clique ouvido quando Niels abriu a porta traseira do carro fez a expressão de Rishøj m udar. Niels viu isso im ediatam ente. Tudo ficou claro. Niels percebeu que na verdade ele havia feito um favor para Rishøj . O m om ento foi de im portância crucial para o policial. A sua im agem do m undo com o um a Duckburg em tam anho grande onde todos eram no fundo basicam ente bons – um a im agem que ele tinha cultivado durante décadas – desm oronou quando Niels e Hannah fecharam a porta. Não restou nada além de desapontam ento. Eu achei que nós jogávamos no mesmo time, dizia a sua expressão.
– Suba no carro – insistiu Niels calm am ente.
– Mas por quê?
– Porque eu não vou voltar para Copenhague. Eu preciso ficar longe. – Niels se curvou dentro do carro e bateu o cano da sua arm a contra o rádio da polícia até destruí-lo, deixando para fora alguns fios soltos. – Me dê o seu celular.
A pancada na cabeça pegou Niels totalm ente desprevenido. A dor se espalhou pelo seu crânio e ele ouviu um grito no ouvido esquerdo.
– Que diabo você acha que está fazendo? – rugiu Rishøj . – Acha que pode m e trancar aqui?
Outra pancada. Mais forte, dessa vez. Niels cam baleou e deixou cair a arm a. Rishøj estava tateando para pegar a sua arm a. Niels se virou e golpeou-o.
– Niels! – O grito de Hannah pareceu vir de outro m undo, em bora ela estivesse bem do lado dele. Niels levou um segundo para refletir. A morfina. As seringas. No porta-luvas. Ele sabia que Rishøj estava gem endo de dor e desespero. Encontrou o pacote de m orfina dentro de um dos sacos plásticos clinicam ente lim pos que a polícia usava para colher provas.
– A m ala! – disse Niels. Ele apanhou a m ala, agarrou a m ão de Hannah e os dois com eçaram a correr.
Eles escalaram a cerca divisória, saltaram sobre um a poça e correram por cam pos cobertos de gelo. Olhando rapidam ente para trás, Niels viu o velhote apontar a pistola para eles.
– Hannah, eu acho que ele vai...
Pelo terreno gelado ecoou o som fraco de um tiro. Depois outro. Os tiros soavam m ais com o traques.
– Ele está atirando em nós! – gritou Niels ofegante enquanto eles corriam para finalm ente desaparecer na neve rodopiante.
Os pés deles afundavam na neve quebradiça entre as árvores.
– Ele está vindo atrás de nós? – perguntou Hannah olhando sobre o om bro.
– Eu estou vendo um a estrada lá na frente.
Ela estava chorando.
– Onde?
Na Dinam arca sem pre há um a estrada lá na frente.
– Continue andando.
Eles deixaram para trás as árvores e percorreram ao longo de um aclive os honestos esforços feitos por um paisagista para unir cam pos de cultivo a um a área de piquenique.
– E agora? Para que lado? – Hannah com eçou a andar pela estrada. – Talvez um carro nos dê carona ou... – Ela foi interrom pida pelo som de um ônibus que vinha na direção deles.
– Lá vem o calvário – resm ungou Niels fazendo sinal para o ônibus.
O ônibus parou.
– Seu carro não aguentou o frio? É isso? – gritou o m otorista com o sotaque cantado de Fy n. – Eu só vou até a estação, m as de lá vocês podem pegar um trem para Odense.
– Obrigado. – Niels entrou na frente, tentando evitar o olhar do m otorista.
Sentaram -se os dois no últim o lugar e olharam pela j anela. A estrada estava coberta de gelo e com isso o veículo avançava devagar, o que não se harm onizava com a pulsação acelerada de Niels. Mas o m otorista estabelecia a velocidade, e era assim que tinha de ser. Não havia alternativa senão perm anecer calm o e agir com o os dem ais.
Niels sabia da existência de crim inosos profissionais que com eteram roubos – de bancos, carros blindados, j oalherias – planej ados com extrem a m eticulosidade e no final, quando o trabalho j á havia sido feito, foram dom inados pelo pânico. Esse era um com portam ento profundam ente im pregnado na psique hum ana. Depois de com eter um crim e o im pulso era fugir logo. Para bem longe.
O ônibus parou num a estação pequena e o m otorista saiu do veículo j unto com os passageiros.
Hannah e Niels entraram num a sala de espera m inúscula. A m áquina de café não estava funcionando e o lugar cheirava a urina.
– A estação de trem fica lá. – Niels apontou. – Vam os com prar as passagens. Para onde a gente vai?
Ela tocou o lábio inferior de Niels.
– Você está sangrando.
Niels balançou a cabeça. Ele estava tonto. Rishøj o atingira com força.
– Na verdade você não precisa... – Ele parou.
– O quê? Fugir com você?
– É. Não é a você que estão procurando.
– Que uma coisa está procurando – disse ela sorrindo. – Não alguém . Se fosse um a pessoa eu não estaria aqui. Mas, um a vez que é um a coisa, fica m uito m ais interessante.
– A ponto de valer a pena ir para a cadeia? Se for esse o final dessa história?
– Eu digo para eles que você m e sequestrou.
O trem parava toda vez que havia duas casas próxim as o suficiente para serem cham adas de um a aldeia. Mas isso não tinha im portância. Eles se sentaram de frente um para o outro e se sentiram bem acom odados. Niels tentou olhar de soslaio para Hannah, m as ela percebeu isso. Ele se virou para olhar pela j anela, tentando fixar o olhar na paisagem . Quando o trem entrou num túnel ele viu o reflexo de Hannah no vidro da j anela. Ela o estava estudando. De um m odo que lhe agradou.
– Olhe para m im – disse ela.
Niels obedeceu. Ele achou que de repente o túnel parecia com prido dem ais. Quando j á iam sair novam ente para a luz ele pensou por acaso em Kathrine – sua consciência culpada se m anifestando. Tentou im aginar que quem estava sentado diante dele era Kathrine, m as viu apenas Hannah.
Um a experiência da sua infância o salvou daquela situação constrangedora. Niels com eçou a falar e não parava, com o se Hannah fosse atacá-lo e tirar toda a sua roupa se ele se calasse.
– Eu estava com seis anos de idade – disse ele. – Ia para a Costa Brava de ônibus com a m inha m ãe. Na hora em que nós chegam os em Flensburg as coisas com eçaram a dar errado. Já era noite alta e a m aioria dos outros passageiros estava dorm indo. Eu acordei m e sentindo m al, quase com o se estivesse sufocando. Minha m ãe ficou preocupada e pediu para o m otorista parar o ônibus. Os outros passageiros se enfureceram . Estavam saindo de férias e não queriam ter de parar porque o m ovim ento do ônibus estava provocando náusea num garoto. Mas quando eles viram o garoto, quando eles m e viram , deitado no corredor central com dificuldade para respirar, o corpo todo em convulsão, eles não disseram nada.
“Cham aram um a am bulância. Foi tudo m uito com plicado porque inicialm ente não deixaram a am bulância entrar na Alem anha. Finalm ente o ônibus foi até a fronteira da Dinam arca e os m édicos m e levaram . Acho que eu não estava consciente; pelo m enos não m e lem bro do que aconteceu. Acordei algum as horas depois no hospital de Aabenraa e m e sentia bem .”
– Você não pode deixar o seu território. Isso é fantástico.
Ele olhou para o chão.
– Sinto m uito. Estava querendo dizer “fascinante”. Com o um fenôm eno.
– Pode ser. – Niels não sabia o que pensar do fato de ser considerado um fenôm eno fascinante.
– E o que foi que aconteceu com as suas férias? – perguntou Hannah quando percebeu que havia um aspecto hum ano na história.
Niels encolheu os om bros.
– Nós passam os um a sem ana num a casa de cam po no fiorde, pegando um a porção de caranguej os. Tantos que quase foi um assassinato em m assa. – Ele deu um a risadinha ao se lem brar. – Depois disso as coisas ficaram um pouco m elhores – prosseguiu ele. – Talvez pela idade, m as o fato é que hoj e eu consigo m e arrastar até Berlim . Em bora passado algum tem po acabe m e sentindo m al.
Eles m udaram de trem em Odense e continuaram na direção oeste, rum ando para Esbj erg. Agora Niels estava sentado ao lado de Hannah. Em bora sentados lado a lado, um deles estava voltado para um a extrem idade do vagão e o outro para a oposta, e assim eles se olhavam sem ter de virar a cabeça.
– Im agine um trem m uito com prido sem vagões separados – disse ela de repente. – Quer dizer, um único espaço longo, e assim é possível ficar no m eio dele e ver de um extrem o a outro.
– Você quer dizer que eu estou no trem ?
– Não, você está na plataform a. Eu estou no trem . – Ela se levantou. Os outros passageiros a olharam m as ela não se im portou. – Im agine que eu estou com um a lanterna em cada m ão. – Hannah estava de pé no corredor central segurando duas lanternas fictícias. – Você pode im aginar isso? As lanternas estão ilum inando em direções opostas. Um a está voltada para a frente do trem , a outra para o final. É um trem m uito com prido.
Os outros três passageiros tinham deixado de fingir que não estavam prestando atenção. Eles puseram no banco o j ornal, fecharam o notebook e ficaram olhando para Hannah. Ela ficou olhando para eles.
– Todos vocês estão na plataform a. O trem está passando veloz. É m uito com prido. Vocês estão m e acom panhando?
– Sim . – Todos eles assentiram com a cabeça.
– O trem passa depressa e todos vocês estão de pé na plataform a. No segundo em que estou bem diante de vocês eu acendo as duas lanternas sim ultaneam ente. – Ela deu um tem po para a im agem ser assim ilada. – Qual clarão de luz chega prim eiro a vocês?
Eles pensaram no problem a. Niels j á ia responder quando um j ovem perto da porta se antecipou a ele.
– O clarão voltado para a parte traseira.
– Exatam ente. Por quê?
– Porque o trem alcança a lanterna. Ao passo que a frente do trem está se afastando da outra lanterna – respondeu ele.
– Exatam ente!
Hannah estava no seu hábitat: a sala de conferências. Im ersa em teorias e ideias e transm itindo conhecim ento.
– Agora im aginem que todos vocês estão aqui, dentro do trem . E estão com lanternas na m ão. O trem avança veloz. Então vocês acendem as lanternas sim ultaneam ente. Qual clarão de luz vocês veem prim eiro? O que está voltado para o final do trem ou o que está voltado para a frente dele?
Seguiram -se alguns segundos de silêncio. Niels foi o prim eiro a falar.
– Eles chegam ao m esm o tem po.
– Exatam ente. Eles chegam ao m esm o tem po.
– É ilusão de ótica? – arriscou um a voz atrás de Niels.
– Não. Não é um a ilusão. Os dois resultados estão igualm ente certos. Depende apenas da posição em que você está. É... relativo. – Ela sorriu.
A teoria da relatividade tornou-se a ponte de Fy n para Jutlândia. Hannah queria lem brar Niels de com o na verdade os seres hum anos são pequenos. Einstein desenvolveu a teoria cem anos atrás, e ela virou de cabeça para baixo a visão do m undo, em bora m uito poucas pessoas a tenham entendido realm ente. Niels achou que ela não estava com intenção de parar. Tinha a im pressão de que Hannah se via com a m issão de convencê-lo.
Eles se esqueceram do tem po, e quando voltaram a olhar pela j anela as cercas eram altas e brancas. Tinham chegado a Jutlândia.
Era im possível dizer quando eles seriam pegos, m as Niels esperava que se passassem m uitos dias, talvez até algum as sem anas. Ele estava longe de ser considerado alta prioridade, e o tem po estava do lado deles. Surgiriam outros casos, perseguições a crim inosos m ais am eaçadores, e lenta m as seguram ente eles seriam passados para trás na lista das prioridades. Claro que eles seriam pegos. Era apenas um a questão de tem po.