O Último Homem Bom
Capítulo 40
Instituto Niels Bohr – Copenhague
Pessoas, pensava Hannah enquanto cuidadosam ente recortava os oceanos de m odo que apenas os continentes ficassem lado a lado na m esa. O m ito dos trinta e seis hom ens j ustos está ligado a pessoas. Não à água.
Ela afastou todos os m ares e olhou para as m assas de terra. Aquilo parecia um quebra-cabeça. Esse sim ples pensam ento lhe tornou difícil respirar. Ela se lem brou do filho, Johannes. E da prim eira vez que ela e Gustav perceberam que o filho era um a criança extraordinariam ente dotada. Ele havia m ontado um quebra-cabeça para adultos em m enos de um a hora. Setecentas peças com pondo um a figura da torre Eiffel. Ele tinha apenas quatro anos. A princípio eles ficaram em polgados, m as depois o brilho do garoto com eçou a causar problem as. Ele parecia triste. Estava constantem ente procurando novos desafios que nunca se concretizavam . Hannah tinha tentado corresponder – fazer o oposto do que seus pais haviam feito com ela. Eles sem pre queriam que ela fosse norm al. Diziam -lhe para não fazer o dever de casa tão depressa e ficar no m esm o nível dos seus colegas. Isso teve na verdade o efeito oposto. A cada dia que passava, Hannah se sentia m ais alienada do m undo. Esse sentim ento se intensificava com o fato de seus pais claram ente se constrangerem com a inteligência da filha. Eles queriam que ela fosse com o as outras crianças. Queriam que ela fosse normal.
Quando Hannah foi adm itida no Instituto Niels Bohr, aos dezessete anos de idade, foi com o finalm ente chegar em casa. Ela ainda se lem brava de com o se sentira naquele prim eiro dia, quando transpôs a porta do prédio. O lugar dela era ali. Por isso Hannah tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para garantir que Johannes não se sentisse anorm al ou um excluído. Tudo para garantir que os dons intelectuais do filho não o isolassem do resto m undo. Mas Johannes não era norm al. Ele era doente. E foi piorando dia após dia.
Hannah acendeu um cigarro. Já não era perm itido fum ar ali. Se Niels Bohr voltasse do Olim po, nem m esm o ele teria perm issão para acender o seu cachim bo dentro do prédio. Mas isso não tinha im portância. A única coisa im portante era o quebra-cabeça de continentes que ela havia recortado do m apa e colocado na m esa.
– Johannes, m eu pequeno – sussurrou ela para si m esm a. – É sobre pessoas.
Ela havia passado a vida lidando com núm eros, cálculos, luz do espaço. Mas aquilo tinha a ver com pessoas; pessoas que faziam parte de um padrão específico, e não o caos habitual; pessoas que faziam parte de um plano m aior. Era isso que a atraía.
Ela deslocou um a das peças de continente para que ele ficasse num a posição m elhor. Seres humanos. As origens da vida. Rem ontar aos tem pos em que os continentes se form aram .