O Último Homem Bom
Capítulo 13
2h41 – 13 horas antes do crepúsculo
O frio era m aligno e pessoal. Perseguia Niels aonde quer que ele fosse.
Niels estava correndo de m eias pela neve. Atravessando o estacionam ento, em direção ao departam ento psiquiátrico. Ele tirou as m eias e as lançou longe. Não lhe estavam valendo para nada. Um m otorista de táxi lhe dirigiu um olhar assustado ao sair do carro. Niels sabia o que ele estava pensando: bom que aquele m aluco estej a correndo para o hospício e não fugindo de lá. Niels se perguntou se não seria m ais sensato entrar no táxi. Ir para casa, pegar algum dinheiro no apartam ento para pagar o m otorista. Encontrar o passaporte e...
A Em ergência da ala psiquiátrica nunca fechava. Ataques súbitos de ansiedade, conduta perturbadora, depressão, paranoia ou ideias de suicídio não se restringiam ao horário com ercial. Um casal estava tentando acalm ar a filha adolescente anoréxica que dizia aos berros não querer m ais viver essa droga de vida. A m ãe chorava. O pai parecia disposto a dar um as bofetadas na garota. Logo depois da porta um hom em estava deitado no chão, dorm indo. Ou então ele estava... Niels rej eitou a ideia. Claro que ele não estava m orto.
Niels pegou um a senha e se sentou com os outros pacientes, sem querer atrair a atenção, em bora quase ninguém o fitasse. Baixou a cabeça e olhou para os pés. Estavam verm elhos e desprendendo um leve vapor, agora que recebiam o calor da sala de espera. Seus dedões estavam insensíveis. A m ulher atrás do balcão m andava para casa a m aioria das pessoas depois de conversar brevem ente com elas. Sua tarefa era essa. Ela era a prim eira linha de defesa do sistem a. Um anteparo hum ano. Muitas pessoas choraram ao serem atendidas. Era de cortar o coração, m as Niels sabia que havia boas razões para ela agir daquele m odo. Mais que qualquer outro lugar, a Em ergência psiquiátrica atraía alm as solitárias que ansiosam ente faziam todos os tipos de alegações apenas para ganhar um m om ento de atenção de outro ser hum ano. “Lem bre-se: os dinam arqueses são o povo m ais feliz do m undo”, escreveu na parede alguém que tentava ser engraçado.
A adolescente anoréxica recebeu um a inj eção e logo desapareceu no sistem a. A m ulher atrás do balcão se levantou para acom panhar a m oça e seus pais. Era o m om ento pelo qual Niels estava esperando. Ele se esgueirou para trás do balcão e por um longo corredor, depois parou e olhou à sua volta. As paredes de tons pastel tinham um a decoração quase fanática: um a profusão de corações natalinos, duendes e guirlandas. Um a porta se abriu atrás dele.
– Você quer brincar? – Um a linda m ulher de uns quarenta anos com um inquieto olhar m aníaco estava atrás de Niels e dava risadinhas com o um a colegial. Ela havia borrado com batom a parte inferior da face e não parecia m uito sóbria. Aproxim ou-se de Niels. – Vam os, Carsten. As crianças estão dorm indo. Já faz tanto tem po que...
– Carsten j á está chegando – disse Niels, e se apressou pelo corredor.
Os arquivos não estariam localizados na ala de atendim ento, resolveu ele. Arquivos ficam sem pre no porão. Era sem pre assim .
Paredes de tij olo. Um porão velho, deteriorado, que vinha recebendo um idade havia anos. Esses corredores eram consideravelm ente m enores que os que ele atravessara no outro prédio do hospital. Niels encontrou duas salas vazias e um quarto cheio de cadeiras dobráveis e m esas de terraço. Mas nada de arquivos. Então seguiu em frente. Eles tinham de estar lá. Mais salas. E depois a porta no final do corredor. Não havia placa nela, m as do lado de fora estavam em pilhadas algum as caixas com registros m édicos. Niels olhou em torno procurando algo que pudesse usar para arrom bar a porta. Encontrou um tanque de oxigênio vazio. Já ia arrem essá-lo contra a pesada porta m as m udou de ideia e pegou na m açaneta. Ele estava com sorte. A porta não fora trancada.
Aqueles arquivos eram m inúsculos se com parados com o que ele acabara de visitar. Dessa vez ele conhecia o procedim ento: encontrar o livro de entrada com o núm ero do arquivo, depois a ficha com o núm ero do registro, depois o arquivo do paciente. Ele precisou de apenas alguns m inutos para localizar o arm ário dos arquivos com os pacientes a partir de 1943. Depois disso foi fácil achar o paciente núm ero 40.12, Thorkild Worning. O relatório psiquiátrico era bem m ais extenso e detalhado que o relatório derm atológico.
23 de dezembro de 1943
O paciente deu entrada. O paciente se queixa de dor aguda nas costas.
Conclusões clínicas:
O paciente tem nas costas um a doença de pele que no m om ento não pode
ser definitivam ente diagnosticada, m as acredita-se que se deva a um a
form a de infecção bacteriana. Convocou-se um derm atologista da clínica de
Finsen. O paciente sofre de oscilações de hum or e num intervalo de
segundos pode passar do silêncio total para os gritos e um com portam ento
perturbador. Ele está sendo tratado com um m edicam ento ansiolítico, m as
sem resultado. O paciente dem onstra claram ente seu desagrado por estar
sendo exam inado e pelas perguntas que eu lhe faço. Sinais de esquizofrenia.
Às vezes ele se m ostra lúcido e entende por que foi hospitalizado.
No prim eiro dia, o paciente ficou deitado, apático, recusando-se a falar
com qualquer um . Ele perguntou por sua esposa e exigiu que ela traga seu
equipam ento de rádio para ele se com unicar. Recusou-se a com er. De tarde,
foi questionado se gostaria de sair da cam a, o que provocou um ataque de
raiva, que term inou com o paciente se aj oelhando e pedindo perdão a Deus.
Todavia, m ais tarde ele disse não ser um a pessoa religiosa. Ele ficou
relativam ente calm o durante a noite.
Medicação:
Não houve tratam ento anterior com m edicação.
23 de dezembro de 1943
Falou em vozes que o im pediam de dorm ir.
O paciente disse que não conseguia dorm ir de noite porque um a voz
interna o m antinha acordado. O paciente não queria explicar de quem era a
voz ou o que ela dizia. Ficou calm o durante o dia. Foi visto aj oelhado no
quarto, m urm urando versos bíblicos. Indagado sobre qual verso estava
recitando, ele se recusou a responder e deu a im pressão de que ia assum ir
um a atitude hostil, m as se acalm ou depois de conversar com um psiquiatra.
A conversa term inou com o paciente voltando a declarar que não acredita
em Deus m as acha “conveniente rezar de vez em quando”. À noite ele se
queixa de insônia e dor.
Medicação:
Recom endada adm inistração de m orfina – escopolam ina 0,75 m l.
Observações:
Conversa com Levin solicitada.
Pediu-se aj uda ao dr. G. O. Berthelsen.
24 de dezembro de 1943
O paciente teve um a noite intranquila. Não dorm iu, am eaçou um
atendente e gritou várias vezes que “prom ete prestar atenção”. Esta m anhã
o paciente sofreu um acesso de raiva. “Estou ficando furioso”, ele gritava.
Vale a pena observar que durante esse ataque, assim com o durante outros
acessos agressivos anteriores, o paciente dirigiu para si m esm o toda a sua
raiva. Ele nunca representou perigo para os que estavam à sua volta. Por
outro lado ele bate, m orde e arranha a si m esm o num grau que deve ser
qualificado de extenso. Diz frequentem ente: “Eu vou gritar até tirar você do
m eu corpo”. Não se sabe quem é esse “você”. As tendências autodestrutivas
do paciente são tão pronunciadas que se tem e o suicídio.
A fam ília do paciente entregou ao hospital duas cadernetas, que durante os
dias im ediatam ente anteriores à internação o paciente preencheu com sua
correspondência de “escrita autom ática” com Deus. Há um a série de
perguntas com a caligrafia do paciente, que Deus responde com um a letra
grande, infantil, que é na verdade a letra do paciente, apenas m aior. Em
alguns lugares o que Deus escreve está tão pálido que quase é ilegível,
aparentem ente para o próprio paciente, porque na linha seguinte ele pede
para a resposta ser escrita m ais claram ente. Às vezes a resposta de Deus
não passa de tagarelice. O conteúdo dessas cadernetas é m uito
estereotipado, ingênuo e sem im aginação, caracterizado por um com plexo
de inferioridade e referências à cham ada m issão do paciente. Além disso, o
paciente preparou docum entos endereçados às pessoas do m undo. Ele ticou
vários artigos de um j ornal norueguês.
Tratamento:
Recom enda-se que o paciente sej a tratado com a nova terapia de
eletrochoques.
Observações:
Apesar do agressivo tratam ento com eletrochoques, não foi possível
induzir o paciente a desistir do seu com portam ento autodestrutivo. Com isso
se decidiu am arrá-lo.
24 de dezembro de 1943
Pela prim eira vez desde a internação o paciente quis ver sua m ulher,
Am alie Hj ort Worning. A sra. Worning, que parece extrem am ente
preocupada com a situação, tentou acalm ar o m arido. Eles passaram a
m anhã j untos no quarto dele. Quando foi em bora, m ais ou m enos na hora do
alm oço, ela com entou com um a enferm eira que o m arido parecia calm o,
em bora dizendo coisas que não tinham sentido. Ele queria que ela lhe
levasse seu equipam ento de rádio.
Radiologia:
Foi solicitada um a consulta.
Conversa supervisionada com um a estenógrafa presente. Médico da
psiquiatria P. W. Levin.