O Último Homem Bom
Capítulo 70
14h52
A enferm eira falava am ável e pacientem ente com o velho, em bora ele a estivesse atazanando. De longe Niels o ouviu queixar-se.
– Não, eu não quero ir lá em cim a.
– Mas nós prom etem os ao m édico. O senhor não se lem bra?
– Estou m e lixando para o m édico.
A enferm eira riu e deu um a palm adinha no om bro do velho enquanto soltava o freio da cadeira de rodas e com eçava a em purrá-lo de volta para o quarto.
Niels a deteve.
– Perdão, onde fica a lanchonete dos em pregados?
– No fundo, por ali. Vire à direita na capela.
O velho bufou:
– Capela.
– Obrigado – disse Niels. – A propósito, sei que a pergunta vai parecer estranha, m as você tem filhos?
– Tenho – respondeu surpresa a enferm eira. – Por quê?
Lanchonete dos empregados – Copenhague
14h57
Niels estava com a im pressão de que aquilo não ia term inar bem . Nos andares inferiores era im possível ver o sol. Então ele consultou o relógio. Restavam quarenta m inutos. No m áxim o. Ele não ficou m ais otim ista quando abriu a porta da lanchonete. Hom ens e m ulheres com j aleco branco. Centenas. Era im possível. Não. Ele não tinha nada a perder. Subiu num a cadeira.
– Eu sou da polícia de Copenhague.
Todos se calaram . O único som que se ouvia era de um a m áquina em funcionam ento na cozinha. Os olhos estavam todos voltados para ele. Rostos acostum ados a ouvir notícias ruins.
– Estou procurando Ida Hansen.
Ninguém respondeu. Um a única m ão se ergueu tim idam ente no ar. Niels saltou da cadeira e cam inhou entre as fileiras de m esas de m adeira lam inada. Com ida de lanchonete – o prato do dia era frango, purê de batata e ervilhas. Todos o olhavam . Os m édicos parecendo m ais concentrados. Expressões de autoridade.
– Ida?
Ela baixou a m ão. Não podia ser ela. Aquela era um a m ulher j ovem dem ais.
– Não. Eu só queria dizer que ela j á saiu. Aconteceu algum a coisa?
– Saiu? Aonde ela foi?
Ele olhou para o celular. Era a terceira vez que Hannah ligava.
– Ela precisou ir aj udar num parto de em ergência. Saiu correndo.
– Quanto tem po vai levar isso? – Niels percebeu que sua pergunta era idiota. Hannah ainda estava tentando acalm á-lo. – Espere um pouco – disse ele.
Ele se afastou para atender a ligação.
– Hannah?
– Niels. Nós inventam os um novo m étodo. Em vez de... – Ela fez um a pausa. – Bom , basicam ente nós tem os três candidatos que se enquadram perfeitam ente. Talvez haj a outros. Mas com ece pela Maria Deleuran. Ela trabalha no Departam ento de Pediatria. E foi trabalhadora de aj uda hum anitária em Ruanda.
Niels ouviu a voz de Casper, bem fraca, dizendo algo ao fundo.
– E ela escreveu artigos sobre os esforços inadequados do Ocidente no com bate à Aids na África.
– Tudo bem . Vou descobrir essa m ulher.
Ele encerrou a ligação e voltou para a j ovem colega de Ida Hansen.
– Então, aonde você disse que ela foi?
– Para a ala de partos.
Niels hesitou. Ele tinha acabado de chegar de lá. Levaria cinco m inutos para voltar.
– O que você acha dela?
A j ovem enferm eira olhou perplexa para Niels.
– O que eu acho da Ida? – Um a risadinha nervosa.
– Você gosta dela? Ela é um a boa pessoa?
– Por que você está m e perguntando isso? Você não pode sim plesm ente esperar até...
Niels a interrom peu.
– Qual é a sua opinião sobre ela?
– Ela fez algum a coisa errada?
– Responda à m inha pergunta! O que você acha dela? Ela é am ável? É bondosa? É severa? É um a boa pessoa?
A enferm eira olhou para as colegas durante alguns segundos.
– Na verdade eu não sei. A Ida é boazinha, m as...
– Mas o quê?
Niels olhou para ela. Ninguém disse nada quando ela se levantou, pegou a bandej a com tiras de alface e o frango com ido apenas pela m etade, e foi em bora.