O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 117 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 3

UTI, Hospital Nacional – Copenhague

Acordar era com o um a escalada interm inável para chegar à vida, deixando para trás a m orte. A luz lhe feria os olhos. Era com o se o seu corpo fosse subm etido à força gravitacional do reino da m orte, bem m ais forte que a da Terra. Deve ter sido assim que Lázaro se sentiu quando Jesus o fez voltar à vida, pensou Niels apertando os olhos e percebendo com o o seu corpo estava sendo pressionado contra o colchão, para o chão, para a terra.

Sua respiração estava pesada. Ele olhou em volta. O hospital. Sem pre o hospital. Ele fechou os olhos. Deixou-se cair.

Q uinta-feira, 24 de dezembro

– Niels?

Ele reconheceu a voz.

– Niels.

A cabeça calva. Os olhos bondosos que lhe lem bravam os do seu pai.

– Você está m e ouvindo? É Willy. Seu tio.

– Willy ?

– Eu j á vim aqui algum as vezes. Você estava inconsciente, m eu filho. Foi m uito bom o seu pai e a sua m ãe não terem visto você assim . Eles não teriam suportado.

Niels sorriu. Willy era praticam ente o único rem anescente da sua fam ília. Pelo m enos o único de quem ele gostava.

– Você pode m e dizer onde a Kathrine está trabalhando? Ela está fora do país? Eu quero ligar para ela.

Niels balançou a cabeça.

– Não. Eu ligo para ela quando estiver m elhor.

– Tudo bem , tudo bem , m eu filho. Você vai ficar bom . Os m édicos tam bém dizem isso. Você é forte. Sem pre foi um garoto forte. O queridinho do seu pai.

Niels quis voltar para a escuridão e para aquela sensação de peso. Longe. Enquanto se deixava cair ouvia a tagarelice de Willy. Ele falava sobre flores. E chocolate. E todos os m em bros da fam ília que tinham m orrido. Era um a voz agradável para acom panhá-lo na sua descida para a escuridão.

– Feliz Natal – disse alguém . Ou cantou. Talvez ele j á estivesse sonhando.

 

– Niels Bentzon?

Um hom em de j aleco. Um hom em j ovem . Parecia que aquele lugar tinha um núm ero infinito de hom ens de j aleco. Onde estava o tio Willy ? Ele havia estado ali ou não? O desconsolado buquê de flores na m esa era um a prova da visita. Som ente Willy era capaz de aparecer no hospital com um buquê m ais adequado a um velório.

– Você está m e ouvindo? – indagou o hom em de j aleco.

– Estou.

– Tenho um a boa notícia.

Niels tentou se concentrar. Parecia que um véu se estendera diante dos seus olhos, fazendo-o se sentir com o se ele estivesse olhando debaixo d’água.

– Boa notícia?

– Sobre a sua nam orada.

– Hannah? – perguntou Niels.

– Ela não m orreu.

– Não m orreu?

– Ela vai ficar boa, Niels. – O hom em sorriu. – É um a coisa m uito incom um , voltar à vida duas vezes. Sou m édico, por isso raram ente uso a palavra “m ilagre”. Mas se algum a vez eu testem unhei pessoalm ente um m ilagre, foi certam ente quando a sua nam orada abriu os olhos, algum as horas atrás. Pode até ser que ela não tenha sofrido nenhum a lesão perm anente.

“Nam orada.” A palavra aborreceu Niels. O m édico estava dizendo m ais algum a coisa, m as Niels j á não o ouviu.

– Eu quero vê-la. – Ele falou alto e claram ente.

– Vam os ter de providenciar isso. Assim que for possível.

– Eu preciso vê-la.

– Prim eiro você vai ter de esperar aqui por m ais um tem pinho. – O m édico trocou um olhar com um a enferm eira. Não pronunciou um a única palavra, m as Niels não tinha dúvida do que ele quis dizer: não posso continuar aqui falando com esse paciente. Tenho outras coisas para fazer. Você vai ter de explicar a ele que ele precisa ficar aqui.

A enferm eira se aproxim ou.

– Acho que isso não vai ser possível agora, Niels. Vocês não estão na m esm a ala do hospital. A sua nam orada foi levada para o departam ento de cardiologia, que fica longe, lá.

Ela apontou para a ala que se via através da j anela. O hospital tinha sido construído na form a de um H incom pleto, e assim dois pacientes podiam ficar m uito longe um do outro em bora estivessem no m esm o prédio. Tão longe que era im possível ver as pessoas atrás das j anelas do outro lado.

– Toda vez que deslocam os um paciente aum entam os o risco de estresse e com plicações. Será preciso esperar um pouco. Isso é para o seu próprio bem . Contatam os os m em bros da fam ília de vocês dois.

– Mas é im portante.

– Talvez nós possam os providenciar um contato telefônico. O que você acha disso? – Ela sorriu e tocou na atadura da sua cabeça.

– Ótim o.

Ela foi em bora. Niels olhou para a ala oposta do prédio. Então deixou sua m em ória assum ir o controle: o m ar do Norte. O trem de carga. A loj a de conveniência. O acidente. O que quer que você faça, Niels, não importa: você vai acabar no Hospital Nacional daqui a seis dias. Foi o que Hannah disse. Por causa do sistema.

– Niels Bentzon?

Niels foi sacudido abruptam ente de seus pensam entos. Quanto tem po tinha se passado? O hom em se apresentou:

– Meu nom e é Jørgen Wass. Sou derm atologista. Esse j ovem é m eu aluno e visita os pacientes com igo.

Um hom em m ais j ovem e de óculos estava ao lado do m édico.

– Me pediram para dar um a olhada nas suas costas.

– Agora?

– Foi para isso que eu vim . – Ele sorriu. – Eu não faço parte da equipe. O Hospital Nacional não tem m ais um departam ento de derm atologia. Mas eles resolveram que você não devia ficar indo de um lado para outro para ver diversos m édicos. Eu não vou poder fazer um exam e detalhado agora; só vou dar um a olhada para determ inar se será preciso fazer algum tipo de tratam ento e, se for o caso, o que devem os fazer. Você poderia se virar de bruços?

Sem esperar a resposta e usando um tom de voz que fez Niels se sentir um bebezinho, o derm atologista olhou para a enferm eira e disse:

– Certo? Vam os virá-lo de bruços.

O dr. Wass calçou luvas de borracha. Niels havia resolvido não olhar enquanto estivessem se ocupando dele. A enferm eira tirou a sua cam iseta. O derm atologista se sentou. Exam inou-o dem oradam ente. Niels achou hum ilhante aquele tem po de espera.

– O senhor precisa de algum a coisa? – O aluno se aproxim ou do m édico.

– Não, obrigado. Isso é rápido. Espero que não estej a m uito desconfortável. – O últim o com entário foi dirigido a Niels.

Niels não disse nada enquanto o m édico tocava as suas costas.

– Algum a sensibilidade? Coceira?

– Não. Nada.

– Quando foi que você fez isso?

– O que o senhor quer dizer?

– A tatuagem . Ou... – O derm atologista ficou em silêncio. – Isso é um a tatuagem ?

– Eu não tenho tatuagens. – Niels não viu que o m édico não estava acreditando nele.

– Você tem certeza? Nem um a tatuagem com hena? Você j á viaj ou para o exterior?

– Eu quero ver isso.

– Deve ser tatuagem m esm o. – O aluno estava decidido a externar a sua opinião. Falava em voz baixa para o m édico. – Ou seria um a m ancha m ongólica?

– Eu não tenho tatuagem nas costas. – Niels tentou falar m ais alto, m as isso era difícil por ele estar naquela posição desaj eitada, com o rosto no travesseiro.

– Você não retirou um a tatuagem ? – indagou o derm atologista. – Você j á teve problem as com infecções fúngicas?

– Não.

Niels não podia dizer se o m édico estava conversando com o aluno, com as enferm eiras ou com ele quando m urm urou:

– Um leve inchaço da epiderm e. Sinais de variação de pigm ento e inflam ação.

– Eu quero ver. – Niels tentou se virar.

– Se você não se im portar em esperar um m om ento. – O dr. Wass raspou as costas de Niels com algo afiado. – Eu preciso colher um a am ostra. Está doendo?

– Está.

– Não há m uita coisa para olhar. Vam os virá-lo de volta?

– Não! Eu quero ver.

Silêncio. O m édico não estava m uito inclinado a atendê-lo. Niels percebeu a sua oposição.

– Tudo bem , m as vam os precisar de dois espelhos.

Niels ficou com o estava enquanto as enferm eiras trouxeram para o quarto dois enorm es espelhos. A operação de colocá-los nos devidos lugares levou algum tem po.

– Assim ela parece pior do que é – avisou o derm atologista. – Não fique im pressionado. Com o tratam ento certo, talvez um a pom ada de cortisona, você ficará bom em pouco tem po.

Niels olhou para as suas costas. A m arca j á havia ficado parecida com as outras, estendendo-se de um om bro ao outro. O desenho com eçava a se revelar. Mesm o sem ver os núm eros, Niels sabia que eles estavam lá. Um três e um seis. Trinta e seis.

O m édico se endireitou e olhou para o seu aluno.

– Eu j á vi isso antes – disse ele.

– Onde? – perguntou o aluno.

– O que é que o senhor está querendo dizer? – indagou Niels, insistindo em olhar o m édico diretam ente. – O senhor j á viu isso antes? Onde?

– Muito tem po atrás. Mas...

– Mas o quê?

O m édico se levantou.

– Vou ter de fazer um a pesquisa, depois volto aqui.

Ele m eneou a cabeça para o aluno. Sem dirigir a Niels um a única palavra, saíram am bos do quarto.