O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 106 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 3

A Ponte do G rande Belt

Niels se lem brava de quando a ponte sobre as águas do Grande Belt foi inaugurada, em 1998, ligando as ilhas dinam arquesas de Sj ælland e Fy n. Kathrine tinha ficado colada à tela da televisão, assistindo com invej a à cerim ônia, fascinada por aquela m onstruosidade de m ais de dezoito quilôm etros que se estendia a perder de vista. Ela sabia os núm eros: setenta m etros até a superfície da água. Entre os dois pilares de duzentos e cinquenta m etros de altura, um a distância de m il e quinhentos m etros. Os suportes eram dezenove, cada um pesando seis m il toneladas. Niels não com partilhava do entusiasm o dela. Achava que a ponte era um desperdício de dinheiro. E, pior ainda, significava a m orte das balsas. A perda de um a oportunidade de encontrar pessoas, conversar com cam inhoneiros e políticos de todo tipo e de todas as partes do país. Kathrine queria proj etar um a ponte por dia. Às vezes ela passava noites inteiras navegando na internet, adm irando a Golden Gate, o Ponte Vecchio, Karlsbroen, Akashi Kaiky ō e a South Congress Bridge de Austin, de onde todo entardecer um m ilhão e m eio de m orcegos voavam para buscar com ida. Ela disse para Niels que ele não tinha razão quanto à Ponte do Grande Belt. Na sua opinião a ponte ia ligar as pessoas. Levá-las a conversar um as com as outras.

Niels observou o tráfego que se concentrava em torno das m áquinas de pedágio, no pé da ponte. Ninguém estava conversando. As pessoas passavam m ais apressadas do que nunca enquanto o sol subia sobre o m ar.

A Ponte do G rande Belt

Sábado, 19 de dezembro

Os raios do início da m anhã coloriam a água de alaranj ado. A fila de carros no pedágio não saía do lugar fazia pelo m enos dez m inutos. Hannah estava dorm indo. Niels olhou para ela. Um a expressão tranquila, sem som bra de preocupação. Um trem or quase im perceptível sob as delicadas pestanas. Ela estava sonhando.

Finalm ente ele chegou ao posto de pedágio.

– Bom dia. – Niels entregou para o hom em o cartão de crédito.

– Cuidado. Há trechos com pista escorregadia.

– Obrigado.

Niels conduziu o carro para a ilha de Fy n.

– Niels? – Hannah estava sem iacordada. Parecia grogue.

– Continue dorm indo.

Ele ligou o rádio. Música de Natal. Depois m ás notícias, ligadas principalm ente à conferência sobre o clim a. O governo estava dizendo que a reunião havia sido um enorm e sucesso, m as para os partidos de oposição ela fora um desastre. Os chineses eram uns canalhas. Quanto a isso todos concordavam . Um político declarou: “Era com o se os chineses achassem que estavam num planeta diferente de todos os dem ais. Senão, por que eles estariam tão indiferentes quanto ao clim a?” Passando para outros tópicos: um político exigia reform a tributária, outro se queixava de fraude com gêneros alim entícios; com bates na fronteira de Gaza; vazam ento de óleo na costa do Canadá. Não era isso que Niels estava procurando. Quando ouviu o boletim de notícias, levou um tem po para saber de quem o locutor estava falando. “Parece dinam arquês, um m etro e oitenta e cinco de altura, usa j eans e paletó escuro. Considerado perigoso.” A últim a palavra im pressionou particularm ente Niels. Ele j á fora cham ado de m uitas coisas na vida – ingênuo, covarde, diplom ata, vago, distante, esperto, idiota, m aníaco-depressivo –,m as nunca o haviam cham ado de perigoso.

 

“Perigoso.” A palavra o perseguiu por m uitos quilôm etros enquanto ele dirigia na autoestrada. Ele aum entou a velocidade ao se pegar lançando olhares paranoicos no espelho retrovisor. Alguém teria visto seu carro quando ele fugira do posto de saúde com unitário? Niels recapitulou m entalm ente a cena. De início ele estava convencido de que não tinha havido testem unhas, fora o hom em que o descobriu dentro do prédio. E este não podia ter visto o carro. Depois ele com eçou a ter dúvidas. O hom em teria se levantado e ido até a j anela? Teria reagido tão rapidam ente que conseguira ver a placa do carro? Niels não sabia com certeza. Ele não tinha certeza de nada, fora o fato de estar se sentindo m al com relação a toda aquela situação. Ao sair da rodovia e rum ar para um a estrada secundária ele j á estava quase certo de se lem brar de ver o hom em de pé na j anela. Niels havia vislum brado a sua silhueta. Se ele chegara a anotar a placa do carro, a polícia não levaria m uito tem po para pegá-los. Um as poucas horas, no m áxim o. Especialm ente por Niels ter sido rotulado de perigoso. Ele sentia as pernas dorm entes; precisava sair e espichá-las. Resolveu m andar tudo às favas – ele encontraria algum lugar para parar. Decidiu não contar para Hannah que a polícia os estava procurando.

Eles acabaram parando à beira-m ar, num pequeno porto. Talvez o porto de Kertem inde.

Hannah acordou quando ele parou o carro.

– Onde é que nós estam os?

– Bom dia. Vam os tom ar café. E parar um pouco para pensar.

Hannah se espreguiçou com um a expressão de agrado. Niels não sabia se era a ideia do café que a fazia feliz ou a de pararem para pensar.

Eles encontraram um pequeno prédio portuário com um quiosque. Hannah ficou esperando lá fora enquanto Niels foi pegar o café. A m oça do quiosque olhou desconfiada para ele. Ou talvez ele estivesse im aginando aquilo. Era norm al a polícia notificar os postos de gasolina sobre pessoas que estavam sendo procuradas. Mas um quiosque com o aquele m ereceria esse trabalho? A m oça j á teria recebido um a descrição dele, que estaria guardada sob o balcão? Ou ela a teria visto no laptop que estava ao lado da j anela? Niels olhou para ela. Ela estava olhando para ele e tentando avaliar a sua altura? Seu peso? Niels tentou relaxar, retirar a tensão dos om bros e do rosto. O resultado – ele tinha consciência disso – foi ele parecer um robô neurótico. Ao deixar o quiosque ele im aginou a m oça correndo para ligar para o posto policial m ais próxim o. Ele afastou da sua m ente esse pensam ento e foi encontrar Hannah.

– Não acredito que a gente tenha viaj ado até tão longe – disse ela parecendo cansada.

– Você dorm iu um pouco? – Ele lhe entregou a xícara com café.

– Um pouquinho. – Ela m oveu a cabeça de um lado para outro a fim de dim inuir a rigidez da nuca.

– Está frio dem ais para ficar aqui?

– Não, está bom .

Eles olharam para a água. Dentro em pouco as nuvens de vapor na superfície se converteriam em m inúsculos cristais e toda a baía congelaria. Niels ligou o celular. Nenhum a m ensagem .

– Eu tive um colega no instituto – disse Hannah olhando alguns pescadores que se preparavam para zarpar no seu barco. Um deles acenou. Ela acenou de volta. – Ele achava im possível dizer não. Era com o se no vocabulário dele não existisse essa palavra. Sem pre que alguém lhe pedia para fazer algum a coisa, ele dizia sim . – Ela se calou. – Isso se tornou um problem a para ele, porque depois de algum tem po ele sim plesm ente não conseguia m ais dar conta do recado. Era im possível fazer tudo o que ele tinha concordado em assum ir. Com issões, reuniões, conferências, relatórios. E no final... – Ela se virou para olhar Niels nos olhos. – No final as pessoas ficaram contra ele.

– Aonde você quer chegar?

– A bondade é um problem a, Niels. É nisso que eu quero chegar. A bondade dele se tornou um problem a para todo o instituto. Nós logo com eçam os a fazer reuniões sem ele. Só para poupá-lo, pois assim ele não desapontaria nem a si m esm o nem a nós. Você está entendendo?

– Acho que não.

– O que é que significa ser bom , Niels?

Ele fez com a cabeça um sinal negativo enquanto estudava o cascalho no chão.

Hannah prosseguiu:

– A filósofa Hannah Arendt escreveu sobre a banalidade do m al. Ela acha que a m aioria das pessoas tem o m al adorm ecido dentro de si. Basta as condições certas, ou m elhor, erradas, aparecerem e esse m al é liberado. Mas e quanto à bondade? A banalidade da bondade. Quando penso no m eu colega e em você, eu quase poderia lhe dizer que vocês não têm livre arbítrio. Não escolhem . Vocês são bons. Assim , isso significa que a bondade continua sendo boa?

– Hannah.

– Não, espere um pouco. Isto é im portante: você não escolheu ser bom . No nosso entendim ento de bondade e boas ações, acham os, do ponto de vista existencial, que tem os um a escolha. Mas você não tem . Pense na história de Jó! Você faz parte de um quebra-cabeça m aior, e alguém – ou m elhor, alguma coisa – estabeleceu as regras do j ogo. O que é paradoxal na história de Jó é que não há ninguém em quem Deus pense m ais do que nele, em bora lhe tire tudo. Com todos vocês acontece a m esm a coisa. Com você pessoalm ente, Niels. Tam bém lhe tiraram o livre arbítrio, a possibilidade de agir livrem ente.

– Pare agora!

– Dizem que hoj e a m aioria dos prisioneiros tem transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Diversos graus de autism o. Distúrbios neuropsicológicos que só estam os com eçando a conhecer. E se nós tiverm os m uito m enos controle sobre a nossa vida do que im aginam os? E se a m aioria das nossas ações for biologicam ente determ inada?

– Hannah! É m uito difícil esquecer tudo se você não para de falar sobre o problem a. Nós estam os de férias. Certo?

– Tudo bem . – Ela estava sorrindo.

– Vam os continuar.

Eles voltaram para o carro e entraram . Sentaram -se, desfrutando a proteção contra o vento gelado. Niels j á ia dar partida no m otor quando Hannah disse:

– O que é aquilo? – Ela estava olhando para trás.

– Onde?

– Atrás de nós. Estão vindo na nossa direção.

Ele olhou. Dois policiais. Um deles inclinado para a frente e dando pancadas na j anela.