O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 68 de 137

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O Último Homem Bom

Capítulo 58

Copenhague

– Salve o planeta. Se não agirm os agora será o apocalipse. Exigim os ações.

Niels e Hannah estavam sentados no carro, olhando para toda aquela m ovim entação. Alguns m anifestantes dançavam , enquanto outros pareciam a ponto de explodir de raiva pela inj ustiça que se vê no m undo.

– Qual é a distância daqui até lá? – indagou Niels.

– Depende do m odo de transporte.

– Quantos décim os de latitude e longitude?

– Décim os? – ela sorriu. – Os graus são divididos em m inutos – o que significa sextas partes – e segundos. Assim , o núm ero de segundos depende do...

Niels a interrom peu.

– Hannah! Qual é a distância?

– Mais ou m enos dois quilôm etros e m eio.

Niels estacionou o carro j unto da calçada, puxou o freio de m ão e arrancou da tom ada o GPS.

– O que é que você está fazendo? – perguntou Hannah.

– Vam os a pé.

 

À distância havia algo de estético nos m anifestantes. Era um quadro que Hannah e Niels j á tinham visto centenas de vezes – um denso enxam e de gente seguindo pelas ruas. Mas quando eles se j untaram à m ultidão e cam inharam com ela as coisas foram bem diferentes. Niels pegou o braço de Hannah e eles forçaram a passagem . Ali, no centro da ação, foram cercados por um a energia feroz e caótica. E pelo fedor de bebida destilada. Niels fez contato visual com um a m ulher que tinha m uitos piercings. As pupilas dos olhos dela estavam ligeiram ente dilatadas e o rosto tinha um a expressão distante. Nada podia acontecer a ela; ela nem sequer sentiria se a polícia lhe desse um a cacetada. Isso era algo que as pessoas sentadas em casa diante da televisão não sabiam . Os j ovens se drogavam e frequentem ente eram necessários dois ou três policiais para dom inar um anarquista irado e anestesiado por algum estranho coquetel de drogas que burlam a lei. Eles não reagem à dor.

Onde estava Hannah? Poucos m inutos antes ele a havia segurado pelo braço, m as agora ela desaparecera. Niels olhou em torno. Todos estavam vestidos de preto, com o se prontos para o Dia do Juízo Final. Um grande tam bor tentava não sair do ritm o. De repente ele a viu. Ela parecia am edrontada. Um bêbado que j á deveria ter desistido desse tipo de m anifestação havia m ais de dez anos a enlaçara com o braço e estava tentando dançar. Com o se o evento fosse a Terça-Feira de Carnaval.

– Niels!

Ele abriu cam inho pela m ultidão, andando contra a corrente.

– Ei! – Um j ovem tinha agarrado o paletó de Niels. – Eu conheço você. Você é policial. Um policial filho da puta! – gritou ele, e quando Niels o em purrou para o lado era evidente a sua disposição de repetir sua frase em voz m ais alta. O rapaz se desequilibrou e caiu no chão com o o orvalho no verão, leve e quase im perceptível. Pelo m enos a coisa aconteceu com tanta rapidez que Niels pôde segurar Hannah antes que alguém descobrisse o rapaz. Ele agarrou a m ão dela, que estava quente apesar da tem peratura fria.

– Você está bem ?

– Quero sair daqui.

– Não se preocupe. Vou tirar você daqui – disse Niels olhando por sobre o om bro. O garoto estava de pé, olhando à sua volta. Eles quase não conseguiram ouvir o que ele disse antes de suas palavras serem abafadas pelo barulho do tam bor grande:

– Seu policial filho da puta! Filho da puta!

 

Copenhague se tornara um a cidade raivosa. As pessoas tinham rabiscado até nas paredes de estuque am arelo que cercavam o Cem itério Assistens, proclam ando as suas frustrações. “foda-se” era aparentem ente a expressão que m elhor descrevia a crise existencial da cidade. “a terra leva a sua m arca” estava escrito com letras sim páticas sobre a entrada do cem itério. Talvez m ais um a m ensagem sobre o clim a. Ou poderia ser a verdade sim ples de um coveiro: Deixam os um a m arca se nos perm itim os ser enterrados.

Dentro do cem itério eles pararam para recuperar o fôlego.

– Vam os atalhar por aqui. Certo? – indagou Niels.

Hannah exam inou o cem itério e depois olhou de novo para os m anifestantes, com o se estivesse pensando em dar m eia-volta.

– É o cam inho m ais curto. Algum a coisa errada?

– Não. Claro que não.

Ele precisou controlar um desej o de pegar novam ente na m ão de Hannah. Tinha sido um a sensação m uito boa, a da m ão dela na sua.

– O que é que o GPS diz?

Ela tirou do bolso o aparelho.

– A bateria está fraca.

– Então venha.

Niels pegou no cotovelo de Hannah, o que a fez sobressaltar-se. Depois ela m udou de expressão, parecendo tão vulnerável que ele quis envolvê-la com os braços. Um pensam ento ocorreu a Niels, m as tarde dem ais. O filho de Hannah estaria enterrado ali?

 

Alguns anos antes Kathrine o havia arrastado até aquele cem itério para um tour à m eia-noite que tinha um a preparação especial. Os participantes recebiam tochas acesas e passavam de um túm ulo para outro enquanto dois pastores, um a m ulher e um hom em , se revezavam contando a história do cem itério. “O suor inglês.” Niels se lem brava do term o porque ele lhe parecera m uito estranho. Era um vírus que tinha m atado m ilhares de cidadãos de Copenhague no século XVI. Havia tantos corpos que foi preciso construir um novo cem itério. Desde então os dinam arqueses m ais fam osos tinham sido enterrados ali.

– O que é que o GPS diz agora?

– Siga em frente – respondeu Hannah, ainda parecendo intranquila. A neve tinha transform ado o cem itério num a paisagem m onocrom ática. A coberta branca só se interrom pia nas lápides escuras. O cem itério parecia um tabuleiro de xadrez em branco e preto. As lápides m enores eram dos peões, os m ortos desconhecidos. O m usgo e todo tipo de intem périe haviam , fazia m uito tem po, apagado os nom es gravados nas pedras. Bem m aiores eram as dos reis: Hans Christian Andersen, Søren Kierkegaard e Niels Bohr. Em volta deles os bispos e as torres: atores e autoridades m uito conhecidos na sua época, m as que tinham sido esquecidos. Finalm ente havia aqueles que tinham alcançado a im ortalidade em razão do m odo incom um com o deixaram a vida. Um a j ovem viúva, por exem plo, que fora enterrada viva alguns séculos atrás. Niels se lem brava da história que a pastora contara. Naquela época um coveiro trabalhava tam bém fora do expediente. Ele enterrava as pessoas durante o dia e à noite trabalhava com o ladrão de sepulturas. Quando ele abriu o túm ulo da j ovem viúva os olhos dela se abriram .

– Me tire deste lugar terrível! – gritou ela. O coveiro golpeou com a enxada a testa da m ulher, pegou as suas j oias e voltou a cobrir de terra o túm ulo. Muitos anos depois, no seu leito de m orte, ele confessou o assassinato. Bem m ais recentem ente o corpo da viúva foi exum ado e se constatou que ela havia se m exido no caixão e estava sem nenhum a j oia; a agressão ficou evidente. Hoj e esse túm ulo recebe tantos visitantes quanto o de Hans Christian Andersen.

 

Hannah pareceu aliviada ao deixar o cem itério e voltar para a rua. Eles atravessaram a Nørrebrogade e cam inharam pela Møllergade, passando pelo Centro Literário e pelo cem itério j udeu. A neve estalava sob seus pés e o ar era terrivelm ente frio. Eles cam inhavam em silêncio. Hannah m antinha os olhos fixos no GPS. Então ela parou abruptam ente.

– Aqui!

– Aqui? – Niels olhou em volta. O que ele havia esperado? De qualquer form a não um velho e som brio prédio de apartam entos de cooperativa. Dois carrinhos de bebê haviam se aliado à bicicleta de entregas para bloquear a passagem na calçada.

– Você tem certeza?

Ela olhou com desconfiança para o GPS.

– Pelo m enos eu acho que sim – respondeu ela insegura. – Em bora a bateria estej a acabando. Ele parou.

– Mas você acha que seria aqui?

– Acho. Claro, há um a m argem de erro. Mas tem de ser dentro de poucos m etros daqui.

Niels cam inhou alguns m etros para a frente e para trás. O prédio de apartam entos era o único por ali. Em outros tem pos havia prédios vizinhos dos dois lados, m as eles tinham sido dem olidos. A única coisa que se via além dele era um playground som brio e deserto.

– Eu não sei – disse Hannah apreensiva, m udando o peso do corpo de um pé para o outro.

– O que é que você não sabe?

– Tem um a pequena m argem de erro. Talvez poucas centenas de m etros. Se eu tivesse m ais tem po...

– O lugar não pode ser este.

Ela olhou para ele.

– O que é que você esperava encontrar?

Niels balançou a cabeça.

– Não sei. Um m aníaco religioso, talvez. Vam os supor que o seu sistem a estej a certo. Quem é que poderia ter pensado num a coisa dessas?

– Por que é que em vez disso você não procura a próxim a vítim a?

Niels deu de om bros.

– Poderia ser qualquer pessoa. Alguém que por acaso estej a passando a pé por aqui. – Ele olhou para as placas com os nom es dos m oradores do prédio.

– Se você for pensar nisso, Niels... Quer dizer, pense na precisão m atem ática. – Esse pensam ento fez Hannah sorrir.

– O que é que você está im aginando?

– Vam os dizer que é um fenôm eno – ela propôs.

– Um fenôm eno? – Niels não podia com partilhar a aparente alegria de Hannah com a sua teoria. Em vez disso ele ligou para Casper na chefatura de polícia.

– Niels Bentzon. Eu quero que você cheque para m im alguns nom es.

Hannah olhou surpresa para Niels quando ele com eçou a ler os nom es no quadro do portão eletrônico do prédio. Carl Petersen, terceiro andar. Lisa O. Jensen, terceiro andar. De repente a porta abriu. Niels recuou um passo. Um velho olhou m al-hum orado para eles.

– O que é que vocês estão fazendo aqui?

Niels nem se deu ao trabalho de m ostrar sua identidade policial.

– Polícia de Copenhague. Vá circulando.

O velho j á ia dizer algum a coisa, m as Niels o interrom peu.

– O senhor não tem nada a ver com isso.

O m orador do prédio se foi pela rua, m as olhou para trás pelo m enos cinco vezes. Enquanto isso Casper tinha pesquisado os nom es.

– Acho que tenho a pessoa que você está procurando – disse ele.

– Quem é?

– Carl Petersen, terceiro andar à direita.

– É m esm o? O que você m e diz sobre ele?

– Estuprou e estrangulou um a m enina em 1972. Enterrou seu corpo perto do lago Dam hus. Ganhou liberdade condicional em 1993. Nascido em 1951.