O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 24 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 18

Centro da cidade – Copenhague

Niels pegou novam ente a relação. “Severin Rosenberg”, ele leu. O nom e que estava logo após o últim o. Depois dele o único que faltava era Gustav Lund, o personagem coringa, o m atem ático que tinha ganhado um a Medalha Fields. Niels se sentia tentado a pensar que o hom em era um a zebra e não só um dos bem -intencionados queridinhos da m ídia. Isso reforçava a sua percepção de que a lista estava tentando localizar as pessoas boas, as pessoas que tinham encontrado m eios de aj udar que não fossem a participação em m anifestações sobre o clim a ou cortej os à luz de vela na Praça da Prefeitura.

Niels não tinha tido tem po para um a pesquisa extensa. O que ele sabia era o m esm o que todos saberiam lendo os j ornais regularm ente nos últim os anos. O que significa que em várias ocasiões Severin Rosenberg oferecera abrigo a indivíduos que não tinham conseguido asilo. Ele era um “pastor dos refugiados”, com o a m ídia gostava de cham á-lo. Diversos setores da extrem a-direita haviam decidido dirigir a ele o seu ódio. Junto com eles havia am plos segm entos da população dinam arquesa. Mas Severin Rosenberg tinha se recusado a se deixar intim idar; ficara firm e na sua crença de que am or fraterno significava am or fraterno e não podia ser aplicado apenas aos loiros de olhos azuis. Todos tinham obrigação de estender a m ão às pessoas carentes de aj uda. Em diversas ocasiões Niels j á havia visto o pastor discutir suas opiniões na televisão. Rosenberg lhe dava a im pressão de ser um idealista inteligente m as ligeiram ente sonhador que estava disposto a com er o pão que o diabo am assou para defender suas crenças. Dois m il anos antes ele teria sido atirado aos leões no Coliseu, perseguido com o os outros cristãos que acreditavam em com partilhar tanto o am or quanto os bens. Havia nele algo de ligeiram ente ingênuo. Niels achava isso cativante.

Por outro lado, Niels achava as igrej as enfadonhas. No que lhe dizia respeito, quem via um a via todas. Ele sem pre achara isso, m as Kathrine tinha um a queda pelos am plos espaços sagrados. Um a vez ela o arrastara até Helligåndskirke, a Igrej a do Espírito Santo, durante um a celebração cultural noturna em Copenhague. Um coro havia cantado hinos em latim e um escritor barbudo expusera a história da igrej a. De tudo o que ele falou, a única coisa de que Niels se lem brava era que em algum a época ela funcionara com o um convento que abrigava crianças. Durante a Idade Média, quando Copenhague estava se tornando conhecida com o m etrópole europeia, inúm eros viaj antes com eçaram a chegar à cidade: cavaleiros, ricos habitantes das cidades e m ercadores. Essa expansão significou m ais prostitutas e m ais filhos ilegítim os. Os bebês eram frequentem ente m ortos assim que nasciam . Então Helligåndskirke foi am pliada e recebeu o status de hospital religioso com o obj etivo expresso de acolher os bebês dados pelas m ulheres que tinham se tornado m ães contra a vontade.

Niels estacionou o carro e estudou a igrej a. Seiscentos anos depois os cidadãos de Copenhague continuavam levando seus filhos ali. O convento era agora um a creche.

Niels ficou sentado no carro durante algum tem po, olhando para o céu, onde o sol lutava para brilhar através de um a fina cam ada de nuvens acinzentadas. Ele olhou para as pessoas que passavam na calçada. Um a j ovem m ãe com um carrinho de bebê. Um casal m ais velho que cam inhava de m ãos dadas, com o se recém -apaixonados. Era um lindo dia de inverno em Copenhague. “Hopenhagen”, com o a cidade tinha sido apelidada em honra à conferência sobre o clim a.

 

Niels atravessou a praça, notando im ediatam ente o carro da patrulha estacionado no m eio-fio. A um a distância razoável ele podia ouvir um hom em gritando para os policiais. A fala quase ininteligível, inequívoca, de um a voz estragada pelo uso intenso de drogas. Os policiais tinham agarrado os braços do hom em .

– Não fui eu, seus filhos da puta!

Niels conhecia bem o tipo. Inclusive j á o havia prendido m uito tem po antes. Apenas um dos num erosos caloteiros de Copenhague. Um a figura insolente que fazia todos desviarem o olhar num m isto inútil de em patia e noj o. O drogado se livrou das garras do policial e com eçou um a fuga côm ica. Avançava cam baleando com suas pernas frágeis. Mas não era seu dia de sorte, porque ele deu de cara com Niels.

– Epa, calm a!

– Me solta, cara. Droga!

Niels agarrou os braços do drogado até os policiais chegarem ali. O hom em era pele e ossos. Seus braços pareciam a ponto de quebrar a qualquer m om ento. Era evidente que ele não ficaria neste m undo por m uito tem po; seu hálito cheirava a m orte. Niels precisou virar o rosto enquanto o rapaz usava suas últim as energias para am aldiçoar o m undo.

– Calm a com ele – disse Niels ao entregá-lo aos j ovens policiais, aproveitando a oportunidade para lhes m ostrar sua identidade policial. Um dos hom ens queria obrigar o viciado a se deitar nas pedras frias para algem á-lo.

– Não acho que isso sej a necessário, você acha? – disse Niels. O drogado estava olhando para ele, m as sem nenhum sinal de reconhecim ento. – O que foi que ele fez?

– Estava tentando arrom bar o porão da igrej a.

– Não era eu! – gritou o drogado. – Me ouve, hom em . Eu só queria um lugar para m e picar.

Niels olhou para o relógio. Ele j á estava atrasado. Não tinha tem po para saber exatam ente o que havia acontecido. Não se quisesse term inar a sua relação às seis horas. O pobre coitado ainda estava falando.

– Aonde é que a gente tem de ir? Me diz. Em que droga de lugar a gente tem de ir quando precisa se picar?

As algem as se fecharam com um clique inócuo em torno dos punhos delgados do drogado. Niels notou a tatuagem do hom em : um a serpente verm elha e um dragãozinho envolto em vários sím bolos que ele não conseguiu decifrar. A tatuagem era relativam ente nova; não tinha as cores em botadas nem as linhas borradas das tatuagens m ais antigas. Não era tam pouco um tipo de tatuagem não autorizada da prisão. Era trabalho de profissional. Um a pequena obra de arte.