O Último Homem Bom
Capítulo 3
UTI, Hospital Nacional – Copenhague
Acordar era com o um a escalada interm inável para chegar à vida, deixando para trás a m orte. A luz lhe feria os olhos. Era com o se o seu corpo fosse subm etido à força gravitacional do reino da m orte, bem m ais forte que a da Terra. Deve ter sido assim que Lázaro se sentiu quando Jesus o fez voltar à vida, pensou Niels apertando os olhos e percebendo com o o seu corpo estava sendo pressionado contra o colchão, para o chão, para a terra.
Sua respiração estava pesada. Ele olhou em volta. O hospital. Sem pre o hospital. Ele fechou os olhos. Deixou-se cair.
Q uinta-feira, 24 de dezembro
– Niels?
Ele reconheceu a voz.
– Niels.
A cabeça calva. Os olhos bondosos que lhe lem bravam os do seu pai.
– Você está m e ouvindo? É Willy. Seu tio.
– Willy ?
– Eu j á vim aqui algum as vezes. Você estava inconsciente, m eu filho. Foi m uito bom o seu pai e a sua m ãe não terem visto você assim . Eles não teriam suportado.
Niels sorriu. Willy era praticam ente o único rem anescente da sua fam ília. Pelo m enos o único de quem ele gostava.
– Você pode m e dizer onde a Kathrine está trabalhando? Ela está fora do país? Eu quero ligar para ela.
Niels balançou a cabeça.
– Não. Eu ligo para ela quando estiver m elhor.
– Tudo bem , tudo bem , m eu filho. Você vai ficar bom . Os m édicos tam bém dizem isso. Você é forte. Sem pre foi um garoto forte. O queridinho do seu pai.
Niels quis voltar para a escuridão e para aquela sensação de peso. Longe. Enquanto se deixava cair ouvia a tagarelice de Willy. Ele falava sobre flores. E chocolate. E todos os m em bros da fam ília que tinham m orrido. Era um a voz agradável para acom panhá-lo na sua descida para a escuridão.
– Feliz Natal – disse alguém . Ou cantou. Talvez ele j á estivesse sonhando.
– Niels Bentzon?
Um hom em de j aleco. Um hom em j ovem . Parecia que aquele lugar tinha um núm ero infinito de hom ens de j aleco. Onde estava o tio Willy ? Ele havia estado ali ou não? O desconsolado buquê de flores na m esa era um a prova da visita. Som ente Willy era capaz de aparecer no hospital com um buquê m ais adequado a um velório.
– Você está m e ouvindo? – indagou o hom em de j aleco.
– Estou.
– Tenho um a boa notícia.
Niels tentou se concentrar. Parecia que um véu se estendera diante dos seus olhos, fazendo-o se sentir com o se ele estivesse olhando debaixo d’água.
– Boa notícia?
– Sobre a sua nam orada.
– Hannah? – perguntou Niels.
– Ela não m orreu.
– Não m orreu?
– Ela vai ficar boa, Niels. – O hom em sorriu. – É um a coisa m uito incom um , voltar à vida duas vezes. Sou m édico, por isso raram ente uso a palavra “m ilagre”. Mas se algum a vez eu testem unhei pessoalm ente um m ilagre, foi certam ente quando a sua nam orada abriu os olhos, algum as horas atrás. Pode até ser que ela não tenha sofrido nenhum a lesão perm anente.
“Nam orada.” A palavra aborreceu Niels. O m édico estava dizendo m ais algum a coisa, m as Niels j á não o ouviu.
– Eu quero vê-la. – Ele falou alto e claram ente.
– Vam os ter de providenciar isso. Assim que for possível.
– Eu preciso vê-la.
– Prim eiro você vai ter de esperar aqui por m ais um tem pinho. – O m édico trocou um olhar com um a enferm eira. Não pronunciou um a única palavra, m as Niels não tinha dúvida do que ele quis dizer: não posso continuar aqui falando com esse paciente. Tenho outras coisas para fazer. Você vai ter de explicar a ele que ele precisa ficar aqui.
A enferm eira se aproxim ou.
– Acho que isso não vai ser possível agora, Niels. Vocês não estão na m esm a ala do hospital. A sua nam orada foi levada para o departam ento de cardiologia, que fica longe, lá.
Ela apontou para a ala que se via através da j anela. O hospital tinha sido construído na form a de um H incom pleto, e assim dois pacientes podiam ficar m uito longe um do outro em bora estivessem no m esm o prédio. Tão longe que era im possível ver as pessoas atrás das j anelas do outro lado.
– Toda vez que deslocam os um paciente aum entam os o risco de estresse e com plicações. Será preciso esperar um pouco. Isso é para o seu próprio bem . Contatam os os m em bros da fam ília de vocês dois.
– Mas é im portante.
– Talvez nós possam os providenciar um contato telefônico. O que você acha disso? – Ela sorriu e tocou na atadura da sua cabeça.
– Ótim o.
Ela foi em bora. Niels olhou para a ala oposta do prédio. Então deixou sua m em ória assum ir o controle: o m ar do Norte. O trem de carga. A loj a de conveniência. O acidente. O que quer que você faça, Niels, não importa: você vai acabar no Hospital Nacional daqui a seis dias. Foi o que Hannah disse. Por causa do sistema.
– Niels Bentzon?
Niels foi sacudido abruptam ente de seus pensam entos. Quanto tem po tinha se passado? O hom em se apresentou:
– Meu nom e é Jørgen Wass. Sou derm atologista. Esse j ovem é m eu aluno e visita os pacientes com igo.
Um hom em m ais j ovem e de óculos estava ao lado do m édico.
– Me pediram para dar um a olhada nas suas costas.
– Agora?
– Foi para isso que eu vim . – Ele sorriu. – Eu não faço parte da equipe. O Hospital Nacional não tem m ais um departam ento de derm atologia. Mas eles resolveram que você não devia ficar indo de um lado para outro para ver diversos m édicos. Eu não vou poder fazer um exam e detalhado agora; só vou dar um a olhada para determ inar se será preciso fazer algum tipo de tratam ento e, se for o caso, o que devem os fazer. Você poderia se virar de bruços?
Sem esperar a resposta e usando um tom de voz que fez Niels se sentir um bebezinho, o derm atologista olhou para a enferm eira e disse:
– Certo? Vam os virá-lo de bruços.
O dr. Wass calçou luvas de borracha. Niels havia resolvido não olhar enquanto estivessem se ocupando dele. A enferm eira tirou a sua cam iseta. O derm atologista se sentou. Exam inou-o dem oradam ente. Niels achou hum ilhante aquele tem po de espera.
– O senhor precisa de algum a coisa? – O aluno se aproxim ou do m édico.
– Não, obrigado. Isso é rápido. Espero que não estej a m uito desconfortável. – O últim o com entário foi dirigido a Niels.
Niels não disse nada enquanto o m édico tocava as suas costas.
– Algum a sensibilidade? Coceira?
– Não. Nada.
– Quando foi que você fez isso?
– O que o senhor quer dizer?
– A tatuagem . Ou... – O derm atologista ficou em silêncio. – Isso é um a tatuagem ?
– Eu não tenho tatuagens. – Niels não viu que o m édico não estava acreditando nele.
– Você tem certeza? Nem um a tatuagem com hena? Você j á viaj ou para o exterior?
– Eu quero ver isso.
– Deve ser tatuagem m esm o. – O aluno estava decidido a externar a sua opinião. Falava em voz baixa para o m édico. – Ou seria um a m ancha m ongólica?
– Eu não tenho tatuagem nas costas. – Niels tentou falar m ais alto, m as isso era difícil por ele estar naquela posição desaj eitada, com o rosto no travesseiro.
– Você não retirou um a tatuagem ? – indagou o derm atologista. – Você j á teve problem as com infecções fúngicas?
– Não.
Niels não podia dizer se o m édico estava conversando com o aluno, com as enferm eiras ou com ele quando m urm urou:
– Um leve inchaço da epiderm e. Sinais de variação de pigm ento e inflam ação.
– Eu quero ver. – Niels tentou se virar.
– Se você não se im portar em esperar um m om ento. – O dr. Wass raspou as costas de Niels com algo afiado. – Eu preciso colher um a am ostra. Está doendo?
– Está.
– Não há m uita coisa para olhar. Vam os virá-lo de volta?
– Não! Eu quero ver.
Silêncio. O m édico não estava m uito inclinado a atendê-lo. Niels percebeu a sua oposição.
– Tudo bem , m as vam os precisar de dois espelhos.
Niels ficou com o estava enquanto as enferm eiras trouxeram para o quarto dois enorm es espelhos. A operação de colocá-los nos devidos lugares levou algum tem po.
– Assim ela parece pior do que é – avisou o derm atologista. – Não fique im pressionado. Com o tratam ento certo, talvez um a pom ada de cortisona, você ficará bom em pouco tem po.
Niels olhou para as suas costas. A m arca j á havia ficado parecida com as outras, estendendo-se de um om bro ao outro. O desenho com eçava a se revelar. Mesm o sem ver os núm eros, Niels sabia que eles estavam lá. Um três e um seis. Trinta e seis.
O m édico se endireitou e olhou para o seu aluno.
– Eu j á vi isso antes – disse ele.
– Onde? – perguntou o aluno.
– O que é que o senhor está querendo dizer? – indagou Niels, insistindo em olhar o m édico diretam ente. – O senhor j á viu isso antes? Onde?
– Muito tem po atrás. Mas...
– Mas o quê?
O m édico se levantou.
– Vou ter de fazer um a pesquisa, depois volto aqui.
Ele m eneou a cabeça para o aluno. Sem dirigir a Niels um a única palavra, saíram am bos do quarto.