O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 71 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 61

Ospedale Fatebenefratelli – Veneza

Tom m aso di Barbara se encostou na parede. O sol tinha desaparecido novam ente. Ele era a única pessoa na varanda da casa de repouso, m as outros fum antes tinham estado ali antes dele. Na m esa de plástico branco havia dois cinzeiros com tem as bíblicos pintados nas laterais. Os cinzeiros atestavam as chuvas de dezem bro. Tinham água até a borda, com as pontas de cigarro boiando, esbarrando um as nas outras.

Ele estava fazendo um a pausa. O padre queria tentar novam ente localizar a irm ã Magdalena por telefone. Os dois tinham ficado j untos no quarto durante cerca de m eia hora sem dizer um a única palavra. Então Tom m aso se lem brou do cão da m ãe, esquecido no barco. O padre tinha prom etido ir cuidar dele. Insistiu nisso porque achava que Tom m aso devia ficar sozinho durante algum tem po.

Com o disse o padre: “Quando um a pessoa encarou a m orte é im portante ficar só durante algum tem po antes de voltar para o m undo”.

Sua fam ília. Tom m aso devia cham á-los agora? Os tios e tias. A irm ã caçula da sua m ãe, que não a visitara um a única vez. Ele pegou o celular no bolso. Alguém tinha lhe deixado um a m ensagem , m as ele não teve tem po de ouvi-la antes de ser interrom pido.

– Sinto m uito pela sua m ãe, signor Di Barbara.

Tom m aso se assustou, em bora a voz fosse m uito fraca, parecendo ter viaj ado duzentos quilôm etros para chegar até ele. Mas não tinha. O hom em estava de pé ao lado dele. Signor Salvatore. Tom m aso o conhecia m uito superficialm ente. Ele tinha algum as loj as de souvenirs perto da Piazza di San Marco. Era bem m ais novo que a m ãe de Tom m aso, m as estava igualm ente em situação term inal.

– Sua m ãe. Sinto m uito.

As pernas nuas do velho eram visíveis sob a bainha do roupão. Cobertas de vasinhos e de pelos grisalhos.

– Obrigado.

– Posso pegar um cigarro?

A ideia não parecia m uito boa, pensou Tom m aso, m as, diabo!, o signor Salvatore estava com os dias contados.

– Obrigado.

Eles fum aram em silêncio. Tom m aso lem brou que ia ligar para a irm ã da sua m ãe e despej ar nela a sua culpa. Olhou para o celular. Ainda não tinha ouvido a m ensagem . De um núm ero na Dinam arca. Ele acionou o correio de voz.

– Eu conversava com a sua m ãe de vez em quando, signor Di Barbara.

– Obrigado por fazer isso.

Tom m aso ouviu a m ensagem . “Hannah. Cham ando em nom e de Niels Bentzon. O policial dinam arquês. Com relação ao caso...”, e então ela disse algo em francês que ele não entendeu.

– Eu conheci o seu pai, tam bém .

– Me dê licença um m om ento.

Tom m aso se levantou e afastou-se um pouco... “... retirei os oceanos, toda a água. Espero que o senhor entenda, é um pouco difícil explicar por telefone”.

– Ele não teve sorte, o seu pai.

Tom m aso olhou aturdido para o velho. Que diabo ele estava tagarelando? Hannah lutava com o seu vocabulário lim itado em francês – ou talvez ela estivesse com dificuldade porque o assunto era m uito com plicado. “... quer dizer, com toda a água retirada e todas as m assas de terra reunidas do m odo com o eram os continentes nos prim eiros tem pos...”

Tom m aso ignorou Salvatore. Ele estava ouvindo Hannah. “Procure num atlas e vej a. Você só precisa tirar fora a água. Então vai ver im ediatam ente. Ponha todos os continentes em torno do polo Sul.”

– Mas hoj e nós finalm ente podem os voltar a falar sobre isso. Ele não era tão ruim , o Benito.

Tom m aso não tinha a m enor ideia de quem era o hom em sobre quem o velho estava falando. O nom e do seu pai não era Benito.

Então o velho pronunciou o nom e com um a certa exultação, com o se ousando m uito.

– Il Duce.

Hannah estava concluindo seu recado. “... as coordenadas aqui em Copenhague e em Veneza. O próxim o assassinato. Vou lhe m andar um a m ensagem de texto. Au revoir.”

 

Tom m aso se precipitou para fora da sala. Muitas enferm eiras o detiveram , querendo expressar suas condolências.

– Obrigado. Muito obrigado. A senhora foi m uito boa para a m inha m ãe – respondia ele e então se apressava. Ele sabia que era por ali. A biblioteca. Lem brava-se de a ter visto na sua prim eira visita à casa de repouso. Três m eses antes, logo antes de sua m ãe ir para lá com o paciente. Ele havia percorrido todo o prédio, em bora soubesse m uito bem que sua m ãe provavelm ente não sairia m ais da cam a.

O cheiro de cloro. Tom m aso estava de pé em frente de um a piscina usada para fisioterapia. Não era aquele o lugar.

– Perdão. Onde é a biblioteca?

Da piscina o fisioterapeuta olhou para ele. Estava com as m ãos sob os braços de um paciente que olhava sem expressão para o teto.

– A biblioteca? O senhor quer dizer a sala de leitura?

– Isso.

– É no segundo andar. Na outra ala do prédio, bem no final.

Tom m aso saiu correndo enquanto tentava entender a estranha m ensagem que a dinam arquesa deixara no seu celular. Desceu apressado a escada e se arrem eteu por um a ala que não cheirava a m orte. Só a doença.

A sala de leitura ficava na seção da casa de repouso que perm anecera exatam ente com o na época em que o prédio era usado com o claustro. Um a velha era a única pessoa na sala, em bora não estivesse lendo. Estava sentada e parecia ansiosa, com as duas m ãos agarrando a bolsa. Com o se Tom m aso fosse tentar roubá-la.

– Ciao.

Ele foi direto para as estantes, cheias de volum es em poeirados. Sobretudo rom ances. Livros para o gosto dos pacientes, em bora estes atualm ente preferissem assistir à televisão. Devia haver um atlas em algum lugar.

Ele olhou para a velha.

– A senhora poderia m e aj udar?

Inicialm ente ela pareceu surpresa. Depois seu rosto se ilum inou e ela disse:

– Posso, claro.

– Precisam os encontrar um atlas. A senhora poderia com eçar por aqui.

Aquilo era claram ente um a quebra na m onotonia dos seus dias. Ela se atirou à tarefa, até se esqueceu da bolsa. Tom m aso correu o dedo pela lom bada dos livros, olhando os títulos. Por que havia tantos livros de cozinha? Certam ente essa era a últim a coisa de que alguém precisaria num a casa de repouso.

– Pronto. – A velha lhe entregou um livro infantil: Nosso mundo. Na capa havia um a figura de caubóis e índios.

– Obrigado. Obrigado pela aj uda.

Lá pelo m eio do livro Tom m aso encontrou um m apa-m úndi colorido. Ele olhou para a m ulher. O sorriso dela desapareceu quando ela o viu arrancar as páginas.