O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 124 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 10

23h22, quinta-feira, 24 de dezembro

Talvez Hannah tivesse sonhado. Ela abriu os olhos. Sabia que havia estado dorm indo, pelo m enos. Olhou para si, para a m ão que teim osam ente agarrava um papel. Nom es, sites da internet recom endados por Agnes, para ela visitar quando estivesse m elhor. YouTube: Dr. Bruce Grey son falando nas Nações Unidas; tam bém no YouTube: Dr. Sam Parnia no MSNBC.

Era real. O estudo de experiências de quase m orte estava sendo realizado em todo o m undo. Hannah tinha visto a prova. Prova de que a consciência podia existir separada do corpo. Hannah era a prova.

Ela queria voltar. Era a única coisa de que tinha certeza. Voltar para o lugar onde sua consciência existia fora do corpo. O lugar onde ela poderia encontrar Johannes. Os pensam entos ricocheteavam dentro do seu cérebro, que durante todos aqueles anos tinha conseguido m anter intacta um a inteligência problem ática. Um a inteligência que a tornara um a estranha para a sua fam ília, para os am igos, para a própria vida, e que encontrou seu prim eiro lar no Instituto Niels Bohr. Aquele foi um período bom . Sobretudo no com eço, antes da entrada de Gustav em cena. Eles não deviam ter tido um filho. Era um a desvantagem grande dem ais para um a pessoa suportar. E “desvantagem ” era a palavra certa. Ter um a tal sobrecarga de inteligência era um a desvantagem , não havia dúvida quanto a isso. Ela absolutam ente não se incom odaria de deixar o m undo para trás.

Então tudo se encaixou. Com o um a equação. Valores que pareciam inconciliáveis se uniram diante dos seus olhos. Hannah estava deitada na cam a agarrando o papel com os nom es de cientistas am ericanos e ingleses enquanto recapitulava todos os elem entos: Johannes. O suicídio dele. Consciência. Niels. O sistem a. O trinta e seis. Ela sabia que precisava continuar, tinha de deixar seu corpo.

E ela sabia com o Niels podia ser salvo.

– Isso é m uito ruim ? – m urm urou ela para si m esm a enquanto erguia as cobertas para ver seu corpo ferido. Ela não sabia. Estava quase tudo coberto por ataduras. Talvez fosse por causa das decorações de Natal que algum a enferm eira esforçada tinha dependurado no quarto, ou talvez fosse a quím ica que lhe haviam adm inistrado, m as quando ela se olhou teve a im agem pueril de um presente de Natal. Se a envolvessem com um a fita, ela estaria pronta para ser posta sob a árvore.

Hannah tentou girar as pernas para fora da cam a, m as elas resistiram .

– Ora!

Tentou novam ente. Dessa vez pôs no esforço toda a sua energia. O suor frio que porej ou na sua pele seguiu-se à dor: na nuca, descendo pela coluna, até as coxas. Ela persistiu e tirou as pernas da cam a. Ficou quieta. Depois, com um m ovim ento rápido, tirou o soro da m ão. Sentiu o sangue m orno descer por entre os dedos e apertou a outra m ão sobre a picada para estancar o fluxo. Depois se encam inhou para a porta.

Até m esm o o Hospital Nacional estava econom izando energia. A luz só acendeu quando Hannah passou capengando diante de um sensor. Um a enferm eira apressada cruzou com ela no final do corredor. Fora isso a ala estava deserta. Hannah andava com m uita dificuldade. Tinha a im pressão de que puxavam a sua panturrilha; era com o se o chão estivesse tentando se apoderar da sua perna. Ela não tinha ideia da sua localização no prédio do hospital. Dois m édicos vinham na direção dela. Hannah abriu a porta de um a sala e entrou, fechando a porta atrás de si. Ficou esperando.

– Você veio rápido. – A voz assustou Hannah.

Um a m oça de uns vinte anos estava deitada num a cam a hospitalar. Tinha o pescoço engessado e falava com dificuldade.

– Estou com m uita dor. Foi por isso que eu toquei a cam painha.

Hannah se aproxim ou. A m oça havia seguram ente quebrado o pescoço, porque não conseguia m anter a cabeça erguida.

– Eu não sou enferm eira. Sou paciente aqui, com o você.

– Você está perdida?

– Estou.

Elas olharam um a para a outra tentando encontrar o que dizer para dar um sentido àquela situação.

– Fique boazinha. Eu espero que você m elhore – disse Hannah, e em seguida saiu. Quando fechou a porta sentiu o desapontam ento da m oça espetando a sua nuca. Mas não havia tem po. Era preciso encontrar Niels.

– O que é que você está fazendo aqui?

Hannah havia trom bado com um a enferm eira.

– Você devia estar na cam a. – A m ulher tentou ser am ável m as a irritação e o cansaço estavam logo abaixo da superfície.

– Eu preciso encontrar... – Hannah percebeu que estava apertando a m ão da enferm eira. Com o estava se apoiando nela, se a m oça a soltasse ela cairia.

– Não, você precisa ficar na cam a. Você sofreu um grave acidente de carro e o repouso é im portante para a sua recuperação.

– Eu tenho de encontrar o Niels. Você precisa m e aj udar.

Hannah se soltou. Ela não soube onde encontrou a força para isso, m as conseguiu se arrem essar pelo corredor. Ouviu a enferm eira gritar atrás dela:

– Alguém m e aj ude aqui!

Hannah caiu. Quando a enferm eira a alcançou, ela a agrediu. Não foi um golpe forte, m as sua m ão atingiu a face da enferm eira. De todas as direções surgiram pessoas de j aleco branco. Hannah não tinha ideia do lugar de onde elas podiam ter vindo, do lugar onde elas estariam um m om ento antes.

– Ela m e bateu. – A enferm eira estava prestes a chorar.

Hannah foi vigorosam ente levantada. Estendeu o braço, tocou a m ão da enferm eira e sussurrou:

– Desculpe. – Ela ficou sem saber se a m ulher a havia ouvido ou não.

Puseram -na de volta na cam a. Com um novo soro. Hannah tentou afastá-los.

– Tirem as m ãos de m im !

Vozes tranquilizadoras entoaram : Descanse, vai ficar tudo bem, fique calma.

– Me larguem ! – gritou ela. – Niels! Niels!

Ela ouviu um eco na sua voz e ficou sem saber se apenas tinha sonhado tudo aquilo.