O Último Homem Bom
Capítulo 10
Escuridão
O som de algo gotej ando ao longe. Ou bem perto. Aquilo não significava nada. Um a calm a im pressionante. A escuridão o protegia. Com o um cobertor que ele poderia retirar, se quisesse. Mas ele não queria. Estava m uito confortavelm ente deitado no escuro.
Vozes. Alguém gritava. Chorava. Clam ava. Algo esbarrou no seu nariz. Cheiro de gasolina. Cheiro de álcool, gim . Gosto de sangue na boca. Ele queria afastar tudo aquilo. Queria que tudo desaparecesse novam ente. Alguém estava retirando o seu cobertor. Os olhos de um estranho o exam inavam .
– Você está bem ? – A voz oscilava. Niels quase não a ouvia.
– A cancela não abaixou e... Eu cham ei um a am bulância.
Niels m exeu os lábios. Teria m esm o m exido?
– Eu não sei – disse o hom em . Ele estava chorando. – O quê? As m eninas? É isso que você está perguntando?
Escuridão.
Dessa vez durou um a eternidade. Ou teriam sido apenas alguns segundos? Niels estava debaixo d’água. Indo para longe. Mergulhando na escuridão. Querendo desaparecer. Perm itindo-se ser tragado. Desaparecer. Não. Ele precisava ir em bora dali. Encontrar um barco. Estava pensando em com er bacalhau no Ano-Novo.
Vozes, novam ente. Dessa vez um a voz m ais profunda. Por que não o deixavam em paz?
– Fique quieto. Não tente dizer nada.
A voz estava falando com ele?
– Pense apenas em respirar calm am ente. O m elhor que conseguir. Do resto nós tom am os conta.
Outra voz. Dessa vez m ais alta e clara.
– Estão m andando um helicóptero?
Ele não ouviu a resposta.
O que ouviu foi a sua própria voz.
– Não... eu não quero. Não quero...
– Fique quieto agora. Nós vam os aj udá-lo.
Ele ainda não sentia dor. Não sentia o seu corpo. O que teria acontecido? Ele viu Hannah m entalm ente. E o m ar. E a praia am pla, gelada. E duas m enininhas com sacolas de bom bons e gorros tricotados. Duas...
– As m eninas? – Era novam ente a sua própria voz. Que tinha vida própria.
– Sim ?
O som de hélices girando. Aquilo seria um sonho?
– Havia duas garotinhas.
A voz do segundo hom em interveio.
– Precisam os tirar ele daqui.
– As m eninas.
Alguém o levantou. Com o num sonho dos prim eiros anos da sua infância. Ele era levantado pela m ãe e acalentado. Kathrine. Agora ele a via m entalm ente. Ela saía da escuridão e se inclinava sobre ele sussurrando: “Niels. Você não devia estar no aeroporto?”
– Um , dois, três.
Era ele que estava gritando?
– Morfina. Agora – disse um a voz vinda de m uito longe. Isso, m orfina. E depois ganhar o m ar. Um leito, navegando longe de Copenhague. Nos bancos de Dogger, pensou ele. Ou até m ais longe.
– Vam os pôr um a m áscara de oxigênio em você. – A voz o atravessou. Era quase insuportavelm ente alta. – Seus pulm ões...
Ele ouviu alguém dizer:
– Os pulm ões dele fecharam . – Um a im pressão de calor. Ele virou a cabeça.
– Precisam os rasgar a cam isa dele.
Som de tecido sendo rasgado.
– Hannah? – Ela estava deitada ao lado dele. De olhos fechados, recebendo soro e com m áscara de oxigênio. Parecia quase côm ica. Ele teve vontade de rir. Queria perguntar: “Por que você está deitada assim ?” Em vez disso ouviu um som dentro da sua cabeça que só podia querer dizer que o m undo em torno dele tinha explodido, e depois um silêncio agourento.
– Você está m e ouvindo?
Outra voz.
– Eu sou m édico.
– Hannah...
– A sua m ulher está inconsciente. Estam os levando você para Skej by. Lá você vai receber o m elhor tratam ento e...
O hom em foi interrom pido. Alguém estava falando com ele. Um a breve discussão. Queimaduras nas costas dele. O m édico voltou a falar com ele.
– Estam os levando você para o Hospital Nacional. São só uns poucos m inutos de viagem . Eles têm a única unidade de queim ados da Dinam arca.
– O Hospital Nacional...
– Em Copenhague. Você está entendendo o que eu falo? Está m e ouvindo? Parece que você tem um a queim adura feia nas costas.
– O Hospital Nacional...
O m édico e um a outra pessoa sussurravam . As vozes iam e vinham .
– O carro pegou fogo?
– Acho que não.
– Então eu não entendo.
Um rosto se aproxim ou dele. Dois olhos cinzentos e graves.
– Ele está totalm ente fora do ar.
Outra voz.
– Ele não vai resistir?
– Ele está voltando.
– O Hospital Nacional não... Hospi... não...
Ocorreu a Niels que ele era incapaz de m over os lábios. Estava falando m as não saía nenhum som .
Alguém o cobriu novam ente com um cobertor.