O Último Homem Bom
Capítulo 84
Silo de Carlsberg – Copenhague
– Minha m ulher é arquiteta – disse Niels quando a porta do elevador se abriu m ostrando seu apartam ento.
Hannah não com entou o tam anho do apartam ento. Apenas afundou no sofá com o se m orasse ali. Todos ficavam enfeitiçados com a vista de trezentos e sessenta graus. Mas não Hannah. Certam ente ela j á viu coisas m uito m ais im pressionantes, pensou Niels enquanto abria um a garrafa de vinho tinto. Com o astrônom a, ela havia se deitado sob o céu aberto nos Andes, vira sóis explodirem no Cinturão de Órion e m uitas outras coisas do tipo. Contem plar a vista de Carlsberg era algo que ficava m uito aquém daquelas experiências. Ele lhe passou um a taça de vinho.
– Pode fum ar aqui.
Subitam ente Niels sentiu um a pontada de culpa. Com o se estivesse sendo infiel. Hannah estava agora de pé próxim o à j anela.
– Eu sem pre m e im pressiono...
– O quê? – Ele se aproxim ou.
– Quando lá de cim a eu olho para as cidades. Com o aqui. Ou quando de lá eu olho para a Europa à noite. Com todas as luzes. Você j á experim entou essa sensação?
– Não. O m eu forte não é voar. Viaj ar.
Ela pareceu pasm a.
– Não? – Hannah olhou para ele. Com o se tivesse acabado de perceber algo.
– Então, você estava dizendo... – Niels lem brou-a.
– Que as luzes das cidades têm exatam ente a m esm a aparência da luz no espaço. Quando olham os para as galáxias, Niels. É assim que ela é. – Hannah apontou para um a luz distante no horizonte. – Im pressionantes áreas de nada. E então, de repente, um enxam e de luzes. Vida. Quase com o um a cidade.
Niels não sabia o que dizer. Ele encheu de novo as taças.
– Talvez fosse bom ligar para o Tom m aso. Saber se ele descobriu algum a coisa.
– Descobriu algum a coisa? Não sei se eu aguentaria estender esse assunto hoj e.
– Então eu ligo. Só quero saber se ele atende. Você traduziria, se ele atender? – Niels digitou o núm ero. Tentou novam ente. – Alô? Inglês? Esse é o núm ero do Tom m aso di Barbara?
Hannah se serviu de um pouco m ais de vinho tinto. Ela estava ouvindo Niels, no seu quarto, falar no telefone. Que história era aquela que ele lhe contara havia pouco? Hannah não conseguia tirar da cabeça aquelas palavras. O meu forte não é voar. Viajar. Ele estava gritando no quarto:
– O quê? Eu posso falar com ele? Não estou entendendo.
Depois de alguns m inutos ele saiu do quarto e se encam inhou para o banheiro.
Ela teve um relance da sua expressão confusa.
– Acho que estão tentando encontrá-lo. Na verdade eu não sei lhe dizer o que está acontecendo.
Hannah o seguiu. À distância. No banheiro ele tirou a cam isa e a j ogou no chão. Ela olhou para ele. Havia sangue na cam isa. Ele virou de costas para ela. Hannah sabia o que ia ver, m as m esm o assim ficou chocada.
– O quê? Não? Tom m aso? – disse Niels no celular.
Niels estava tentando entender o que fora dito no telefone, m as a pessoa do outro lado da linha j á havia desligado. Ele depôs o celular num banquinho. Estava diante da pia, inclinado sobre as duas m ãos. Hannah não tirava os olhos dele. Finalm ente ele se virou.
– Ele... ele... – gaguej ou Niels.
– Ele m orreu – disse ela.
– Com o é que você sabe?
– A questão é: com o é que nós não percebem os isso antes?
– O que é que você quer dizer?
– Niels. Ele foi o núm ero trinta e cinco.
Hannah o tinha perdido. Ela via isso claram ente. Entrou no banheiro e cuidadosam ente tom ou a m ão de Niels.
– O que foi?
– Vire-se.
Cautelosam ente ela o virou diante do espelho. Pegou um espelhinho na pia e lhe entregou.
– Use isto.
Ele não conseguiu ver logo de início. Depois viu. Um a m arca havia surgido nas suas costas. Ainda não estava m uito clara. Quase parecia um eczem a. Mas a form a era inequívoca. Ele deixou cair o espelho, que se espatifou no chão de azulej o prom etendo sete anos de m á sorte. Então saiu correndo do banheiro.
– Niels?
Ele j á se fora. Bateu a porta do quarto atrás de si. Hannah gritou:
– Vocês dois se encontraram . Isso é óbvio. Eram os únicos que prestariam atenção.
Ela o ouviu rem exer por toda parte no quarto.
– Vocês eram os únicos que prestariam atenção – repetiu ela para si m esm a. Niels escancarou a porta. Estava com outra cam isa e tinha na m ão um a m ala. A m ala que ele havia feito m uito tem po atrás – a que não tinha querido viaj ar. Mas agora queria.