O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 48 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 39

Helligåndskirke – Copenhague

A porta da igrej a estava trancada. Niels bateu com força nos m inúsculos vidros do vitral ao m esm o tem po em que gritava:

– Rosenberg?

Ele desistiu da ideia de chutar a porta e se concentrou em descobrir outra entrada. Não conseguia localizar o pastor. Um a coisa que ele dissera ficava rondando a sua m ente: “Isso é a punição?” Qual seria o m otivo dessa punição?, perguntou-se ele enquanto corria pela lateral da igrej a. Outra porta. Que poderia levar para o porão. Niels agarrou a m açaneta. Aquela porta tam bém estava trancada. Então ele viu que um a j anela estava parcialm ente aberta. Um a j anela no alto, acim a de um a pequena saliência. Mas no m ês de dezem bro, terrivelm ente frio, ninguém deixaria um a j anela aberta.

Com o o invasor teria feito para entrar? Niels viu que havia m uitas bicicletas abandonadas, apoiadas num a árvore. Ele pegou duas e as encostou contra a parede da igrej a. Pôs um pé no selim , firm ou-se e então se lançou para cim a. Conseguiu alcançar o peitoril de um a j anela que ficava m ais de um m etro abaixo da outra. Foi capaz de segurar o peitoril apenas com a ponta dos dedos e se levantar.

Encontrou um ponto de apoio num tij olo ressaltado na parede e se içou a um a posição m elhor. Dali poderia ser viável. Ele precisava encostar bem o corpo contra a parede para m anter o equilíbrio. Sentiu que seu j oelho estava sangrando. Devia tê-lo arranhado sem perceber. Deu-se dois segundos para tom ar fôlego. Agora vam os. Então ele usou as duas m ãos para agarrar o peitoril sob a j anela aberta. Seus pés balançaram no ar. Se caísse agora, ele se chocaria contra as bicicletas ou contra a lápide em form a de anj o de m árm ore sobre a sepultura de algum bispo. Estava prestes a entrar em pânico. Não conseguia chegar. Ele fechou os olhos. Tentou reunir todas as suas forças para um a últim a tentativa. Pensou em desistir e tentar agarrar as barras da outra j anela para descer.

– Vam os, Niels! – disse ele em voz alta.

Usando toda a força que lhe restava, ele tentou novam ente.

Dessa vez conseguiu. Tinha um braço dentro. Estranham ente, era o seu braço livre que estava trem endo. Se seu adversário tivesse realm ente entrado por aquela j anela, a perspectiva não era boa.

 

Niels tinha entrado. Ele supôs que estava nos corredores do antigo claustro. O teto abobadado era altíssim o. Ele ouvia o barulho do trânsito lá fora. E um m urm úrio fraco das pessoas que se deslocavam pela Strøget. Mas nada dentro do prédio.

– Rosenberg!

Ele gritou novam ente, acrescentando:

– Polícia de Copenhague! – Pelo m enos seus gritos dariam esperança ao pastor. Com eles Rosenberg talvez conseguisse ficar m ais tem po sem desm oronar. Mas os gritos tam bém diriam ao invasor que a polícia estava ali.

Niels não acendeu as luzes. A escuridão podia ser ao m esm o tem po sua am iga e inim iga. Ele entrou num corredor curto. Dali um a escada levava a outro hall. Ouviu um barulho alto. Depois outro. E m ais outro. Um a coisa dura chocando-se contra outra coisa dura. A porta do banheiro? O invasor devia estar tentando derrubar um a porta.

Niels andou m ais depressa, com passos largos e corridos. Entrou em outro corredor. Então viu o vulto de um hom em que tentava arrom bar a porta do banheiro.

– Pare! – Niels j á havia em punhado sua arm a.

O hom em se virou e durante um segundo não se m exeu.

– Largue a sua arm a! – gritou Niels.

O hom em com eçou a correr. Esse teria sido o m om ento certo para Niels atirar; era esse o seu dever. Antes que ele concluísse esse pensam ento, o hom em desapareceu. Niels correu pelo corredor. A estrutura da porta do banheiro tinha sido arrebentada. As dobradiças estavam quase soltas. Mais dois m inutos e o hom em teria entrado.

– Você chegou!

Niels encontrou Rosenberg aj oelhado no chão de ladrilhos. Estava se preparando, pronto para encarar o que quer que o além lhe oferecesse. Se o invasor tivesse conseguido entrar, o pastor não teria oferecido nenhum a resistência. Isso Niels pôde ver im ediatam ente. Ele aj udou o pastor a se levantar.

– O senhor está bem ? – Niels viu no chão o celular quebrado.

– Deixei cair. Estava com m edo e... Para onde ele foi?

– Fique aqui. Não. Vá para a sua sala e se tranque lá. – Niels apontou para a sala do outro lado do hall.

– Você viu que rum o ele tom ou?

Niels não respondeu. Com um gesto rude, em purrou Rosenberg para dentro da sua sala.

– Tranque a porta e ligue para este núm ero. – Niels lhe entregou um a anotação. – Diga: “Policial precisa de apoio”. Entende o que eu estou dizendo?

Rosenberg não respondeu. Parado ali, parecia quase desapontado. Talvez por lhe terem roubado a ocasião de encarar o m om ento para o qual ele havia passado a vida inteira se preparando. Niels apertou seu braço.

– “Policial precisa de apoio” – entendeu? Isso vai trazer a cavalaria.

– Sei. Tudo bem .

Niels saiu correndo.

O hom em só poderia ter tom ado um a única direção. Niels com eçou a persegui-lo. Virou num canto. Um a porta estava escancarada. Ele parou. Nenhum som traía nada. Levantando a arm a, ele entrou na sala. Nada. Hinários. Prateleiras. Um com putador velho e em poeirado.

De volta ao hall. Avançar. Subiu escadas. Corredores estreitos, um núm ero infinito de portas, m ais escadas. Que diabo haveria atrás de todas aquelas portas? O som fraco de um a pancada. Seria Rosenberg? Ou...

Niels respirou fundo. O hom em havia desaparecido. Talvez tivesse desistido e estivesse andando pela cidade. Naquele m esm o instante Niels instintivam ente pôs o braço diante do rosto. A faca riscou o seu paletó e por um segundo ficou presa no couro grosso. Niels perdeu o equilíbrio. A arm a caiu da sua m ão. Então o hom em estava em cim a dele, golpeando-o no m axilar com força. Niels sentiu os dentes se entrechocarem e então caiu de costas com um baque. Sentiu o gosto de sangue. Não sabia dizer se fora esfaqueado. Usando o j oelho, o hom em colou o braço de Niels ao chão. Niels agitou a m ão, pegou um a m echa de cabelo, um a orelha, e puxou com força. O hom em gritou e perdeu o fôlego. Niels atacou outra vez, agora visando a cabeça do hom em . Deu-lhe um m urro na boca, partindo o seu lábio e fazendo o sangue j orrar. Com um grito, o hom em se atirou sobre Niels. Mas o grito com prom eteu o seu im pulso: um gasto de energia desnecessário. Niels agarrou o seu pulso e o torceu, pretendendo quebrá-lo. O invasor deu um giro e escoiceou, e Niels precisou soltá-lo. Eles ficaram de pé e se encararam , ofegantes de exaustão. O sangue escorria para dentro dos olhos de Niels enquanto ele pegava no chão a sua arm a. Ele tinha dificuldade em enxergar. O hom em apenas observava. Esperando.

Niels queria gritar, m as só conseguiu m urm urar:

– Ponha a faca no chão.

O hom em balançou a cabeça. Eles se olharam . Então Niels o reconheceu. Abdul Hadi. O terrorista iem enita que havia entrado na Dinam arca. Ele estava de pé bem na frente de Niels. Tinha nos olhos um a expressão de loucura e desespero. Talvez tenha sido por haver reconhecido o invasor que Niels foi capaz de reunir a força suficiente para gritar:

– Ponha a faca no chão!

Não aconteceu nada. Niels sabia que aquele era o m om ento em que devia atirar no hom em . Ele levantou a arm a. Mirou.

– Faça o que eu digo e largue a faca.

Abdul Hadi gritou novam ente enquanto se atirava sobre Niels, que caiu de lado. Hadi olhou surpreso para Niels. E para a arm a. Niels via os pensam entos que passavam pela cabeça do hom em . Por que o policial não tinha atirado? Será que a arm a estava descarregada? De qualquer form a isso deu a Hadi um a energia renovada quando ele avançou, pondo todo o seu peso no ím peto da faca. Ele errou, e no últim o segundo Niels bateu forte a cabeça contra o rosto do iem enita. O sangue do nariz quebrado do terrorista escorria em Niels. Desesperadam ente, Niels se libertou com um arranco e se virou. Ainda deitado de costas, ele chutou para cim a e sentiu os dois pés atingirem brutalm ente o abdom e e a virilha de Hadi. Isso fez o hom em desm oronar.

Niels se pôs im ediatam ente de pé, em bora a sua arm a tivesse deslizado pelo chão. Ele chutou Hadi m ais um a vez. Duas vezes. Um a vez no rosto. Enquanto ele estava no chão, gem endo, Niels tentou pegar as algem as. Na academ ia de polícia ele tinha sido treinado em caratê e j iu-j ítsu, m as aonde tinha ido parar todo aquele treinam ento, tão necessário agora? Rosenberg j á devia ter feito a ligação havia m uitos m inutos. O recado “Policial precisa de apoio” teria recebido a m ais alta prioridade na chefatura de polícia. Eles j á deviam ter chegado. Hadi tentou se arrastar até onde estava a arm a, m as Niels levou a m elhor. Ele pegou a arm a, m as quando se voltou... o outro tinha desaparecido.

Niels correu à procura dele. Desceu a escada, de dois em dois degraus. Mais escadas. Hadi estava de pé diante de um a porta, m exendo no ferrolho. Niels o alcançou. Eles chegaram à rua. Algum as m esas de café. Onde estava o seu apoio, diabo! Isso foi o que Niels pôde pensar antes de colidir com um a espécie de placa de publicidade e quase perder o equilíbrio. Bem na Strøget, congestionada de gente. Mas Hadi era o único que estava correndo.