O Último Homem Bom
Capítulo 8
Silo de Carlsberg – Copenhague
A porta do elevador fechou com um gem ido suave e esperou a ação que Niels realizaria a seguir. Ele fez a m esm a coisa que sem pre fazia: introduziu a chave, girou-a e apertou “21”. Sentiu um débil zum bido no diafragm a quando o elevador com eçou seu diálogo com a gravidade. A sensação o levou a pensar em sexo. Já fazia m uito tem po.
Segundos depois a porta abriu e ele entrou no apartam ento. Algum hóspede que ele não convidara havia estado ali ou então ele esquecera a luz acesa. Provavelm ente a últim a hipótese era a certa, resolveu ele enquanto entrava na am pla sala. Estava tão vazia com o quando ele a deixara. E no entanto. Alguém havia estado ali. Um leve cheiro de... No dia seguinte ele teria de perguntar a Natacha, no andar de baixo. Ela tinha um a chave do apartam ento dele, para que os pedreiros pudessem entrar e sair. Tendo em vista que o prédio fora totalm ente rem odelado alguns anos antes, havia um a quantidade surpreendente de problem as com o sistem a de ventilação, com a fiação e os canos de gás.
A Carlsberg tinha construído o silo de onze m etros de altura para arm azenar m alte. Mas depois que a cervej aria real se fundira com as outras cervej arias o arm azém de m alte tornara-se dispensável. Na verdade Niels j á não se im portava m uito com cervej a. Com o tantas pessoas da sua idade e da m esm a faixa salarial, ele passara a beber cabernet sauvignon. E por que não tom ar m eia garrafa agora? Ou um a inteira? Ele devia com em orar ou lam entar? Com em orar que alguém tinha sobrevivido ou lam entar que alguém tinha m orrido? Ah, dane-se. Niels abriu a garrafa com um hum or ainda indeterm inado.
Eram quase duas da m adrugada m as ele não estava cansado. A chuva se arrem essava contra as grandes j anelas panorâm icas. Ele pôs os Beatles no som e aum entou o volum e para ouvir “Blackbird” no banheiro. Lavou os pés para lim par o sangue da m enina antes de se sentar diante do com putador, obedecendo a um ritual. Ele sem pre fazia isso quando chegava em casa. E quando se levantava, de m anhã. Hesitou antes de ligá-lo. Tinha saudade de Kathrine, era ruim não ter ninguém no apartam ento. Ficava m al-hum orado quando ela não estava lá.
Kathrine era sócia do escritório de arquitetura que tinha feito a rem odelação do silo transform ado em apartam entos de luxo. Ela queria com prar o m ais bonito do conj unto. Estava absolutam ente apaixonada por ele, disse ela. Niels tam bém tinha ficado im pressionado com o apartam ento. A altura elevada do edifício o atraía. Ali se tinha a m elhor vista de Copenhague. Naquela época o cheiro ainda perm eava toda a área sem pre que a cervej aria acendia as caldeiras. Depois a produção de cervej a havia sido transferida para m uito longe. Niels não tinha ideia de para onde ela fora. Talvez Ásia, com o tantas outras. Ele achava bom não sentir m ais o m au cheiro de ferm ento toda m anhã. Parecia que um velho bêbado estava respirando em cim a dele.
Niels olhou em torno de si na sala. Os dois sofás de designer um de frente para o outro. A m esinha de centro sólida, retangular. Um oco no granito averm elhado da m esa, onde eles podiam acender um foguinho. Bioetanol. Inodoro, e evaporava por com pleto, com o Kathrine tinha explicado a um Niels cético. Era realm ente lindo quando eles se sentavam ali com o brilho intenso do fogo na m esa. Ele ainda não tinha convidado ninguém da delegacia, em bora Kathrine sem pre insistisse para que ele o fizesse. “Convide os seus colegas!”, ela dizia frequentem ente. Mas Niels não podia fazer isso; nem podia dizer para Kathrine a razão dessa recusa: ele tinha vergonha. Não porque aquela vista da torre da cervej a tinha sido paga com o dinheiro de Kathrine – ele j á havia se acostum ado com essa ideia –, m as porque nenhum dos seus colegas seria j am ais capaz de com prar um apartam ento com o aquele. Um a vista panorâm ica de trezentos e sessenta graus. Se você fica na banheira de noite e a única luz vem das velas acesas, as cham azinhas m inúsculas cintilam sobre o m árm ore italiano e com petem com as luzes da cidade e as estrelas no céu.
Ele ligou o com putador, perguntando-se se Kathrine ainda estaria acordada. Que hora seria na Cidade do Cabo? Um a hora m ais tarde... três da m adrugada. Na lista de am igos virtuais Kathrine aparecia com o on-line, m as ela quase nunca desligava seu MacBook. Assim , nada garantia que ela estivesse acordada.
“Aonde vam os hoj e?”, perguntou-se Niels enquanto percorria a lista de am igos. Am anda, de Buenos Aires, estava on-line. E tam bém Ronaldo, do México. Ainda era noite alta para a m aioria dos europeus, por isso o nom e deles não constava na relação. Apenas o de Louis, de Málaga. Mas esse sem pre estava ali. Será que ele tinha um a vida longe da tela do seu com putador? Niels j á não se sentia tão doente ou anorm al desde que tinha descoberto a rede da internet. Um a rede global para pessoas que não podiam viaj ar. Pessoas que, em sua m aioria, não tinham nunca saído do seu país. A fobia assum ia m uitas form as diferentes. Niels havia conversado com gente que não podia nem m esm o sair da cidade em que vivia. Assim , eles com eçaram a se sentir m uito norm ais. Afinal de contas ele tinha ido a Ham burgo e Malm ö. E a Lübeck na lua de m el. O m al-estar físico só se m anifestara quando ele fora a Berlim . Kathrine um a vez o forçara a ir para lá, m as ele tinha passado todo o fim de sem ana trem endo e nauseado.
“Vai passar, vai passar” era a cantilena dela enquanto eles passeavam pelo Unter den Linden. Mas não passou. Ninguém entendia. Ninguém , fora as cerca de duzentas pessoas que estavam na sua rede. Ou pelo m enos parecia que elas entendiam . Porque não era um a fobia incom um . “Fobias de avião e viagens.” Niels tinha lido bastante sobre o tem a. Muitos estudos diziam que, em m aior ou m enor grau, m ais de um a em cada dez pessoas no planeta sofria com o problem a. Ele tinha tentado explicar a Kathrine o que sentia. Se se afastasse m ais de uns duzentos quilôm etros de casa, todo o seu sistem a sim plesm ente parava de funcionar. Prim eiro a sua digestão. Ele não conseguia com er nada. Por isso não podia ficar fora m ais de um fim de sem ana. Depois que seus intestinos paravam de funcionar, com eçava a dificuldade de respiração. Em Berlim seus m úsculos tinham ensaiado um protesto. Niels sabia que essa fobia era a razão da sua tendência a se deprim ir, a se sentir gelado. Por não poder viaj ar, parecia às vezes que tinham am arrado à sua cintura um pesado bloco de cim ento. Durante outros períodos ele sentia um a onda de energia. Via o lado positivo da vida – e era então que as pessoas achavam que ele era louco.
Oi, Niels!!! Com o é que estão as coisas em Copenhague?
Era Am anda, da Argentina. Tinha vinte e dois anos. Estudava na academ ia de arte e não saía de Buenos Aires havia quinze anos. Sua m ãe m orrera num desastre de avião quando ela estava com sete anos, o que indicava um a provável explicação psicológica para a sua fobia de viaj ar. Para m uitos outros não havia explicação óbvia. Pelo m enos um a explicação que fosse do seu conhecim ento. E tam pouco para si m esm o. Ele j á havia tentado tudo. Psicólogos. Hipnose. Mas não surgira nenhum a explicação. Sim plesm ente ele não conseguia viaj ar.
Oi, Linda. Aqui está m ais frio do que onde você está.
Niels se arrependeu por ter escrito “Linda”. Isso o fazia parecer velho. Mas Am anda era realm ente linda. Ele olhou para a foto do seu perfil virtual. Olhos am endoados, cabelo preto e grosso, lábios cheios. Ela não econom izara no batom verm elho ao tirar a foto.
A resposta de Am anda na parte inferior da tela:
Bem que eu gostaria de estar aí para te aquecer.
Niels sorriu. Ali todo m undo flertava m uito. Meu Deus! Um as duzentas pessoas que nunca se encontrariam . E que ansiavam profundam ente, todas elas, por sair do país. Trocavam fotos da sua cidade natal, relatos pessoais, receitas. Niels tinha postado um a receita dinam arquesa antiga de um patê de fígado para quem quisesse usá-la. Foi um sucesso. Ele fez a receita de paella do seu am igo Louis enquanto ouvia m úsica espanhola tocada num a guitarra de doze cordas – m andada tam bém por Louis. Era quase com o estar lá. Isso era o que havia de bom naquele chat. Ele era dedicado a tudo o que eles não podiam fazer: falar uns com os outros sobre si m esm os, sobre o seu país, a sua cultura. Por m eio dos outros eles experim entavam o m undo.
Niels trocou alguns com entários banais com Am anda e então ela precisou ir para a escola. Prom eteu fazer um a foto da escola e da escultura em que estava trabalhando.
Tchau, Niels. Bonitão, escreveu ela, e se foi antes que ele pudesse responder.
Ele j á ia desligar quando o rosto de Kathrine apareceu na tela.
– Niels?
A tela trem eu um pouco. Com o se precisasse de um m om ento para sincronizar com um correspondente africano.
– Ainda não foi dorm ir? – A voz dela parecia ligeiram ente cansada.
– Acabei de chegar em casa.
Ela acendeu um cigarro e sorriu para ele. Fum ar era algo que eles tinham em com um . Já que não podiam ter filhos. Niels percebeu que ela estava m eio alta.
– Dá para notar que eu andei bebendo? – perguntou ela.
– Não. Acho que não. Você saiu?
– Você pode desligar os Beatles? Quase não estou ouvindo o que você diz.
Ele desligou a m úsica, aj ustou a im agem na tela e a estudou.
– Algum problem a? – indagou ela.
– Não. Nenhum .
Ela sorriu.
Niels não queria falar com ela sobre o que havia acontecido naquela noite. Não havia razão para com partilhar o sofrim ento; era o que ele sem pre tinha achado. Ele detestava quando alguém contava histórias horríveis sobre crianças doentes ou m ortas. Afogam entos, acidentes de carro, calam idades... Por que as pessoas precisavam ouvir aquilo?
Katherine aj ustou a câm era. Estava sentada no m esm o quarto de hotel. No fundo ele via algo com um brilho fraco. Seria a cidade atrás dela? O luar deslizando sobre a m ontanha da Mesa? Ou talvez sobre o cabo da Boa Esperança? Aqueles pontos brilhantes seriam de navios que deixavam atrás de si o oceano Índico?
– Eu falei com você sobre o Chris e a Mary lou? O casal de arquitetos am ericanos que acabou de chegar aqui? Eles são feras. Um deles até trabalhou com o Daniel Libeskind. Bom , eles tinham um pequeno aquecedor... Você vai conhecer os dois ainda nesta sem ana. Eles nos convidaram para o sábado.
Ela lhe dirigiu um olhar de incentivo.
– Estou esperando ansiosam ente.
– Você tom ou as pílulas?
– Tom ei. Claro que tom ei.
– Posso ver a caixa?
Niels se levantou e foi até o banheiro. Quando voltou, Kathrine tinha tirado a blusa e estava ali sentada só de sutiã. Niels sabia perfeitam ente bem o que passava pela cabeça dela.
– Está fazendo calor aí? – perguntou ele provocando-a.
– Está ótim o, Niels. O m elhor clim a do m undo. E você vai adorar o vinho tinto deles. Mostre as pílulas.
Ele segurou a caixa na altura da câm era.
– Um pouco m ais perto.
Ele aproxim ou m ais o rem édio. Kathrine leu em voz alta:
– “Diazepam . Cinco m iligram as. Sedativo para o m edo de voar”.
– Allan tem um am igo que usou isso e deu m uito certo – disse Niels.
– Allan?
– Da equipe da polícia de elite.
– Achei que você era o único policial que não podia voar.
– Eu não tenho problem a com o voo. Para m im o que é difícil é estar em outro lugar.
– E qual é a diferença? Tom e as pílulas. Tom e duas enquanto eu fico olhando você.
Niels riu e balançou a cabeça. Pôs duas pílulas na língua.
– Saúde!
– Engula, am or.
Depois que ele engoliu as pílulas com m eio copo de vinho tinto o hum or de Kathrine m udou, exatam ente com o ele havia previsto.
– Vam os brincar?
– É isso que você quer?
– Você sabe que é. Pare de m e chatear. Tire a roupa.
Kathrine estava na Cidade do Cabo havia seis m eses. No com eço ela não queria ir. Ou m elhor: fingia que não queria ir. Niels conhecia bem esse j ogo. Tinha percebido desde o início que a relutância dela se relacionava sobretudo com ele e com a sua reação: o que ele iria dizer se ela fosse?
Finalm ente, quando a decisão foi tom ada, Niels experim entou um a ótim a sensação de alívio. Não porque estivesse feliz com a ideia de ficar longe de Kathrine por um ano inteiro, m as porque a incerteza tinha acabado. De vez em quando ela viaj ava, e quando essas viagens se aproxim avam – Niels nunca lhe havia dito isso – ele j á se pegara ansioso por ficar sozinho. Ele não sabia explicar a razão disso, porque tinha consciência de que a solidão lhe pesaria m uito. Na últim a noite eles tinham tido um a briga terrível antes de transarem no sofá. Depois Kathrine chorara, dizendo que não podia deixá-lo. Ela ia ligar para o seu chefe cancelando tudo. Mas claro que isso não aconteceu.
Eles se despediram de m anhã bem cedo quando ele se sentou no carro. O ar estava pesado com um a chuva invisível. Niels se sentia com pletam ente exaurido. Seus olhos flutuavam . Sentiu os lábios quentes e m acios de Kathrine quando ela se inclinou para beij á-lo, e não entendeu direito o que em seguida ela sussurrou no seu ouvido. Durante todo o dia, depois da despedida, perguntou-se o que exatam ente ela dissera. Se não voltarmos a nos ver... Ao m esm o tem po ele sentia, sem poder explicar o porquê disso, que não ter ouvido o resto da frase era m elhor para ele.
– Vire de lado para eu poder ver você – disse Kathrine.
Quando Niels olhou de novo para a tela, Kathrine tinha avançado além dele. Estava nua na cadeira e a havia afastado um pouco para que Niels pudesse ver tudo o que estava perdendo.
– Vá devagar, am or. Você está tão bem . Eu quero aproveitar – disse ela.
Quando se tratava de sexo, Kathrine era de outro planeta. Um planeta onde o sexo não se ligava a vergonha, constrangim ento ou certa tim idez. Pelo contrário. Niels tinha nascido com os atributos certos: alto sem ser m agricela, com pacto sem parecer um buldogue. Os pelos do peito estavam grisalhos; Kathrine adorava isso e havia observado ansiosam ente a transform ação. Mas antes de encontrá-la, seu corpo era um a coisa ligada à cabeça e ele só fazia o que seu cérebro ordenava. Kathrine lhe ensinara que seu corpo tinha vontade própria, seus desej os próprios. E quando se tratava de sexo as ordens seguiam na direção oposta. Agora o seu corpo m andava recados para a sua cabeça sobre o que ele queria. E Niels tinha de obedecer.
– Vire. Eu quero ver a sua bunda quando você tirar a calça – ordenou ela.
Niels ficou de costas para a câm era e lentam ente deixou o j eans cair, do j eito que ele sabia que ia agradá-la. Ele olhou para baixo. Hum m – era surpreendente, na verdade –, ele não esperava ver nenhum a vida ali em baixo depois de tudo pelo que tinha passado naquela noite. Mas por que não? Sexo e m orte. Desejo e medo.
– Deixe eu olhar para você, am or – sussurrou Kathrine na Cidade do Cabo.