O Último Homem Bom
Capítulo 18
15h31 – 10 minutos até o crepúsculo
Leon tinha ouvido m inutos antes no rádio da polícia: “Perua verde-escura atravessou um sinal verm elho na Praça da Prefeitura. Em alta velocidade. Está sendo perseguida a um a distância de poucos m etros por um carro da polícia”. Aquilo não tinha nada a ver com ele, m as ele se levantou e foi olhar pela j anela.
– Você é m édico? – perguntaram atrás dele. – Eu preciso de um a aj uda.
Leon j á ia corrigir o engano do paciente quando ouviu novam ente um com unicado no rádio: “Perua verde-escura sendo perseguida na Østersøgade. Estam os im pedindo a passagem na Fredensbro”. Um leve alarm e soou na cabeça de Leon. Dia de Natal. Não era um dia totalm ente norm al; na verdade tendia a ser um dia sonolento – a não ser por aqueles patriarcas fam iliares que insistiam em dirigir depois de terem bebido quatro cervej as natalinas e quatro doses de aguardente. No Dia de Natal era m uito incom um ver um carro em velocidade nas ruas escorregadias por causa da neve. Leon pegou o rádio.
– Albrectsen? Você está vendo a Fælledvej ?
A pergunta foi respondida de im ediato:
– Perfeitam ente. Tudo calm o.
Leon olhou pela j anela. A princípio não teve certeza. Mas quando viu outros carros desviando, avistou o veículo através da neve que caía. Janelas som breadas. Um a perua antiga. “Perua Citroën verde-escura prosseguindo pela ponte e rum ando para o Hospital Nacional.”
– Droga! – Leon ergueu a voz ao falar no walkie-talkie:
– Albrectsen! Você está prestando atenção a essa perseguição?
– Estou! Vou cobrir a entrada principal.
– Equipe dois! Vocês cuidaram da cobertura do acesso ao estacionam ento no subsolo? – Ele esperou a resposta. – Equipe dois? Jensen? – Sem resposta. – Albrectsen? Você está vendo a equipe dois?
– Não. Eles estavam aqui um m inuto atrás.
Leon ouviu as sirenes de dois carros de polícia em perseguição à perua.
– Droga! – Ele com eçou a correr enquanto gritava: – Albrectsen! Fique a postos m ais adiante na rua, assim você pode cobrir tanto a entrada do hospital quanto a da garagem .
Ele parou subitam ente. Não acreditou ao ver Niels se aproxim ar m ancando pelo corredor.
– Bentzon? O que é que você está fazendo aqui? Você não tinha de estar na cam a?
Niels estava apoiado em Hannah e ela se apoiava num a m uleta. Os dois form avam um casal e tanto.
– O que é que está acontecendo, Leon?
– Nada que sej a m otivo de preocupação para você. Está tudo sob controle.
Am bos ouviram o grito desesperado de Albrectsen no rádio: “Ela passou por m im ! A cam inho do estacionam ento!”
Leon com eçou a correr. Parecia um general na guerra.
– Ninguém vai sair daquela perua! Entenderam ?
– Nós precisam os ir, Hannah. – A voz de Niels estava fraca. A sim ples ação de sair da cam a havia praticam ente esgotado suas forças. E ele sentia as costas doendo.
– Não podem os, Niels. Mas que tal a cobertura? De lá de cim a nós terem os um a boa visão.
– Tudo bem . Onde é que fica o elevador? – Niels foi cam baleando para o elevador m ais próxim o. Ao passar por um a j anela olhou para fora. Um vento forte estava dobrando as árvores, que quase se partiam ao m eio. Alguns carros tinham hidroplanado nas ruas enlam eadas e, com o baleias encalhadas na praia, estavam em pacados nos grandes m ontes de neve, sem dúvida por terem tentado evitar um a colisão com a perua em alta velocidade. E por todo aquele cenário os últim os raios de sol estavam travando um a batalha perdida, tentando atravessar a neve e o lusco-fusco que se adensava. Os raios am arelos-averm elhados faziam toda Copenhague, os tetos, as ruas, o ar, parecer incendiada.
– Dia do Juízo Final – sussurrou Niels. – É isso que parece: silencioso, calm o e verm elho.
Ele viu um a perua escura correndo pela rua, virando com um guincho e descendo a ram pa em direção ao estacionam ento do hospital. A perua atingiu várias bicicletas estacionadas, que foram atiradas no ar.
– Vam os, Niels! – Hannah estava ao lado dos elevadores.
Niels foi ao encontro dela. Não podia tirar da cabeça a im agem da perua escura.
– Não para a cobertura – disse ele enquanto praticam ente caía no interior do elevador.
– É a nossa única chance, Niels. As saídas estão todas bloqueadas. É im possível. E o porão... você m esm o ouviu... está cheio de policiais.
– A entrada principal. Tem os de arriscar sair por lá. Só precisam os passar por eles. – Niels apertou o botão do térreo e então desm oronou.
– Niels! – Hannah sentou-se ao lado dele. – O que foi que aconteceu?
– Minhas costas. Estão queim ando... Quanto tem po eu ainda tenho? – Ele sentiu o gosto de sangue. – Minha boca. – Então desistiu.
– Vam os, Niels. – Ela tentou erguê-lo.
Niels ouvia Hannah falar, m as as palavras dela não tinham sentido. Ele estava sentado no chão do elevador, dobrado sobre si. A dor nas costas era insuportável. Ele sentia com o se as tivesse apoiado em carvão em brasa.
– Seu nariz está sangrando.
Com o se num transe, Niels ergueu a m ão até o nariz. Hannah tinha razão.
– Precisam os ir para a cobertura, Niels.
– Por quê? – balbuciou ele a custo.
– Só tem os m ais alguns m inutos.
– Eu vou m orrer, Hannah. E tam bém ...
– Não, Niels.
Ela tirou algum a coisa da bolsa.
– Vam os usar isto.
Ele fez um esforço e ergueu a cabeça.