O Último Homem Bom
Capítulo 65
Bella Center – Copenhague
– Estam os presos? – perguntou Hannah depois de os dois ficarem sentados por m uito tem po dentro de um galpão usado norm alm ente por operários.
– Claro que não.
Niels avistou Som m ersted através de um a j anela fechada. O chefe da polícia estava atravessando a praça diante dos m anifestantes, passando pela fila de representantes de ONGs e m em bros da im prensa que esperavam para pegar a credencial. Chegando ao galpão, o chefe da polícia puxou com tanta força o trinco da porta que Hannah deu um salto. Ele fechou a porta atrás de si, espum ando de raiva.
– Obrigado por esperar – disse ele.
– Então preste atenção – disse Niels –, eu sei que parece m aluco.
Som m ersted se sentou diante deles. Desabotoou o colete à prova de balas, revelando uns fiozinhos de cabelo grisalho no peito, que chegavam quase até o pescoço.
Niels prosseguiu:
– Com o eu estava tentando dizer, o assassino age de acordo com um m ito antigo sobre os trinta e seis hom ens bons graças aos quais o m undo se m antém . Você conhece esse m ito? Podem os até calcular o local do próxim o assassinato. Conhecem os as coordenadas precisas, e tudo aponta para o Hospital Nacional.
– O Hospital Nacional?
– A m atem ática nunca m ente. Resum indo o caso, precisam os evacuar o hospital.
Eles foram interrom pidos por Leon, que abriu a porta.
– Ele está a cam inho.
– Acabou?
– Acho que eles estão só fazendo um a pausa.
– Obrigado, Leon.
Leon cruzou o olhar com o de Niels antes de voltar a fechar a porta.
– Você m e deu a tarefa – com eçou Niels. Ele se em pertigou e tentou um a nova tática. – Eu contatei alguns dinam arqueses considerados boas pessoas e os adverti. Por causa de um dos nom es da lista conheci por acaso Hannah Lund. – Niels olhou para Hannah e depois se voltou para Som m ersted. – Você precisa se dar conta, Som m ersted, de que essa m ulher é um gênio.
Som m ersted balançou a cabeça e olhou para a m esa com um a expressão pesarosa.
– Eu não posso m ais proteger você, Niels. Prim eiro você usa o seu tem po livre para visitar crim inosos na prisão, e agora isso.
– Você precisa encarar os fatos – disse Niels. – Nós sabem os quando o crim e vai acontecer. No anoitecer de hoj e, no pôr do sol, às três e trinta e sete da tarde. E nós sabem os o local. O Hospital Nacional. Tam bém tem os um perfil da próxim a vítim a. Um a pessoa boa, sem filhos e que tem entre quarenta e quatro e cinquenta anos. Você só precisa encarar os fatos.
Som m ersted esm urrou a m esa.
– Fatos? – berrou ele. – O fato é que eu lhe dei um a chance de executar um a tarefa sim ples. Com ela você poderia readquirir a m inha confiança. – A essas alturas Som m ersted j á estava obviam ente lam entando a sua explosão. – Nós não vam os entrar nisso agora, Bentzon. Neste m om ento há coisas m ais im portantes. Vej o você na sem ana que vem na m inha sala.
– Pelo m enos preste atenção no que ela tem a dizer.
– Niels. Eu acabei de fazer um a checagem do histórico da sua am iga.
Hannah olhou surpresa para Som m ersted, depois se virou e olhou para Niels.
– Talvez você devesse ter feito a m esm a coisa antes de vir aqui com essa m ulher. Logo aqui! Hoj e! Passando por todos os controles de segurança para ter acesso ao local onde Obam a e todos os outros estão reunidos.
– O que é que você quer dizer?
Som m ersted se levantou.
– Que tipo de checagem de histórico? – disse Hannah levantando-se tam bém .
Niels olhou perplexo para eles. Era com o se os dois com partilhassem algum tipo de segredo.
– Do que é que vocês estão falando? – indagou ele.
Som m ersted olhou com sim patia para Hannah, que exclam ou:
– Aquilo não tem nada a ver com isso.
Niels interrom peu-os.
– Do que é que vocês estão falando?
Hannah respirou fundo. Som m ersted recostou-se na porta olhando-a em expectativa.
– Conte para ele o que você descobriu – disse ela sem erguer o olhar.
– Eu não ia m encionar isto, m as um a vez que você insiste... – Som m ersted pareceu quase hum ano. – Nós sabem os que você foi paciente de um pavilhão psiquiátrico. E você sabe o que isso significa no m eu m undo?
Hannah estava tentando não chorar.
– Mas o m eu filho tinha m orrido.
– Isso significa que você não é confiável. E pessoas não confiáveis são um a am eaça para a segurança.
Hannah sussurrou:
– Idiota!
– E o que eu realm ente não preciso agora que estou cuidando dele – Som m ersted apontou para a j anela onde Obam a, que cam inhava da entrada do prédio para a sua lim usine estacionada – é de m alucos não confiáveis. Porque eles são perigosos.
Obam a acenou para os m anifestantes. Parecia m ais baixo pessoalm ente. “aj ude o m undo”, foi o que Niels conseguiu ler num dos cartazes antes de Som m ersted abrir a porta.
– E agora eu vou voltar para o m eu trabalho.
Hannah estava chorando. Som m ersted parou no vão da porta. Niels olhou para ele. Sabia que tudo estava perdido. Que ele não era m ais subalterno de Som m ersted e não seria em pregado pela força policial em nenhum a cidade do país. Ele poderia perfeitam ente ser o últim o a falar.
– Dê o fora, Som m ersted. Adeus.
A viagem de volta para Copenhague foi feita em silêncio. Niels dirigia. Hannah olhava pela j anela, tão quieta que Niels com eçou a duvidar até m esm o de que ela estivesse viva.
– Você está respirando? – indagou ele.
– Estou.
– Bom .
– Mas não sei para quê.
Para que nós continuam os respirando?, pensou Niels. Ele não podia responder à pergunta. Não naquela hora.
– Me deixe onde você quiser. Para m im tanto faz. Onde foi que você estacionou o seu carro? – Pela prim eira vez ela olhou para ele.
– Perto do café.
– Ah, está certo.
O café. Era estranho com o as coisas podiam m udar no decorrer de um dia. De m anhã Hannah tinha se m aquiado. Agora a pintura estava toda borrada. De m anhã ela havia sido um a cientista no seu elem ento. Agora era um caso psiquiátrico.
– Niels... Eu devia ter percebido que isso ia acontecer. Nós fom os longe dem ais. Sinto m uito.
O celular de Niels estava tocando.
– É o policial italiano. – Ele passou o telefone para Hannah.
– O que é que eu falo?
– Fale que o próxim o assassinato será com etido na cidade dele ou na nossa. – Niels entrou no acostam ento. O celular parou de tocar. Ele desligou o m otor e olhou para Hannah. – Não sei o que aconteceu com você na época, m as sei que você não é louca.
Ela conseguiu esboçar um sorriso e deu de om bros.
– Não se passa um único dia sem que eu m e com pare com os padrões aceitos do que se considera norm al. Eu m antenho um diário. Toda vez que vej o um a conexão, anoto.
– O que é que você está querendo dizer?
– O m eu cérebro. Está sem pre procurando sistem as em tudo. A vida inteira foi assim . Meu cérebro é um supercom putador que nunca desliga. Desde quando eu era m uito nova. É um a m aldição. A certa altura ele parou. Foi quando eu dei à luz o m eu filho. Mas depois eu com ecei a ver sistem as que não existiam .
– Em que sentido?
– Placas de carro, por exem plo. Com ecei a procurar conexões num éricas. Faço isso até hoj e. Eu as anoto e m ostro para o m eu psiquiatra. E você sabe de um a coisa?
– Não. O quê?
– A placa do seu carro. Ela m e cham ou a atenção quando você foi saindo da m inha casa, na sua prim eira visita. É II 12 041.
– E daí?
– 12 04. Pode ser o dia 12 de abril. É o dia do aniversário do m eu filho. E tem tam bém o últim o núm ero, que é 1, e o “I” duplo no início.
– Não estou entendendo.
– A letra “I” é a nona letra do alfabeto. Assim , tem os “199”. E se acrescentarm os o núm ero seguinte, então terem os...
– O núm ero 1991. É o ano em que o seu filho nasceu?
– Exatam ente. Então você percebeu a coisa, Niels. Eu estou sem pre vendo sistem as. O tem po todo. Vi esse sistem a na placa do seu carro em m enos de um segundo. Você entende? É um a m aldição. Um a calculadora que eu não posso desligar.
Niels ficou calado, pensando em tudo aquilo, e depois disse:
– Olhe para a estrada.
– O que é que você quer que eu faça?
– Olhe, só isso. Há algum sistem a no m odo com o os carros estão andando?
Ela sorriu.
– Você só está tentando ser gentil.
– Responda à m inha pergunta. Faça de conta que eu sou um idiota.
– Tudo bem . Sim . Há um sistem a.
– Exatam ente. As pessoas dirigem do lado direito da estrada. Assim , em bora você vej a sistem as que não são im portantes, você tam bém vê alguns que são. Tenho sido cham ado de m aníaco-depressivo. Vítim a de esgotam entos, depressões e psicoses. Tudo isso. Todo m undo está sem pre m uito ocupado fazendo o nosso diagnóstico. Explicam as m udanças do nosso com portam ento relacionando-as com algum a doença.
Ela hesitou.
– Você tem razão. Mas agora é m elhor eu ir para casa.
Niels a exam inou.
– Acho que é a m elhor coisa que você pode fazer. Porque o problem a não está no fato de você ver sistem as dem ais. – Ele deu partida no carro.
– Do que é que você está falando?
– O problem a tem a ver com as pessoas, Hannah. Enquanto houver sistem as, teorias, algum a coisa se passando dentro do seu cérebro, está tudo bem . Mas quando se trata de pessoas reais, com o agora, você sai do ar. É ou não é?
Ela o olhou surpresa.
– Não foi isso que eu quis dizer, absolutam ente.
– Existem sistem as, buracos negros e m atéria escura. Você sabe tudo sobre esse tipo de coisa, Hannah. Com eles você está em casa. Mas existem tam bém pessoas reais. Eu... as pessoas da sua vida... a próxim a vítim a... seu filho.
– Você...
Ela estava tão estarrecida quanto Niels com aquela perda de controle. Mas foi ele que recebeu o im pacto da sua raiva. Prim eiro ela deu um grito m eio sufocado que ecoou no carro pequeno. Depois com eçou a golpeá-lo com o punho.
– Hannah! Acalm e-se! – gritou Niels erguendo as m ãos para proteger o rosto. Ele poderia ter segurado os braços dela, m as não fez isso.
– Você, você... – repetia Hannah sem parar, deixando a frase inconclusa. Ela o golpeava com toda a força.
Então ela parou. Niels sentiu o gosto de sangue. Hannah não parecia se im portar por ver o resultado da sua raiva. Os segundos tornaram -se um m inuto. Talvez m ais.
– Você está sangrando – disse ela.
– Não é nada.
Hannah tinha a respiração acelerada quando tocou a boca de Niels. Lim pou nos lábios dele o sangue escorrido e ele agarrou a sua m ão. O beij o foi a coisa m ais natural do m undo. Ela se voltou para olhá-lo, levantou-se apoiada num j oelho e se inclinou sobre ele. Foi ela que beij ou. Sua língua deslizou cautelosam ente pelo corte m inúsculo do lábio inferior antes de encontrar a dele. Eles ficaram assim por um bom tem po.
Então Hannah se reclinou sobre o banco do passageiro e olhou pela j anela. Com o se nada tivesse acontecido. Nem o beij o nem a sua explosão. Ela foi a prim eira a quebrar o silêncio.
– Você tem razão – disse ela.