O Último Homem Bom

A. J. Kazinski · Capítulo 37 de 137

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O Último Homem Bom

Caso de homicídio: Ludvig Goldberg

– E isso teve relação com as tendências paranoicas que ela m anifestou depois?

– Onde é que estão os relatórios m édicos? – Niels procurou nas páginas. – Aqui não m encionam nada sobre isso. Só dizem que a paranoia dela foi progressivam ente aum entando e que em 2006 e 2008 ela precisou ser internada no Lakehead Psy chiatric Hospital, em Thunder Bay. Um psiquiatra cham ado dr. Aspeth Lazarus caracterizou Sarah com o “quase totalm ente incapacitada, de tem pos em tem pos, pela ansiedade. Com um a im pressão crescente de que alguém estava querendo pegá-la”.

– Querendo pegá-la? Quem estava querendo pegá-la?

– Não diz aqui. Mas quem quer que fosse, conseguiu, porque no dia 31 de j ulho Sarah foi encontrada m orta no carro dela na frente do superm ercado Sobey. “A polícia se recusou a descartar...” – Niels passou os olhos pelo resto do artigo e traduziu: – Eles se recusaram a descartar a possibilidade de assassinato, m as não houve prisões no caso. Pode ter sido envenenam ento.

– Envenenam ento?

– É.

– Diz m ais algum a coisa?

– Diz que Sarah Johnsson foi enterrada no Riveside Cem etery, em Thunder Bay.

– E quanto ao desenho nas costas dela? O que é que eles falam sobre isso?

Niels leu um pouco m ais e então voltou às páginas anteriores.

– Não tem nada sobre isso. Espere um pouco. Aqui tem um trecho do relatório da autópsia. “Erupção cutânea nas costas”.

– Será que foi por isso que a polícia desconfiou de envenenam ento com o causa da m orte?

– Provavelm ente. Mas o caso foi encerrado.

Hannah m eneou a cabeça e pegou o cigarro. Niels se levantou e cam inhou pela sala. Quando chegou à outra parede, voltou-se e retornou.

– Eu não entendo – disse ele sem olhar para Hannah. – Por que Tom m aso di Barbara reuniu tanto m aterial assim ?

Ele se sentou novam ente. A cadeira de vim e rangeu sob o seu peso. Então a sala ficou em silêncio.

– Podem os continuar? – perguntou Niels depois de um m om ento. – Você acha que tudo isso tem algum sentido?

– Vam os ver o próxim o caso. Abra outra vez os Manuscritos do Mar Morto.

– Tudo bem . Assassinato núm ero dois – com base na ordem em que foram m andadas as páginas. O próxim o é no Oriente Médio.

Caso de homicídio: Ludvig G oldberg

Dessa vez Niels se sentou no chão e espalhou todo o m aterial, que ficou parecendo peças de um quebra-cabeça: doze peças cobertas de texto que form avam um a figura da vida e da m orte de Goldberg.

– Então, o que tem os? – indagou Hannah.

– Tudo, pelo que eu vej o. Obituários. Trechos de diário. Entrevistas. Um texto que parece um poem a. Mas quase tudo em hebraico. Ele era bem bonito. – Niels entregou a Hannah um a foto de Goldberg. Olhos escuros com um a expressão preocupada. Óculos de intelectual. Um rosto fino com traços delicados.

– O que é isso? – Hannah apontou para um quadrado ligeiram ente borrado em um a das páginas do fax.

– FDI: Forças de Defesa de Israel. Seus docum entos m ilitares. Acho eu. Ele ficou preso um a vez.

– Ele não parece soldado. Onde é que eu ponho o X?

– Em Ein Kerem .

– Onde é que fica isso?

– É um subúrbio de Jerusalém .

Hannah olhou para ele. Surpresa ou im pressionada.

– Você j á viaj ou m uito?

– Bastante. Na im aginação.

Ela sorriu, m as Niels não notou isso. Estava lendo um relatório policial.

– Ludvig Goldberg foi encontrado m orto no dia 16 de j unho deste ano. Estava caído... – Ele parou de ler e se arrastou no chão até outra página. – Vam os com eçar com isto. O obituário.

– De um j ornal?

Niels procurou nas páginas.

– Da escola secundária Shevah Mofet, em Tel Aviv, onde ele era professor. Escrito num inglês m acarrônico.

– Talvez o italiano tenha tentado traduzir – sugeriu Hannah. – Ou então usou o Google.

– Pode ser. Ele nasceu em 1968 e cresceu no kibbutz Lehavot Haviva, perto da cidade de Hadera. Sua fam ília veio da Ucrânia. Sua m ãe é de... – Niels desistiu de ler o nom e em voz alta. – Tem um a longa seção sobre a proveniência de todos os seus ancestrais.

– As sagas fam iliares são m uito populares no Oriente Médio – disse Hannah, e depois com pletou secam ente: – Vej a a Bíblia, por exem plo.

Agora Niels estava lendo outra seção. A página que estava borrada e parcialm ente ilegível.

– É um relatório m ilitar. Suspeitava-se que ele fosse hom ossexual. – Ele olhou m ais para cim a. – É o que diz aqui. Sem com entário. Parece que Goldberg foi preso depois de transgredir um regulam ento qualquer.

– O que foi que ele fez?

– Não sei. Mas ele pegou um a sentença de um ano num a prisão m ilitar, então deve ter sido algum a coisa bem séria. Aqui tem tam bém um trecho de um editorial do Jerusalem Post de 1988, no qual Ariel Sharon...

– O Ariel Sharon?

– Suponho que sim . Ariel Sharon se refere a Goldberg com o tendo “tudo o que este país não precisa”.

– Então o crim e que ele com eteu deve ter cham ado m uita atenção.

Niels concordou.

– O que é que eles falam aí sobre a m orte dele? Tem um relatório da autópsia?

Niels folheou as páginas.

– Não, m as tem outra coisa – disse ele. – Um trecho de um discurso feito por alguém cham ado Talal Am ar no dia 7 de j aneiro de 2004 na Universidade Birzeit, em Ram allah, e reproduzido na revista Time.

– Talal Am ar? Quem é?

Niels deu de om bros.

– Ele disse: “No Oriente Médio nunca se sabe o que o futuro trará, m as depois de ter ficado ao lado de Rabin e Arafat enquanto eles se apertavam as m ãos na frente da Casa Branca eu estou m uito otim ista. Na verdade a m inha esperança no futuro j á tinha renascido em 1988, durante a Intifada, quando um j ovem soldado israelense desobedeceu as ordens e m e libertou, j unto com m eu irm ão, de um cam po de prisioneiros de Israel, o que nos livrou de anos de prisão. Nunca esquecerei o olhar do soldado quando ele nos libertou. Até aquele dia todos os israelenses eram m onstros para m im . Mas a partir daquele m om ento eu soube que eles são hum anos, exatam ente com o eu”.

– Rabin e Arafat – disse Hannah. – Ele está falando do acordo de paz. O que é que Goldberg tem a ver com isso?

– Ou m elhor, o que é que Talal Am ar tem a ver com isso?

– Muita coisa, supostam ente. Do contrário ele não seria entrevistado pela revista Time. Ou não estaria diante da Casa Branca quando o acordo foi assinado. Ele deve ter sido um dos negociadores de paz palestinos.

– Aqui se fala um pouco sobre com o Goldberg m orreu. – Niels leu parte do texto antes de prosseguir. – Diz que é de “um a fonte desconhecida”. Vou fazer o possível para traduzir. “Nos dias que antecederam a sua m orte, Goldberg estava em Ein Kerem visitando o casal de artistas Sam i e Leah Lehaim . Goldberg não parecia estar bem . Queixava-se de dor nas costas e nas coxas, e, de acordo com Leah, parecia paranoico. Com o se alguém o estivesse perseguindo. Na noite de 26 de j unho, Goldberg saiu para fum ar. Ele com eçou a dem orar m uito lá fora e então Sam i Lehaim saiu para procurá-lo. Goldberg estava caído no cascalho diante da casa. Morto.”

– Dizem algum a coisa sobre a m arca nas costas dele?

Niels procurou nas páginas.

– Pelo m enos eu não encontro nada. Não se fala em causa da m orte, m as ela é classificada com o hom icídio.

– Por quê?

Niels ergueu os om bros.

– Talvez ele tivesse inim igos.

– Provavelm ente foi Sharon que o m atou. – Hannah sorriu. – Por causa do que aconteceu em 1988.

– O incidente de 1988. – Niels estava pensando em voz alta. – E se o j ovem soldado israelense que libertou Talal Am ar fosse...

– Ludvig Goldberg.

Niels assentiu com a cabeça. Durante um m om ento, talvez pela prim eira vez desde a sua chegada, eles olharam nos olhos um do outro.

Hannah disse:

– Então deve ser por isso que o policial italiano lhe m andou o trecho do discurso de Am ar.

Niels não respondeu.