O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 3 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 1

Templo Yonghegong – Pequim, China

Não foi o abalo da terra que o acordou. Ele estava acostum ado a isso. O m etrô corria bem em baixo do Tem plo Yonghegong, am eaçando constantem ente derrubar as construções do tem plo de trezentos e cinquenta anos no centro da capital chinesa. Ele acordou porque alguém ou algo tinha estado inclinado sobre ele enquanto ele dorm ia. Estudando-o. Isso era evidente.

O m onge cham ado Ling sentou-se na cam a e olhou em torno. O sol estava se pondo. Por causa da dor ele tinha ido cedo para a cam a.

– Tem alguém aí? – A dor continuava m udando de lugar. Ele não sabia dizer se o que doía eram suas costas, o estôm ago ou o peito. Ouvia os m onges j ovens conversando no pátio do tem plo. Os últim os turistas ocidentais estavam indo em bora.

Ling enfrentou a dor e se levantou. Ainda tinha a im pressão de que havia alguém no quarto, m as ele não viu ninguém . Não encontrou as sandálias, então cam baleou descalço pelo chão de pedra. Fazia frio. Talvez eu estej a tendo um AVC, pensou. Tinha dificuldade em respirar. A língua estava inchada e seu andar era instável. Por um m om ento ele quase perdeu o equilíbrio, m as sabia que precisava ficar ereto. Se caísse, nunca m ais se levantaria. Respirou fundo e então sentiu que sua traqueia e os pulm ões pareciam estar queim ando.

– Me aj udem – tentou gritar. Mas sua voz era m uito fraca e ninguém o ouviu. – Me aj udem .

Ling entrou num corredor estreito e úm ido e passou para outro quarto. Raios de sol alaranj ado se filtravam pela claraboia. Ele olhou para o seu corpo. Nos braços, na barriga ou no peito não havia nada diferente. Um a dor lancinante o fez sentir-se fraco. Fechou os olhos, abriu m ão da resistência e desapareceu num a escuridão infinitam ente desagradável. Então teve um m om ento de paz. A dor vinha em golpes breves, sem pre m ais forte que a anterior.

Suas m ãos estavam trêm ulas quando ele abriu a gaveta e com eçou a rem exer dentro dela. Finalm ente encontrou o que procurava: um espelho pequeno, de bolso. Olhou seu rosto no espelho. Um rosto cheio de m edo. Ele baixou um pouco a tanga e segurou o espelho para poder dar um a exam inada na parte inferior das costas. O que viu o deixou sem fôlego.

– Meu Deus – sussurrou, deixando cair o espelho. – O que é isso?

A única resposta que teve foi o som do espelho espatifando-se no chão.

 

O antiquado telefone público na parede não parecia absolutam ente um m eio de salvação, m as era sua única chance. Ele se arrastou até lá. Outra onda de dor o fez parar. Parecia durar um a eternidade. Abriu os olhos e olhou para o telefone público, ao qual tanto se opusera quando da sua instalação. As autoridades o haviam exigido por causa dos turistas visitantes – caso algo acontecesse a algum deles era preciso haver um m odo de pedir aj uda. Pela m esm a razão o núm ero do telefone de em ergências estava im presso na parede em letras grandes e ao lado havia um pote cheio de m oedas. Ling estendeu o braço e tentou chegar ao pote. Conseguiu segurar a borda, m as perdeu o equilíbrio e foi forçado a derrubá-lo para se apoiar na parede. Pedaços de cerâm ica e m oedas se espalharam pelo chão. Ling hesitou. A sim ples ideia de se inclinar lhe pareceu inconcebível. Será que um dos seus últim os feitos na terra seria se inclinar para pegar as m oedinhas brilhantes a que ele havia passado a vida renunciando? Mas ele ainda não queria m orrer, e com os dedos trêm ulos pegou um a m oeda, encaixou-a na fenda e apertou os três núm eros im pressos na parede. Então esperou.

– Responda, responda – m urm urou com dificuldade.

Finalm ente ouviu um a voz fem inina dizer:

– Pronto-socorro.

– A senhora precisa m e aj udar!

– Qual é a em ergência? De onde o senhor está ligando? – A voz do outro lado da linha era calm a e sossegada. Quase robótica.

– Eu estou queim ando. Estou...

Ling ficou em silêncio e se virou. Havia alguém ali; ele tinha certeza disso. Alguém o estava observando. Esfregou os olhos, m as isso não adiantou. Ele não via ninguém . Quem estaria fazendo isso com ele?

– Preciso saber onde o senhor está – disse a m ulher.

– Me aj ude... – A cada palavra que ele falava, um a punhalada de dor lhe subia das costas pela garganta até a boca e a língua inchada.

A m ulher o interrom peu; a voz era de um a pessoa bondosa m as firm e.

– Com o o senhor se cham a?

– Ling. Ling Zedong. Eu... Me aj ude! Minha pele... está queim ando!

– Sr. Ling... – Agora ela parecia im paciente. – Onde o senhor está?

– Me aj ude!

Ele se calou de repente. Sentiu que algo dentro de si havia desm oronado. Com o se o m undo em torno dele tivesse recuado um passo, deixando-o num estado de irrealidade. Os sons desapareceram . As explosões de riso do pátio tinham cessado. A voz no telefone tam bém . O tem po parara. Ele se viu num novo m undo. Ou no lim iar de outro m undo. Saía sangue do seu nariz.

– O que está acontecendo? – sussurrou. – Está tão silencioso.

Nesse instante ele deixou cair o telefone.

– Alô? – disse a voz robótica no fone que balançava pendurado na parede. – Alô?

Mas Ling não ouviu. Deu uns poucos passos cam baleantes em direção à j anela e olhou para os três copos que estavam no peitoril. Um deles tinha água. Talvez água fosse bom . Estendeu a m ão, m as não conseguiu pegar com firm eza o copo, que caiu no lado de fora e se espatifou nas pedras do pátio.

Os m onges que estavam lá fora olharam para cim a. Ling tentou fazer um sinal para eles. Viu seus lábios se m exerem , m as não ouviu nada.

Sentia o sangue lhe escorrer do nariz, até m esm o provava o seu gosto.

– Meu Deus – resm ungou ele. – O que é que está acontecendo com igo?

Parecia-lhe que estava prestes a se apagar. Com o se tivesse se reduzido a um a peça de xadrez do sonho de alguém , alguém que logo iria acordar. E ele não podia fazer nada para com bater aquilo. Os sons em torno de si haviam desaparecido. Ele caiu de costas e olhou para cim a. Estava envolto em silêncio. Então sorriu e ergueu a m ão no ar. Onde um m om ento atrás estava o teto havia agora um a vista desim pedida das prim eiras estrelas pálidas no céu noturno.

– Está tão quieto – m urm urou ele. – Vênus. E a Via Láctea.

 

Os outros m onges chegaram correndo no quarto e se inclinaram sobre ele. Mas Ling não os viu. Sua m ão caiu lentam ente. Ele estava sorrindo.

– Ele tentou usar o telefone. – Um dos m onges estava de pé com o fone na m ão. – Para cham ar o pronto-socorro.

– Ling! – Um dos m onges, o m ais novo, quase um garoto, tentava se com unicar com ele. – Ling. Você está m e ouvindo? – Sem resposta. O j ovem olhou para os outros. – Ele está m orto.

Ninguém disse palavra. Todos abaixaram a cabeça. Muitos tinham lágrim as nos olhos. O m onge m ais velho rom peu o silêncio.

– Cham em Lopön. Nós não tem os m uito tem po.

Um outro ia despachar o garoto, m as o m onge m ais velho o deteve.

– Não. Vá você m esm o buscar o Lopön. O garoto nunca viu isso antes. É m elhor ele ficar aqui e ver.

O m onge saiu correndo, e o garoto olhou para o m onge m ais velho.

– O que é que vai acontecer? – indagou ele ansioso.

– Phowa. Vam os m andar a alm a dele seguir em frente. Lopön chegará aqui dentro de um m inuto.

– Phowa?

– Phowa aj uda a alm a a seguir em frente. Ela atravessa o corpo e sai pela cabeça. Tem os apenas alguns m inutos para fazer isso.

– O que vai acontecer se não fizerm os isso a tem po?

– Vam os fazer. Lopön é rápido. Venha m e aj udar. Ele não pode ficar aqui no chão.

Ninguém se m exeu.

– Vam os levantá-lo.

O garoto segurou as pernas de Ling. Outros dois m onges acorreram para aj udar.

Eles o ergueram e o colocaram na cam a, deitado de lado. Quando o m onge m ais velho tentou virá-lo para que ele ficasse de costas, viu algo.

– O que é isso? – perguntou ele.

Os outros se aproxim aram para ver o que havia.

– Olhem . Aqui, nas costas.

Todos se inclinaram sobre o m onge m orto.

– O que é isso? – indagou o garoto.

Ninguém respondeu. Eles sim plesm ente ficaram ali em silêncio, olhando para a m arca estranha nas costas de Ling, espalhada de um om bro ao outro e alongando-se no m eio pela sua coluna. Com o um a tatuagem ou um a queim adura.

Ou com o se suas costas tivessem ardido em fogo.