O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 30 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 23

Sul da Suécia

Im pressões sensoriais perturbadoras. Prim eiro a aerom oça. Agora a neve do lado de fora da j anela do trem . Já fazia anos que Abdul Hadi vira neve pela últim a vez. Tinha sido quando ele e o irm ão foram esquiar pela prim eira e única vez no Líbano. Eles gastaram m etade da sua m esada na viagem de trem e no aluguel do m aterial de esqui. Ao descerem pela prim eira vez, am bos caíram . Seu irm ão m ais velho se feriu gravem ente. Não podia m ovim entar o braço e por vários dias Abdul Hadi foi forçado a aj udá-lo nas atividades m ais íntim as. Aj udá-lo a tirar a calça. Esse tipo de coisa. Eles não podiam pagar um m édico e ficaram envergonhados. Todo o dinheiro de que dispunham vinha do Iêm en, m andado pela fam ília. Destinava-se a pagar a sua educação, para que um dia eles pudessem assum ir a tarefa de sustentar os m em bros da fam ília.

Ele sentiu no seu om bro o peso de um a m ão.

Ao ver o uniform e do hom em , Abdul Hadi ficou nervoso. Quase em pânico. Olhou para os outros passageiros. A m ulher que estava ao seu lado pegou o bilhete e finalm ente ele entendeu o que o hom em queria.

– Desculpe – sussurrou ele em inglês.

O guarda perfurou o seu bilhete e seguiu em frente, em bora tendo virado a cabeça para trás duas vezes, sem pre fixando o olhar nos seus olhos nervosos. Abdul Hadi levantou-se, pegou a sacola e rum ou para o banheiro. Era esse tipo de incidente que podia pôr tudo a perder.

Ele puxou a m açaneta. O banheiro estava ocupado. Talvez fosse m elhor ficar no seu lugar. Talvez parecesse suspeito ele se deslocar. O condutor voltou, passando por Abdul Hadi sem olhá-lo. Só quando chegou ao final do vagão ele olhou apressadam ente por sobre o om bro enquanto falava com um colega. O colega se voltou para olhar para Abdul Hadi. Mas eles não tinham ideia de por que ele cham ara a sua atenção. Som ente perceberam que ele parecia nervoso e estava se com portando de m odo suspeito. Droga! Tudo porque ele tinha sido pego de surpresa. Porque o condutor tocara no seu om bro. E porque ele era árabe. Era por isso que o guarda estava cham ando a polícia. Abdul Hadi estava convencido disso. Ele faria o m esm o no lugar do hom em .

O trem estava desacelerando e um a voz anunciou que eles se aproxim avam de Linköping. Abdul Hadi lem brou que aquela era a única parada antes de Malm ö. A luz am arelada da estação de trem o fez lem brar o bazar de Dam asco. Mas a luz dura era a única coisa que evocava para ele as ruas antigas do Oriente Médio, com seus vendedores enfileirados. Ali ele viu poucas pessoas na estação lim pa e fria, com m uitas placas oferecendo inform ação. Tentou localizar o guarda. Precisava rapidam ente tom ar um a decisão. Alguns passageiros estavam desem barcando. Se ficasse no trem e a polícia chegasse, ele não teria nenhum a chance.

Era preciso sair. Então ele pulou do trem , agarrando a sacola com a m ão. Droga! A m ochila com as fotos da igrej a. E os explosivos. Estava tudo debaixo do seu assento no vagão. Ele quase pulou de volta no trem quando viu o guarda falando num celular enquanto o procurava. Durante um segundo eles ficaram olhando um para o outro, separados por um a distância de não m ais de dois m etros. O estúpido criado da lei, com um uniform e e um quepe. O hom em não tinha ideia do tipo de sociedade para cuj a preservação ele tanto m ourej ava. Um a sociedade construída cem por cento sobre a exploração dos outros, sobre o preconceito racial e o ódio.

Abdul Hadi se virou e correu. O guarda o viu e com eçou a gritar. Ele correu m ais ainda. Desceu a escada que levava para m ais abaixo dos trilhos e surgiu diante do prédio da estação. O trem não tinha deixado a plataform a. Ele precisava voltar. Por causa das fotos da igrej a. E dos explosivos. Do contrário seu plano seria descoberto.

Ele com eçou a correr de volta. Talvez pudesse pular na extrem idade do últim o vagão. Pegar sua m ochila e depois puxar o freio de em ergência para fugir.

Tarde dem ais. Abdul Hadi chegou à plataform a exatam ente quando o trem acabava de deixá-la.

 

Minutos de incredulidade aturdida. Segundos que pesavam sobre ele. E vergonha. Tudo estava arruinado. Ele havia fracassado. Abdul Hadi abriu a sacola para procurar sua agenda, onde anotara o núm ero do telefone do prim o. Àquelas alturas ele j á correra pela cidade até chegar ao outro lado, porque im aginava que estava sendo procurado. Dentro da sacola ele encontrou tudo revirado. Tirou vários pedaços de papel e viu que na verdade eram as fotos da igrej a. Ele não se lem brava de quando as tinha passado da m ochila para a sacola. Depois de algum tem po viu que nem tudo estava perdido. Em bora os explosivos j á estivessem fora do seu alcance, ele ainda tinha as fotos. Eles não saberiam quais eram as suas intenções; não conheceriam seu plano.