O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 9 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 5

Murano – Veneza

Com eço de inverno, a alta estação para os suicídios no continente europeu. Mas dessa vez não era suicídio. Era vingança. Do contrário o hom em não teria usado um fio de aço para se enforcar. Não era difícil encontrar um a corda na ilha, com todos os construtores de barcos que havia ali.

Flavio estava fora, vom itando no canal. A viúva do insuflador de vidro j á havia desaparecido há m uito tem po. Fora buscar consolo com os vizinhos. Tom m aso ouvia de vez em quando os seus gem idos. Em frente da casa se reunira um m icrocosm o dos habitantes da ilha. O adm inistrador da oficina de insuflação de vidros, um padre do m osteiro de San Lazzaro, um vizinho e um loj ista. Tom m aso se perguntou o que o loj ista estaria querendo. Receber o dinheiro da últim a com pra antes que fosse tarde dem ais? Era inacreditável o que a crise financeira havia feito aos hom ens e à sua autoestim a. E os ilhéus eram ainda m ais suscetíveis por causa do isolam ento, da sociedade fechada, dos papéis sociais rígidos. Não é de adm irar que Veneza estej a no topo das estatísticas de suicídio da Itália.

A casa era úm ida e m al ilum inada, com pé-direito baixo. Tom m aso olhou pela j anela e viu o rosto de um a m ulher. Devorando um sanduíche, ela lhe dirigiu um olhar culpado, sorriu e deu de om bros. Não podia evitar; estava fam inta, apesar da m orte do insuflador de vidro. Tom m aso ouviu as pessoas conversando lá fora. Especialm ente o adm inistrador da oficina. Quase todas as baratas im itações de vidro asiáticas estavam sendo im portadas e vendidas aos turistas. Isso tinha deixado sem trabalho a população local, que em outros tem pos tinha ali iniciado a insuflação de vidro e feito dela um a arte por séculos e séculos. Era escandaloso!

Tom m aso olhou novam ente para o celular. Diabo! Onde estavam as fotos? O corpo do insuflador de vidro balançava lentam ente. Tom m aso receava que o fio de aço não o sustentasse por m uito tem po. Se as vértebras do pescoço tivessem se fraturado, o fio logo penetraria na carne e o corpo seria decepado.

– Flavio! – gritou Tom m aso.

Flavio apareceu na entrada.

– Quero que você redij a o relatório.

– Eu não posso.

– Que besteira é essa? Você só tem de escrever o que eu vou dizer. Se quiser, sente-se ali com a cabeça virada para o outro lado.

Flavio pegou um a cadeira, virou-a de frente para a parede úm ida e se sentou. A casa cheirava a fuligem , com o se alguém tivesse apagado o fogo da lareira com um balde de água.

– Pronto?

Flavio não respondeu, sentado com a caderneta no colo e olhando resolutam ente para a parede.

Tom m aso com eçou com a parte oficial.

– Chegam os logo antes das duas horas. A cham ada foi feita pela viúva do insuflador de vidros, Antonella Bucati. Você está escrevendo?

– Estou.

O som de um a sirene se aproxim ou. Finalm ente ele a ouviu. Tom m aso escutou. A am bulância desligou a sirene ao deixar a laguna e passar pelo canal arruinado. O m otor barulhento e as m onótonas tentativas das ondas de escangalhar a am urada j á m eio podre anunciaram a chegada do veículo alguns segundos antes de os param édicos pisarem na terra. As luzes azuis ilum inaram a sala com flashes, lem brando Tom m aso de com o Veneza era escura no inverno. A um idade parecia roubar os restos de luz espalhados pelos poucos prédios ainda ocupados. O restante de Veneza estava subm erso na escuridão. Am ericanos e sauditas eram os proprietários da m aior parte da cidade, e vinham visitá-la duas sem anas por ano, no m áxim o.

Tom m aso viu a coisa no m esm o instante em que seu celular bipou. Os sapatos pretos do enforcado tinham saltos brancos. Tom m aso esfregou um dos saltos; a m atéria branca saiu facilm ente.

– Podem os descer o corpo? – perguntou Lorenzo, o m otorista da am bulância. Tom m aso frequentara a escola com ele. Certa vez eles tinham brigado e Lorenzo vencera.

– Ainda não.

– Ora, vam os, você não está querendo m e dizer que foi assassinato, está? – Lorenzo se preparou para descer o corpo.

– Flavio! – gritou Tom m aso. – Se ele encostar um dedo no corpo, ponha algem as nele.

Furioso, Lorenzo bateu o pé no chão.

– Lanterna. – Tom m aso estendeu a m ão.

Flavio tapou a boca e m anteve os olhos baixos enquanto passava a lanterna para Tom m aso. Não havia nenhum indício visível no piso. E no entanto... O chão da cozinha tinha sido varrido e estava lim po em baixo do local onde o insuflador se enforcara sob um a viga do teto. Ao contrário da sala, onde o chão estava suj o. O celular de Tom m aso bipou novam ente. Ele abriu a porta escura. Um j ardim descuidado. Um a videira se estendia no alto. Muito tem po atrás alguém havia tentado fazer com que ela crescesse em torno das calhas do alpendre, m as desistira e a deixara seguir o sol. Agora ela se alastrava pelo teto. A lanterna ilum inava a oficina. Tom m aso atravessou o pequeno j ardim e abriu a porta. Em contraste com o resto da casa, a oficina estava m uito arrum ada. Meticulosam ente arrum ada.

Mas no m ostrador do celular surgiu outra m ensagem . Elas estavam aparecendo num a sucessão frenética. Naquele m om ento ele não ousava ler nenhum a delas.

O chão da oficina era de cim ento branco. Tom m aso se abaixou para arranhar a superfície. Era porosa, feita de greda. A m esm a substância que estava nos saltos do insuflador. Ele se sentou num a cadeira. Flavio o cham ou, m as ele fingiu que não tinha ouvido. Sua prim eira intuição estava correta. Não era suicídio. Era vingança. A vingança da m ulher. O insuflador havia sido m orto ali e arrastado pela oficina, que tinha deixado vestígios de branco nos saltos dos seus sapatos.

– O que é que você está fazendo aqui? – perguntou Flavio.

Tom m aso olhou para o colega que estava de pé na entrada.

– Tudo bem , Tom m aso? Você está parecendo indisposto.

Tom m aso ignorou o diagnóstico.

– Vam os precisar do m édico. E da equipe técnica de Vêneto.

– Por quê?

Tom m aso correu o dedo pelo piso e levantou-o no ar para que Flavio visse aquela brancura.

– Se você olhar de perto vai ver a m esm a coisa nos saltos do m orto.

Flavio precisou de alguns segundos para processar a inform ação.

– Vam os prender a viúva?

– Provavelm ente seria um bom com eço.

Flavio balançou a cabeça com um ar triste. Tom m aso sabia exatam ente o que ele estava sentindo. Desalento. A história que eles iam ouvir a viúva contar nas próxim as horas giraria em torno de pobreza, bebedeira e desem prego, violência dom éstica e discussões na ilha. Era essa a história de Veneza nos últim os anos. Sem dúvida um a apólice de seguro de vida estava escondida em algum lugar. Ou talvez a m ulher do insuflador de vidro sim plesm ente tivesse chegado ao seu lim ite de tolerância. Flavio ligou para a delegacia e se recom pôs antes de fazer a prisão exigida. Tom m aso respirou fundo. O m undo vai acabar esta noite, pensou ele. Quase não ousou olhar para as m ensagens no celular. Quatro fotos de Giuseppe Locatelli, da Índia. Tom m aso tirou os óculos de leitura e estudou a prim eira im agem : a m arca nas costas do m orto. Exatam ente igual às outras. Depois ele olhou para os closes.

– Trinta e quatro – m urm urou para si m esm o. – Faltam dois.