O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 122 de 137

Páginas do PDF

O Último Homem Bom

Capítulo 8

Centro de Trauma, Hospital Nacional – Copenhague

Agnes pegou um a caderneta e com eçou a ler em voz alta. Relatórios de experiências de quase m orte vividas por outras pessoas.

– Vej a essa, por exem plo. É um a versão editada de um a experiência de quase m orte. Foi vivida por um a am ericana, que a docum entou m uito bem . Eu traduzi o texto para o dinam arquês. Se a linguagem está m eio deselegante, a culpa não é da Kim berly Clark Sharp.

– Kim berly...

– Kim berly Clark Sharp. Tem os de rem ontar à década de cinquenta, quando ela sofreu um ataque cardíaco sério e teve um colapso. Caiu num a calçada, sem respirar e sem pulso. Ouça isto: “A prim eira coisa de que eu m e lem bro foi de um a m ulher gritar em pânico: ‘Não sinto o pulso dela. Ela está sem pulso!’ Mas eu m e sentia bem . Bem , m esm o. Na verdade eu achei que nunca tinha m e sentido tão bem na m inha vida. Tinha um a sensação de grande calm a e de estar ligada às coisas, de um a form a que nunca m e havia acontecido. Eu não via nada m as ouvia tudo. As vozes das pessoas debruçadas sobre m im . Então tive a sensação de estar em outro lugar – um lugar onde eu sabia que não estava sozinha, m as que eu não via claram ente por causa da névoa escura que m e rodeava”.

Agnes ergueu o olhar.

– Continuo lendo? – Ela prosseguiu antes que Hannah pudesse responder.

Hannah desconfiava que a velha a estivesse subm etendo a um estratagem a psicológico sim ples: ao com entar com ela as experiências de quase m orte de outras pessoas, Agnes a faria sentir que não era tão estranho passar por algo assim . E isso, por sua vez, poderia levar Hannah a se dispor a falar sobre sua própria experiência. O estratagem a estava funcionando.

– “De repente eu ouvi um a enorm e explosão em baixo de m im . Um a explosão de luz que encheu a m inha visão. Eu estava no centro da luz, e a névoa tinha desaparecido totalm ente. Eu via todo o universo, refletido em cam adas infinitas. Era a eternidade se m ostrando para m im . A luz era m ais forte que cem sóis, m as não m e queim ou. Eu nunca tinha visto Deus antes, m as reconheci aquela luz com o a luz de Deus.

“Eu com preendi a luz, em bora não tivesse palavras para ela. Nós não nos com unicam os em dinam arquês ou em outra língua. A com unicação foi num nível totalm ente diferente do que a que acontece quando nos com unicam os com um a coisa tão banal com o a linguagem . Estava m ais para a m úsica ou a m atem ática.”

Com um esforço, Hannah ergueu a cabeça do travesseiro.

– É isso m esm o que ela escreveu?

– É.

Agnes olhou para ela. Hesitante. Depois continuou lendo.

– “Um a linguagem não verbal. E eu sabia as respostas para todas as grandes perguntas, as perguntas que beiram o clichê: Por que nós estam os aqui? Para aprender. Qual é o significado da vida? Am ar. Era com o se eu estivesse sendo lem brada de algum a coisa que eu j á sabia m as tinha esquecido. Então eu percebi que era hora de voltar.”

Agnes fez um a pausa para tom ar fôlego.

– E vej a com o Kim berly Clark Sharp conclui o relatório dela: “Eu quase não suportava a ideia. Depois de ver tudo aquilo, depois de encontrar Deus, eu realm ente precisava voltar para o m undo antigo? Mas não havia nada a fazer. Eu precisava voltar. Então, pela prim eira vez, vi m eu corpo e entendi que eu j á não fazia parte daquele corpo. Eu não tinha ligação com ele. O que eu entendi naquele m om ento foi que o m eu ‘eu’ não fazia parte do m eu corpo. A m inha consciência, a m inha personalidade, as m inhas lem branças, estavam num outro lugar, não na prisão de carne que o m eu corpo representava”.

Agnes ergueu o olhar.

– Tem m ais? – indagou Hannah.

– A história é essa. Olhe um a foto dela. – Ela passou a caderneta para Hannah, que exam inou a figura de um a típica dona de casa am ericana, com o se a foto tivesse sido tirada diretam ente de um program a da Oprah Winfrey.

– O corpo com o um a prisão. – Hannah estava pensando alto.

– É um a im pressão m uito com um nos casos de experiências de quase m orte. A separação de corpo e alm a. Vam os para a Índia?

– Com o?

– Experiências de quase m orte podem ser encontradas em todas as religiões e culturas. Essa que eu vou relatar agora não está escrita, m as eu m e lem bro do que aconteceu. Um indiano cham ado Vasudev Pandey. Aos dez anos de idade ele teve um a doença m isteriosa que o m atou.

– Eu sem pre desconfiei das histórias que com eçam com um a doença m isteriosa.

– Pela descrição dele seria um paratifo. De qualquer form a ele m orreu. Depois de ter sido dado com o m orto, seu corpo foi transportado para o crem atório. De repente ele m ostrou sinais de vida. Foi im ediatam ente levado para o hospital, onde vários m édicos o exam inaram . Eles tentaram m uitas técnicas de ressuscitação, inclusive inj eções. Finalm ente os m édicos conseguiram fazer o coração funcionar de novo, m as ele não estava consciente. Só depois de três dias em com a profundo o m enino despertou.

– E então o que foi que aconteceu com ele? – perguntou Hannah.

– Ah, você vai ver. – A velha sorriu. – Você está curiosa. Quando faço palestras sobre esse assunto costum o dizer que as experiências de quase m orte im pressionam tão fortem ente que as pessoas nunca as esquecem . Isso pode parecer ridículo, m as é verdade. Tem pos depois Vasudev Pandey descreveu a sua experiência, ou m elhor, a impressão, de duas pessoas o terem erguido e levado para longe. Pandey logo se cansou, e então as duas pessoas precisaram arrastá-lo. Eles logo encontraram um aleij ado.

Hannah riu.

– Um aleij ado?

– Eu sei que é engraçado. Mas foi assim que ele descreveu o hom em . O aleij ado estava furioso e com eçou a berrar com os dois hom ens que tinham levado Pandey. “Eu pedi para vocês o j ardineiro cham ado Pandey ”, disse ele. “Olhem para o que vocês m e trouxeram . Eu preciso de um j ardineiro. Mas vocês aparecem aqui com um m enino cham ado Pandey.”

– Parece um a com édia.

– Pode ser. Pandey disse que quando recobrou a consciência um grande grupo de fam iliares e am igos rodeava o que eles diziam ser um caixão de criança. Entre eles estava o j ardineiro cham ado Pandey. O m enino contou para o hom em o que tinha ouvido m as o j ardineiro e todos os outros riram dele. O Pandey j ardineiro era forte e j ovem . Mas no dia seguinte... – Agnes fez um a pausa para im pressionar.

– Ele m orreu – sussurrou Hannah.

– Isso m esm o.

O silêncio envolveu o quarto com o um a bolha à prova de som .

– A história é m uito bem docum entada. Mais tarde Pandey – o m enino – disse que o aleij ado era Yam a, o deus hindu da m orte. O m enino disse tam bém que os m esm os dois hom ens o trouxeram de volta quando ficou claro que eles tinham levado o Pandey errado.

A velha respirou fundo. Era evidente que falar tanto estava exigindo m uito dela.

– Não tenho dúvida de que a história de Vasudev Pandey tam bém vai acabar no livro.

– No livro?

Agnes sorriu.

– Pense no que a m orte significa para todos nós. É a única coisa de que tem os certeza: todos nós vam os m orrer. A única coisa que nos liga genuinam ente com o seres hum anos. A única coisa com um a todos nós que transcende todas as fronteiras nacionais, as diferenças culturais e religiosas. Todas essas coisas. Alguns psicólogos dizem que tudo o que nós fazem os se relaciona de algum m odo ao fato de que a m orte nos espera. É por isso que nós am am os. É por isso que tem os filhos. É por isso que nos expressam os. Por outras palavras, a m orte está presente em todas as ocasiões. Assim , por que não tentarm os descobrir o m áxim o possível sobre ela? Eu pensei no fato – e isso parece absurdo, então você pode rir à vontade; estou acostum ada com essa relação – de que m uitas pessoas leem guias antes de viaj ar. Querem saber algum a coisa sobre Paris ou Londres, ou outro lugar qualquer para onde estão indo. Assim elas ficam preparadas. A m orte é o destino final, e eu quero escrever um guia. Isso lhe parece m aluco?

Hannah balançou a cabeça.

– Explicado assim , não.

Agnes Davidsen se inclinou para a frente e olhou bem olhos de Hannah.

– Quer m e contar o que lhe aconteceu quando você estava m orta?

Hannah hesitou. Em algum lugar um rádio estava tocando m úsica de Natal. “Estou viaj ando para passar o Natal em casa.”

– Hannah... Nós falam os sobre o momento da m orte, m as ela é m ais um processo. A respiração cessa, o coração para de bater e o cérebro deixa de funcionar. Mesm o quando esse processo se encerra, há um período – para alguns indivíduos ele pode durar até um a hora – em que é possível fazer a pessoa reviver. Assim , a questão é: O que acontece com o m orto durante esse tem po? É isso que nós estam os pesquisando. – Ela pôs a m ão no braço de Hannah. – Quanto tem po você ficou m orta?

– Não sei. – Hannah fez um esforço e encolheu os om bros.

– Cerca de nove m inutos – disse-lhe Agnes. – Pelo m enos foi o que m e disseram .

Hannah não respondeu.

– Pode falar à vontade com igo. Eu não vou usar a sua experiência para fazer algum a coisa a que você se oponha. Meu principal interesse é apenas ouvir o que você tem a dizer. Lem bre-se de que há m uitos elem entos com uns nas experiências de quase m orte e ao m esm o tem po não existem duas experiências absolutam ente iguais. Sem pre há pequenas diferenças. Você estaria disposta a m e falar sobre isso?

Hannah olhou para a prateleira.

– Acho que não.

– Por que não?

Ela hesitou.

– Acho que eu não quero ser a prova...

Riso rouco de Agnes.

– A prova da vida depois da m orte? Não é isso que nós estam os procurando. Nós cham am os esse estudo de estudo da consciência. Assim ele não parece tão assustador.

Silêncio. Finalm ente Agnes perguntou:

– Hannah, você sabe o que é que está lá em cim a na prateleira? Você viu?

Agnes tentou outra abordagem .

– Você acredita em Deus?

– Não sei.

– Eu pergunto porque m uita gente interpreta a experiência de quase m orte – o vislum bre que elas tiveram do que pode ser um a vida após a m orte – com o um a prova definitiva da existência de Deus. Na m inha opinião as duas coisas devem ser separadas. Nesse ponto eu discordo dos m eus colegas. No m eu m undo é possível im aginar um a vida após a m orte que não envolve Deus.

– O que é que você quer dizer?

– A coisa m ais im portante para m im é provar a existência de um a consciência separada do corpo. Atualm ente parece que nós acreditam os cada vez m ais que tudo pode ser explicado, analisado e categorizado.

Hannah fechou os olhos. Pensou em Johannes. Em com o ele era. Na sua figura. Nos últim os m eses ela se pegara várias vezes tendo dificuldade em se lem brar do rosto dele. Faltavam detalhes, então ela recorria às fotos. Na prim eira vez que isso aconteceu – no final do verão do ano anterior – ela havia ficado arrasada. Sentia-se com o um a assassina. Muitas vezes ela pensara no fato de que em bora Johannes estivesse m orto, de certo m odo ele continuava vivo. Na lem brança dela. Bastava fechar os olhos e vê-lo bem diante dela, em pessoa. Agora que isso não era m ais possível ela o havia em purrado definitivam ente para a escuridão.

– Hannah?

A voz vinha de longe. Com um ligeiro eco.

– Fique de olhos fechados, se assim é m elhor para você.

Hannah não disse nada. Manteve os olhos fechados e tentou se acostum ar à escuridão cerrada em torno dela.

– Eu m e vi dentro de um a escuridão im penetrável.

Hannah ouviu Agnes abrir a bolsa e tirar de lá algum a coisa. Talvez um gravador. Ou um a caneta.

– Em torno de m im havia ar, de todos os lados. Mas depois – na obscuridade – um a nesga de luz surgiu e com eçou a aum entar. A princípio era apenas um a listra branca. Com o um a única linha de giz num enorm e cam po de futebol. Um cam po negro. Um a coisa plana. Você entende?

– Entendo.

– Ela se am pliou lentam ente e se transform ou num a espécie de abertura. A luz invadia tudo; era suave e agradável.

Agnes estava respirando calm am ente. Hannah não abriu os olhos. Agora ela teria de falar.

– Eu não estava m e m ovendo por conta própria. Fui erguida e m e puxaram . Com o se tivessem m e am arrado cordas – em bora eu não as visse. Havia um a quietude que eu nunca experim entara em outro lugar. Um a calm a tão... não... eu estava plenam ente consciente. Pensava com m uita clareza.

Hannah sorriu àquela lem brança, e Agnes deu um a palm adinha m aternal no braço dela.

– E então o que foi que aconteceu?

– Eu pensei no Niels.

– Seu m arido?

Hannah parou para pensar. Niels é m eu m arido?

– Você com eçou a voltar.

– É. Mas não do m esm o m odo. Estava m ais escuro.

– Então o que foi que aconteceu?

Hannah parecia estar à beira das lágrim as.

– Então eu estava pairando sobre m im m esm a. E olhando os m édicos trabalhando e trabalhando no m eu corpo. Parecia tão estranho. Tão desagradável. Branco e arruinado. Feio.

– Você estava pairando sobre você m esm a?

– Estava.

– Nesta sala?

– É.

– Você ficou surpresa com algum a coisa que viu?

Hannah não disse nada.

– Hannah?

– Sim .

– O quê?

– Um a im agem . Um a im agem de um bebê nu. Um a ilustração. Um bebê listrado.

– Listrado?

– É. Com o aquela coisa do Flower Power: verm elho, am arelo, verde, azul, todas as cores do arco-íris. As cores m ais vivas.

– E então você acordou?

– Não. Então tudo ficou preto. E eu desapareci.

Hannah abriu os olhos e enxugou as lágrim as. Agnes estava sorrindo para ela.

– Tudo bem , então se apresse – disse Hannah. – Eu sou astrofísica. Sei o que é esperar pela prova.

Agnes saiu, e Hannah ficou sozinha por um m inuto. Então Agnes voltou com um a escada. Ela subiu. A escada deslizou uns cinco centím etros no chão de linóleo, e Agnes olhou para baixo am edrontada.

– Talvez fosse m elhor você pedir a alguém para firm ar a escada – disse Hannah.

– Não, está tudo bem .

Agnes Davidsen subiu os últim os degraus e pegou o papel que estava na prateleira. Sem olhar para ele, desceu e ficou diante de Hannah.

– Você está pronta?