O Último Homem Bom
Capítulo 1
Hospital Nacional – Copenhague
Niels estava inconsciente. Se não estivesse, teria visto o helicóptero aterrissar no teto do Hospital Nacional, teria visto os m édicos e serventes esperando para recebê-lo, teria sentido ser erguido até um a m aca e transportado por um corredor estreito que levava a um elevador.
Ele estava viaj ando ao lado de Hannah. Talvez tenha acordado. De qualquer form a, ouviu vozes dispersas, pedaços de frases, palavras que passavam flutuando: Colhido por um trem... Não, colhido por um carro num cruzamento com ferrovia... Por que não Skejby?... Condições climáticas ruins... unidade de queimados... centro de trauma.
Um a frase ele ouviu m uito claram ente. Não consigo sentir o pulso dela.
Alguém respondeu. Parecia um a discussão, m as Niels não tinha certeza. Ele viu sua m ão se estender na direção dela. Ouviu-se sussurrando:
– Hannah.
– Já estam os chegando.
– Hannah.
– Ela está piorando. Precisam os com eçar...
Eles pararam . Pelo m enos foi o que Niels pensou. Até ter a percepção, envolta num a névoa de m orfina, de que era apenas Hannah que tinha parado. Ele continuou, e aquele foi o pior m om ento. Pior que o próprio acidente. Pior que o instante em que o carro o atingiu. Niels tinha a im pressão de que havia sido partido ao m eio, e no canto do olho ele viu – ou talvez tenha apenas sentido – que os m édicos estavam debruçados sobre ela e...
De novo ele estava inconsciente.
Não fazia diferença. Agora tudo havia acabado. Foi bom . Durou apenas um m om ento. Porque um m om ento depois...
Q uarta-feira, 23 de dezembro
... a luz chegou até ele. Ele pensou: Então é isso. Não estava com m edo, podia conseguir som ente um dar de om bros resignado para a luz que se aproxim ava no final da escuridão, sua vida que estava lentam ente declinando, um rosto que se inclinou sobre ele, um a linda m ulher, talvez um anj o que...
– Ele está acordado?
O anj o falava com ele.
– Está. Está voltando a si agora.
Duas enferm eiras olhavam para ele. A m ais j ovem – o anj o – parecia genuinam ente curiosa. A outra apenas via o lado prático, observava.
– Hannah – m urm urou ele.
– Vou cham ar o m édico.
Niels não sabia dizer qual das enferm eiras falara. Era m uito difícil separar os pensam entos dele das palavras delas. Ele olhou por um a j anela: flocos de neve ilum inados pela claridade do hospital, cuj as lâm padas nunca apagavam . Ele tentava se lem brar, tentava reunir todos os fragm entos num a lem brança do que havia acontecido.
– Niels Bentzon?
Niels reprim iu um sorriso inadequado, que supostam ente se devia a algo tão banal com o a alegria sentida por ele ser capaz de se lem brar do seu nom e.
– Você está acordado. Isso m e alegra. Meu nom e é Asger Gam m eltoft. Sou o cirurgião principal daqui. Faço parte da equipe que o operou. A operação durou oito horas.
– Hannah? – Niels não ouvia a sua própria voz. – E as m eninas?
– Pode falar um pouco m ais alto? – O m édico se curvou, aproxim ando-se de Niels.
– Elas se feriram ?
– Você está falando das crianças? – O m édico se em pertigou e confabulou rapidam ente com as enferm eiras; eles m urm uravam com o se estivessem conspirando. – As m eninas não se feriram . Escaparam ilesas. Você salvou a vida delas. – Ele em purrou para cim a os óculos. Sua expressão era bondosa m as arrogante. Ele fazia um esforço honesto para ser atento, em bora outras coisas ocupassem a sua m ente. – Vou ser franco e lhe dizer que você tem várias lesões sérias. Muitas delas são típicas das pessoas que sofreram um acidente de carro. Lesões na bacia e nas costas, na cavidade abdom inal, costelas quebradas e vértebras cervicais contundidas, acum ulação de sangue nos pulm ões. Não vou sobrecarregá-lo agora com todos os detalhes. O im portante é que você sobreviveu.
Ele enxugou o suor aloj ado na sobrancelha e depois guardou de volta o lenço.
– Durante as prim eiras horas da operação nós não tínham os certeza de que você sobreviveria. – Ele suspirou. – Está com sede?
Antes que Niels pudesse responder, um a enferm eira j á estava pondo um canudo na sua boca.
– Beba um pouco. É suco. Você precisa de m uito líquido.
Morango e fram boesa. Doce a ponto de nausear. O canudo na sua boca despertou lem branças perdidas da sua infância. O ruibarbo atrás do cam po de futebol. Os tom ateiros, com talos peludos com o as pernas das aranhas.
– Bom . Am anhã você talvez possa com er algo sólido.
Provavelm ente foi a ideia da com ida sólida que fez Niels baixar o olhar para o seu corpo. Seus braços se proj etavam sob as cobertas. Ele viu um tubo de soro e ataduras.
– O que foi que aconteceu com igo?
– Talvez fosse m elhor você deixar para conversar m ais tarde.
– Não! Eu quero saber agora.
A enferm eira sussurrou algo no ouvido do m édico. O dr. Gam m eltoft balançou a cabeça.
– Niels. Você perdeu m uito sangue, m as nós conseguim os estabilizar a sua situação e por isso estam os otim istas. – Ele se corrigiu: – Quer dizer, muito otim istas. Nós tam bém descobrim os alguns acúm ulos de sangue atípicos nas suas costas. Os m édicos que o atenderam no local do acidente acharam que seriam queim aduras. E por isso o trouxeram para cá. Mas o que você tem nas costas não são queim aduras.
Ele pigarreou.
– Inicialm ente nós acham os que um a tatuagem antiga que você tinha havia gerado um a erupção, m as o m ais provável é que os vasinhos de sangue da pele, ou m elhor, sob a pele, tenham se expandido ou... Vam os pedir para um derm atologista dar um a olhada nisso. Mas é m uito com um haver um a infecção fúngica depois de um a operação. Isso é sinal de que o seu sistem a im unológico está em ação.
“Mas no m om ento o que você precisa fazer é descansar. É provável que nós tenham os de voltar a operá-lo, m as por enquanto a coisa m ais im portante para você é ter paz e sossego. É com o nós costum am os dizer aqui: ‘O m elhor m édico é o seu próprio corpo’.” – O m édico m eneou a cabeça, o que aparentem ente indicava que a conversa tinha se encerrado.
Niels tentou detê-lo. Ele sussurrou:
– Hannah.
– Eu não consigo ouvir o que você está dizendo.
Niels tentou reunir toda a sua energia para falar.
– Hannah...
O dr. Gam m eltoft continuava sem ouvir. O nom e dela era com posto de sons dem asiadam ente indistintos que quase não eram outra coisa senão ar.
– Han... – Niels tentou m ais um a vez.
– Você precisa descansar. – O m édico j á ia sair, m as m udou de ideia e de novo chegou bem perto.
– ...han...
– Você ficou inconsciente por quase setenta e duas horas. Teve lesões sérias. Precisa descansar.
Setenta e duas horas? Niels olhou pela j anela. Era com o se a data tivesse despertado o seu cérebro adorm ecido. Setenta e duas horas.
– Quarta-feira?
– Sim , hoj e é quarta-feira, 23 de dezem bro. Você esteve ausente por três dias.
– Sexta-feira.
– O quê?
– Vai acontecer na sexta-feira.
O m édico olhou para a enferm eira. Os olhos deles m antiveram um a conversa que Niels não entendeu, m as isso não tinha im portância. Ele precisava sair dali. Ir para o m ais longe possível. Ele olhou pela j anela e im aginou com o faria isso. Era im possível andar. Ou será que não? Ele olhou em torno de si. O m édico havia deixado o quarto.
A enferm eira j ovem veio até Niels.
– Você precisa entender que é m uito com um ter lapsos de m em ória depois de um acidente grave. Mas a sua m em ória vai voltar lentam ente. Esses lapsos não significam um a lesão cerebral im portante. Eu tenho certeza de que você vai se recuperar totalm ente.
– Hannah?
A enferm eira m ais velha apresentou um a explicação. Niels ouviu um a versão um tanto distorcida do que ela havia dito.
– Ele está falando da nam orada.
– Hannah!
– Calm a. Você precisa relaxar.
– Me conte.
A enferm eira j ovem olhou para o estôm ago dele. Fazendo um grande esforço, ele virou a cabeça e tam bém olhou para baixo. Então viu que ele estava agarrando com m uita força o pulso dela. Suas unhas estavam cravadas na pele dela.
– Um a coisa de cada vez. Certo? A coisa m ais im portante agora é você readquirir a sua resistência.
– Me fale!
– Nós vam os cham ar um m édico, Niels. Espere um m inuto.
A enferm eira m ais velha desapareceu. Niels precisou lutar para não dorm ir. Ele queria esperar até o j aleco branco novo chegar para lhe dizer algum as palavras alentadoras e lhe dar um sedativo. Queria sentir a enferm eira pegar na sua m ão e apertá-la com genuína sim patia enquanto o m édico dava a Niels a notícia que ele j á sabia. A notícia que havia m uito tem po ele lera nos olhos da enferm eira j ovem quando ela tentou não olhar para ele. A notícia de que Hannah estava m orta.